Trabalhadores da Groundforce receiam já estar a lutar pela sobrevivência da empresa

Governo diz que não foi possível haver acordo a envolver um adiantamento de verbas por parte da TAP porque as acções da Alfredo Casimiro já estão penhoradas junto de um ou mais credores do empresário. Trabalhadores manifestaram-se esta segunda-feira no Parlamento.

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Trabalhadores manifestaram-se hoje em frente à Assembleia da República LUSA/ANDRÉ KOSTERS
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Grupo TAP detém 49,9% do capital da empresa LUSA/ANDRÉ KOSTERS

Na falta de um entendimento que permita à Groundforce receber um adiantamento por parte da TAP, accionista e cliente da empresa de tratamento de bagagens e carga dos aviões (handling), a Comissão de Trabalhadores (CT) já teme pelo futuro e não apenas pelo pagamento dos salários a tempo e horas.

“Neste momento, é claro que, a breve trecho, deixaremos de estar a lutar apenas pelo salário, mas pela empresa e pelos postos de trabalho”. A frase consta do comunicado emitido pela CT este domingo, após a ausência de um acordo entre o maior accionista da Groundforce, Alfredo Casimiro (dono de 50,1% do capital, via Pasogal) e o Ministério das Infra-estruturas (que tutela a TAP, dona dos outros 49,9%).

Este ministério, liderado por Pedro Nuno Santos, e a TAP exigiam que o empresário apresentasse as suas acções como garantia de um adiantamento de cerca de dois milhões de euros para pagar os salários de Fevereiro, mas Alfredo Casimiro aceitava apenas na condição de manter o controlo da empresa, mesmo que a garantia fosse executada.

Já esta segunda-feira, fonte oficial do Ministério das Infra-estruturas esclareceu que não foi possível haver acordo porque as acções já estão penhoradas junto de um ou mais credores de Alfredo Casimiro, o que inviabiliza poderem ser apresentadas como garantia à TAP – que, por sua vez, estará agora a tentar perceber quem poderá vir a ficar com essas acções.

CT teme insolvência

No comunicado, a CT diz que foi recebida pelo ministro na sexta-feira e que “foi devidamente clarificado que a nacionalização não é um cenário a concretizar, o que, a curto prazo, significará a insolvência” da Groundforce. A CT diz ainda considerar “absolutamente inadmissível que os trabalhadores estejam a ser alvo de um jogo de força entre accionista privado vs Estado”.

A empresa tem actualmente 2398 funcionários, menos 15% do que em Maio do ano passado. Para já, de acordo com um outro comunicado da CT, emitido na sexta-feira, parte dos salários do último mês já foram pagos, mas desconhece-se qual a dimensão dos pagamentos.

A CT marcou uma manifestação para o final da manhã e início da tarde de hoje, em frente ao Parlamento. Segundo o comunicado, foram endereçados pedidos de audiência a todos os partidos, e pelo menos o PCP e o PAN tinham “mostrado disponibilidade” para receber os representantes dos trabalhadores.

João Alves, membro da CT reafirmou hoje à Lusa o receio expresso no comunicado, ao afirmar que os trabalhadores poderão já estar “a lutar pelo posto de trabalho” e não apenas “a lutar pelo salário”. A CT afirmou ainda desconhecer quais são as hipóteses que estão agora em cima da mesa para o futuro da empresa, que tem recorrido ao layoff.

Financiamento em standby

Em aberto está o pedido de uma linha de financiamento de 30 milhões de euros. O processo foi formalmente desencadeado, ao abrigo das linhas de financiamento covid-19, no final de Fevereiro, uma vez completos todos os requisitos. A decisão deverá ser conhecida dentro de cerca de uma semana e meia, mas há aqui vários aspectos que se desconhecem.

Primeiro, que tipo de empréstimo (ou empréstimos) e linha de apoio está em causa. Segundo, porque é que, tal como afirmou Pedro Nuno Santos, as exigências ligadas ao empréstimo em causa, enquadrado nos apoios estatais à pandemia, “são as mesmas” do que as pedidas pela TAP (cliente e accionista, em processo de resgate a ser negociado com Bruxelas), ou seja, as tais acções que, sabe-se agora, já estão penhoradas – o que assim sendo complica a aprovação do financiamento de 30 milhões. O PÚBLICO questionou o Governo, através dos ministérios das Finanças, da Economia e das Infra-estruturas, mas ainda não recebeu respostas.