Primeiro-ministro da Arménia acusa militares de tentativa de golpe

Militares juntaram-se à oposição e pediram a demissão do chefe de Governo, três meses depois da derrota com o Azerbaijão na região de Nagorno-Kharabakh. Kremlin “acompanha os desenvolvimentos com preocupação”.

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Pashinyan (no centro) atravessou parte da capital a pé na companhia de apoiantes Hayk Baghdasaryan/Reuters

Nikol Pashinyan, diz a Al-Jazeera, está a travar “a batalha política da sua vida”: o primeiro-ministro arménio acusou esta quinta-feira o Exército de o querer derrubar e demitiu o seu chefe do Estado-maior. As afirmações de Pashinyan, por escrito e através de um directo na sua página de Facebook, incluíram um apelo aos seus apoiantes para o acompanharem numa marcha pela capital que terminou num comício.

“Considero que a declaração do Estado-maior é uma tentativa de golpe de Estado militar. Convido todos os nossos partidários a juntarem-se na Praça da República”, escreveu Pashinyan. Em seguida, anunciou a demissão do general Onik Gasparyan, que lidera o Estado-maior das Forças Armadas, uma decisão que ainda terá de ser confirmada pelo Presidente. “O mais importante, agora, é manter o poder na mão do povo, porque considero que o que está a acontecer é um golpe militar”, afirmou ainda o primeiro-ministro.

Na quarta-feira, Pashinyan demitira o adjunto de Gasparyan, depois de este ter gozado publicamente com declarações suas em que punha em causa a fiabilidade de um sistema de mísseis russo, os Iskander, durante o conflito no enclave de Nagorno-Kharabakh, entre o fim de Setembro e 10 de Novembro.

Em resposta, vários oficiais de topo, incluindo Gasparyan, assinaram um comunicado onde faziam eco dos apelos da oposição para que o primeiro-ministro deixe o poder, acusando-o de “ataques destinados a desacreditar as Forças Armadas” e afirmando que “já não está em condições de tomar as decisões que se impõem”. “A gestão ineficaz do actual Governo e erros graves de política externa deixaram o país à beira do colapso”, lê-se no texto dos militares.

O mais grave conflito entre a Arménia e o Azerbaijão desde o fim da guerra que opôs os dois países depois de se tornarem independentes, em 1991, acabou com um cessar-fogo visto como uma humilhação para os arménios. O texto negociado pela Rússia garantiu que os azerbaijanos mantinham os territórios conquistados aos arménios, incluindo a histórica e simbólica cidade de Shusha (Shushi, segundo o Azerbaijão) e o controlo do estratégico Corredor Lachin, onde está a única auto-estrada que liga o enclave à Arménia.

A Rússia, que tem uma base militar na Arménia, enviou uma força de manutenção de paz para a região.

Na altura, Pashinyan descreveu o acordo como “indescritivelmente doloroso”. Contando com o apoio público dos militares, o primeiro-ministro enfrentou manifestações e pedidos de demissão desde o primeiro dia – o pico do Inverno acalmou a contestação, mas os gritos de “Traidor” e “Demite-te” regressaram entretanto à rua.

“Pedimos a Nikol Pashinyan para não levar o país em direcção à guerra civil e ao derramamento de sangue. Pashinyan tem uma última oportunidade de partir sem problemas”, ameaçou o Partido da Arménia Próspera, a principal formação da oposição, apelando a uma nova manifestação contra o chefe de Governo.

O presidente do enclave, que em grande parte permanece sob controlo de separatistas arménios, Arayik Harutynyan, está em Erevan e ofereceu-se para assumir o papel de mediador entre Pashinyan e o Exército. “Já derramámos demasiado sangue. Temos de ultrapassar as crises e seguir em frente”, afirmou.

O Kremlin está a “acompanhar com preocupação o desenvolvimento da situação na Arménia”, afirmou o porta-voz da presidência, Dmitri Peskov, citado pela agência TASS. Mas considera que “este é um assunto exclusivamente interno da Arménia, o importante e próximo aliado no Cáucaso”.