Camisola poveira: a apropriação cultural é uma constante na história da moda?

Dos romanos aos índios, até Coco Chanel, a apropriação sempre esteve presente e pode até ser positiva, quando feita da forma correcta, consideram os especialistas.

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Na loja online de Tory Burch estava à venda uma imitação das camisolas poveiras, sem qualquer menção à origem portuguesa Danny Moloshok/Reuters
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Em 2018, a criadora tinha mais de 250 lojas em nome próprio Charles Platiau/Reuters
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A camisola que está no centro da polémica DR

Nos últimos dois dias, depois de o PÚBLICO ter revelado que a designer norte-americana Tory Burch estava a vender camisolas poveiras a 695 euros, as redes sociais inundaram-se de duras críticas. Agora, Governo admite ir para tribunal lutar contra apropriação da camisola poveira. Afinal o que é a apropriação cultural? É comum ao longo da história de moda? É diferente de plágio ou de inspiração? Especialistas em história da moda garantem que “só é mau, quando a cultura original se perde”.

Apropriação cultural — pegar em objectos e hábitos de outras culturas e transportar para a nossa — não é novidade, mas a designer norte-americana Tory Burch tem dado que falar pelos piores motivos. Na sua loja online estava à venda uma imitação das camisolas poveiras, sem qualquer menção à origem portuguesa da peça. Inicialmente, a criadora atribuía a origem ao México, depois alterou para “Póvoa de Varzim Inspired Sweater” e, agora, foi eliminada.

“Em Portugal, temos uma riqueza extraordinária em vestuário tradicional, é pena que não seja mais utilizada, mas esta forma, além de desonesta, é inculta”, começa por lamentar o historiador da moda e professor, Paulo Morais Alexandre. O docente explica que a apropriação cultural é comum ao longo da história da moda e relembra o caso dos romanos. Na Roma Antiga, “havia pena de morte para quem usasse vestuário cortado e cozido”, mas ao terem contacto com os gauleses, os romanos começaram as usar calças — ainda que fosse considerado inapropriado.

A jornalista e docente de História Social da Moda na Universidade Carlos III, em Madrid, Maria João Martins, recorda a época dos descobrimentos, em que muitas roupas orientais foram trazidas para o ocidente, como os quimonos japoneses. Relembra também os mocassins, calçados inicialmente pelos índios, ou as calças de ganga, usadas pelos trabalhadores rurais nos Estados Unidos, e que se popularizaram por todo o planeta.

Da história da moda mais recente, Paulo Morais Alexandre e Maria João Martins, destacam o caso de Coco Chanel, a famosa designer francesa. Depois da revolução, muitos russos emigraram para Paris e levaram, claro, as suas tradições. Chanel recorreu aos bordados russos em muitos das suas criações na época e terá, inclusive empregado várias bordadeiras no seu atelier. O tecido tweed — hoje muitas vezes conhecido por Chanel — também provém de uma apropriação cultural. Coco Chanel namorava com o duque de Westminster, inspirou-se nos seus casacos e transformou-os numa peça feminina. “A apropriação pode ser meramente coincidência”, reconhece Paulo Morais Alexandre.

Maria João Martins assinala, por outro lado, que a apropriação cultural também pode ter consequências económicas graves e recorda um triste episódio da revolução industrial inglesa. A Índia foi proibida de transformar o algodão, tendo este passado a ser feito em fábricas em Inglaterra para depois ser exportado de novo para a Índia.

Sem valor ou talento

Mais do que a componente económica, para a designer e professora Maria Gambina importa diferenciar inspiração de apropriação ou cópia: “Na inspiração, há pesquisa, trabalham-se determinados elementos que pertencem a uma cultura, mas dá-se um cariz mais pessoal, com técnicas diferentes”. O que fez Tory Burch é, para a designer, “uma cópia”. “Quem copia, é porque não tem valor, nem talento”, classifica.

Paulo Morais Alexandre acredita que a apropriação cultural é natural, já que “vamos buscar muitas coisas às outras culturas, e evoluímos a partir disso” e acredita que pode até “valorizar a cultura”. Ainda assim, condena o tipo de apropriação que fez Tory Burch: “Essa apropriação implica o despojar do valor cultural e ficar só com a parte estética do objecto, perde o sentido”.

Utilizar símbolos ou peças de vestuário tradicionais pode também chamar a atenção para “coisas que passavam despercebidas”, analisa Maria Gambina. A designer recorda, por exemplo, uma saia que fez com o bordado de Arraiolos, mas com “uma volumetria diferente”.

A apropriação cultural é então uma constante ao longo da história da moda e das civilizações. “Sempre existiram apropriações cultuais e sempre vão existir”, conclui Maria João Martins.