Adolescentes em ferida

No essencial, a automutilação é uma forma silenciosa de lidar com uma dor emocional demasiado intensa e para a qual o jovem não encontra solução. Os cortes aparecem como uma “automedicação” que evita a tomada de consciência das emoções dolorosas, convertendo-as numa dor física controlável.

Foto
Getty Images

Nos consultórios de psicologia, as queixas de comportamentos autolesivos, em particular os cortes em adolescentes, têm vindo a aumentar. A investigação sugere que ocorrem cada vez mais cedo e são mais frequentes nas raparigas, estando associados a acontecimentos de vida stressantes. Muitas destas jovens têm dificuldades na regulação do humor e no controlo de impulsos, traços de personalidade perfecionista, dificuldades no relacionamento social e na resolução de problemas. 

Os casos que chegam aos consultórios não serão os mais sérios, por comparação com aqueles que recorrem às urgências médicas, mas são, ainda assim, muito preocupantes e sentidos como “incompreensíveis” pelos adultos que solicitam apoio para os seus jovens.

O mundo dos adolescentes gira à volta da família, dos amigos e da escola. Várias perturbações podem surgir em vários contextos e provocar um sofrimento que precisa de ser verbalizado. A solidão está agora acentuada pela situação de pandemia e o relacionamento virtual não favorece a partilha espontânea das emoções negativas.

Num mundo em que adultos e crianças têm a “agenda” cheia, pouco espaço para a comunicação afetiva e em que as redes sociais são utilizadas para veicular uma imagem “perfeita” de si, os jovens, abandonados, não têm a quem contar a sua história e, não poucas vezes, entram em desespero.

No essencial, a automutilação é uma forma silenciosa de lidar com uma dor emocional demasiado intensa e para a qual o jovem não encontra solução. Os cortes aparecem como uma “automedicação” que evita a tomada de consciência das emoções dolorosas, convertendo-as numa dor física controlável.

O que podem os adultos fazer perante um adolescente em risco? Deixamos algumas sugestões:

— Garantir um espaço seguro de relação e comunicação: sem preconceitos nem julgamentos, dando voz ao adolescente e validando as suas emoções;

— Contar com a ajuda de vários profissionais de saúde: médico de família, pedopsiquiatra, psicoterapeuta para realizar uma avaliação médica e psicológica do jovem e iniciar um plano conjunto de tratamento que deverá continuar para além da eliminação do comportamento autolesivo, tendo em conta a necessidade de autoconhecimento, aumento da autoestima e do autocuidado e a aprendizagem de estratégias construtivas de identificação e resolução de problemas;

 — Procurar informação detalhada sobre o assunto: em fontes seguras e credíveis; conhecer os serviços e linhas SOS que podem apoiá-lo e ao seu adolescente – por exemplo, Aparece Saúde Jovem, SOS Voz Amiga, SOS Estudante;

— Apostar na alfabetização emocional: mesmo enquanto adultos, estamos pouco treinados para identificar as nossas emoções e as emoções dos outros e para encontrar estratégias saudáveis para lidar com a ansiedade e a depressão. Uma sugestão que deixamos é a de ler autores que escrevem sobre inteligência emocional (como Daniel Goleman). Também pode considerar a inscrição em workshops e cursos de inteligência emocional.

Foto
No essencial, a automutilação é uma forma silenciosa de lidar com uma dor emocional demasiado intensa e para a qual o jovem não encontra solução Callie Gibson/Unsplash

É importante que o(s) adulto(s) responsáveis pelo adolescente estejam atentos às suas próprias necessidades, sabendo solicitar o apoio emocional e prático de familiares e amigos próximos, recorrendo também à ajuda de profissionais de saúde para refletir e elaborar emocionalmente o problema que enfrentam e usufruir de atividades de relaxamento. O exemplo de autocuidado perante uma situação tão stressante é de uma enorme ajuda para o seu adolescente.

“Por favor... Prende-me a ti!”, disse a raposa ao principezinho. Ele, apressado, respondeu: “Eu bem gostava, mas não tenho muito tempo.” Ela insistiu. “Só conhecemos as coisas que prendemos a nós. Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas não há vendedores de amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!”  “E o que é preciso fazer?”, perguntou o principezinho?

A pergunta que surge em O Principezinho, escrito por Saint- Exupéry, em 1943, continua hoje a ser feita por pais e adolescentes, e a resposta de Saint-Exupéry permanece muito válida. Está lá (quase) tudo o que é preciso saber...