Três audiências, a mesma conclusão: o Novo Banco nasceu torto

Os deputados têm estado a ouvir a mesma história sobre o momento em que o Novo Banco nasceu. José Honório, ex-administrador do banco, contou que, por quatro vezes, pensou deixar o projecto e que a equipa de Bento teve razão antes do tempo.

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LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

Os deputados da comissão de inquérito ao Novo Banco estão esta quarta-feira a ouvir o terceiro elemento da primeira equipa de gestão que liderou o banco que nasceu do fim do BES. José Honório recorreu a uma imagem para mostrar o que a primeira administração do Novo Banco recebeu: “Era-nos dado um paciente em cuidados intensivos mas sem ter os mecanismos para o reabilitar”. 

O antigo administrador do Novo Banco, que fez parte da equipa de Vítor Bento, disse aos deputados que esta foi a conclusão a que a equipa chegou sábado, dia 2 de Agosto de 2014, um dia depois de terem sido informados sobre a resolução do BES e depois de analisarem com os advogados o que isso significaria. A resolução só aconteceu um dia depois e o Novo Banco abriu portas segunda-feira, 4 de Agosto.

“Na nossa opinião, o banco não tinha capital adequado para funcionar, fazer face a um processo de reestruturação e absorver perdas cambiais resultantes da exposição ao BES Angola”, disse. “Para nós, era evidente que o capital era insuficiente”, precisou. Mais: “Percebi que algumas das operações, algumas de reestruturação, levantavam dúvidas”. Eram complexas, disse, acrescentado que o seu risco não estava devidamente acautelado. O banco precisava de “ser reestruturado” e não tinha capital para isso, nem tempo para se desfazer de activos de imobiliário.

Honório disse mesmo que o capital de arranque era “parco”, “exíguo” e que mais tarde foi possível perceber que a resolução, ao impor um banco de transição, acabava por impor que o Novo Banco fosse “constituído pelo capital mínimo”. O ex-administrador acrescentou que o supervisor não deu nenhuma resposta às preocupações do conselho de administração do banco quanto à insuficiência do capital - “não tivemos resposta”, disse - e mostrou-se muito crítico do facto de a gestão do banco não ter tido conhecimento dos compromissos confidenciais que o Governo assumiu junto da Comissão Europeia. “Imagine o que é gerir uma empresa assim”, disse.   

O Novo Banco arrancou com uma injecção de capital de 4,9 mil milhões de euros que a primeira equipa que geriu o banco considera não ter sido suficiente. Na terça-feira, Vítor Bento, o primeiro presidente executivo do banco, tinha dito que o banco abriu portas com capital “demasiado à pele”.

Na semana passada, João Moreira Rato, ex-administrador financeiro do banco, adiantou aos deputados que “pouco tempo depois [da resolução, quando foram injectados 4900 milhões de euros no Novo Banco], ainda em Agosto, discutimos que o capital podia não ser suficiente para fazer face aos problemas que podiam ainda acontecer. Comunicámos essa nossa preocupação ao Banco de Portugal”, disse no inquérito que aconteceu na semana passada. 

Para caracterizar as dificuldades durante o tempo em que esteve no Novo Banco, José Honório disse ainda que, “durante as oito ou nove semanas” em que esteve no BES e no Novo Banco, “ponderei seriamente manifestar a minha indisponibilidade quatro vezes, a última foi irrevogável”.

José Honório defendeu que a equipa liderada por Vítor Bento “tinha toda razão em dizer que ia correr muito mal a vida ao Novo Banco no processo que ia seguir”, mas que tiveram razão “antes de tempo”. O ex-administrador estranhou que não tivesse havido envolvimento político na garantia soberana do Banco Nacional de Angola sobre a dívida do BES Angola ao BES.