Os Filhos da Madrugada: uma entrevista por dia com quem nasceu em democracia

Anabela Mota Ribeiro conversa com 25 mulheres e homens sobre nascer e crescer no Portugal pós-Estado Novo. Na RTP3, às 22h30, de 1 até 25 de Abril.

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O primeiro programa é com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida Estelle Valente

Em 25 conversas, Anabela Mota Ribeiro quer “traçar um retrato do Portugal que se foi fazendo nestes 47 anos de democracia”. A sua nova série de entrevistas, diárias, com Os Filhos da Madrugada – 25 mulheres e homens cuja data de nascimento cabe nos 47 anos de democracia e nos quais se encaixam várias gerações – tem estreia esta quinta-feira, às 22h30, na RTP3. São cientistas, rappers, governantes, pastores evangélicos, professores ou apresentadores cujas histórias são fonte de optimismo para a entrevistadora. “Não ficamos mal no retrato porque em 1974 24% da população era analfabeta, e se pensarmos no acesso que as pessoas têm hoje à educação...”, diz, citando um dos vários indicadores que polvilham as conversas, números com eco na vida dos entrevistados, dos espectadores e da própria entrevistadora neste seu regresso à televisão.

“Temos quase tantos anos de democracia quanto de ditadura”, recorda Anabela Mota Ribeiro ao PÚBLICO sobre o espectro das entrevistas que estarão no ar, uma por dia, até 25 de Abril. As primeiras entrevistadas são a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (dia 1) e a enfermeira Carmen Garcia (dia 2). Ambas nasceram na década de 80, uma em Luanda, outra em Évora.

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Carmen Garcia em estúdio com Anabela Mota Ribeiro Estelle Valente

Os critérios de escolha dos interlocutores de Anabela Mota Ribeiro foram um conjunto de “muitos equilíbrios”, resume a entrevistadora. Diferentes idades, origens, experiências, orientações políticas ou graus de politização. A paridade era importante para esta “feminista defensora das quotas” que acabará por conversar com um número ligeiramente superior de mulheres, mas também com muitos homens. “Isto acompanha um fenómeno da democracia, as mulheres a saírem do lar e a passarem a ocupar lugares na esfera pública – o que não quer dizer que ocupem lugares de poder”, nota.

O mais recente programa de TV de Anabela Mota Ribeiro foi o seu Curso de Cultura Geral, na RTP2, em 2017/18. Foi também nesses anos que conduziu, no Centro Cultural de Belém, o ciclo de entrevistas (Quase) Toda Uma Vida, com personalidades como Eduardo Lourenço, Jorge Sampaio, Maria Belo ou Frei Bento Domingues. Percebeu aí que “aquilo que tinha sido estruturante nas vidas [dos seus entrevistados]”, tão diferentes, “tinha sido crescer numa ditadura”. Os Filhos da Madrugada, baptizados com o título da canção de Zeca Afonso, repete a experiência agora com a geração do pós-25 de Abril.

Há semanas, o historiador Rui Tavares escreveu no PÚBLICO sobre a sua mãe, que foi para Lisboa trabalhar como empregada doméstica, e sobre as transformações sociais a que o país assistiu desde então. Carmen Garcia escreveu também no PÚBLICO sobre o pai e a sua experiência na Guerra Colonial. Ao PÚBLICO, Anabela Mota Ribeiro cita essas duas crónicas e nomeia uma das coisas que a revolução representou para si: “O fim da guerra e o regresso do meu pai.” Volta ao tema da educação. “A minha avó era analfabeta e eu sou doutoranda, sou uma filha da escola pública. Isto faz-se em duas gerações.” Nascida em Trás-os-Montes em 1971, já não cumpriria o critério de entrevistada para o programa, mas admite: “A minha voz confunde-se com a destas pessoas.”

Histórias de um país

As gravações de Os Filhos da Madrugada, que se iniciaram há uma semana, têm sido marcadas pela covid-19 – todos os dias a entrevistadora (bem como o entrevistado do dia) faz o teste; só a dupla à conversa está sem máscara num estúdio onde uma mesa de três metros separa os dois interlocutores. São 20 minutos sem cortes, em que por vezes há fotografias ou livros à mão para ilustrar a história de pessoas que, em muitos casos, nunca foram à televisão, e cujo trajecto é também o do país nascido do 25 de Abril. “Estou a aprender muito sobre o meu próprio tempo cronológico”, diz Anabela Mota Ribeiro, esperando que estas conversas possam interpelar os espectadores e gerar “reflexão”, “metabolização”, “diálogo”.

A democracia é imperfeita, como o é o país que celebrará o seu 47.º aniversário no dia 25. O programa não esquece que “a vida de todos os dias é sempre aos tropeções, cheia de erros, com enormes problemas”, ressalva Anabela Mota Ribeiro, comentando o retrato optimista que considera sair do obturador de Os Filhos da Madrugada. “Nenhum país é perfeito, mas alguns indicadores dizem-nos que os passos dados foram significativos e trouxeram uma mudança radical para a vida de muitas pessoas”, entre “processos lentos, que se vão sedimentando” ou “saltos enormes de um ano para o outro”.

Uma das suas entrevistadas nasceu já nos anos 2000, depois dos atentados de 11 de Setembro, é rapper e integra o cartaz do Sumol Summer Fest 2021. A canção Sushi (2019), de Nenny, tem mais de 14 milhões de visualizações no YouTube e Anabela Mota Ribeiro recorda uma das rimas da cantora que vive entre o Luxemburgo e a freguesia da Vialonga: “'Safoda a porta/ Vou pela window.” É uma janela para o presente. “O Portugal que somos, 2021, incorpora isto tudo.”

Notícia corrigida às 11h04: correcção à lista de convidados do programa, que já não contará com a presença de um homem transgénero