Nagorno-Karabakh: Rússia, Arménia e Azerbaijão assinam acordo para o fim da guerra

Horas depois do cessar-fogo que põe fim a seis semanas de conflito, quase 2000 membros das forças russas chegaram à região disputada. Azerbaijanos recuperam importantes territórios perdidos na guerra dos anos 1990.

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Nas ruas de Bacu muitos festejaram o acordo que pôs fim ao conflito Reuters/STRINGER

O mais grave conflito entre a Arménia e o Azerbaijão desde o fim da guerra travada entre os dois países depois da independência, em 1991, acabou com um acordo celebrado pelos azerbaijanos e que está a provocar protestos na capital arménia. Nas próximas semanas vai perceber-se se se tratar do fim definitivo para o mais antigo conflito europeu “sem solução".

O texto do cessar-fogo, negociado durante a noite e assinado também pela Rússia, prevê que o Azerbaijão mantenha o controlo de um extenso território que conquistou à Arménia na região de Nagorno-Kharabakh, o enclave de etnia arménia situado dentro das fronteiras oficiais azerbaijanas.

O primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, descreveu o acordo como “indescritivelmente doloroso” para si e para “o povo arménio”, num post no Facebook. Estas declarações foram a primeira indicação de que uma verdadeira trégua tinha sido alcançada. Desde o reacendimento da guerra, há seis semanas, já várias tentativas de mediação tinham fracassado.

Pashinyan diz ter tomado a decisão na sequência de “uma análise profunda da situação militar”, num momento em que as forças azerbaijanas se aproximavam de Stepanakert, a capital do enclave, e dois dias depois de terem reclamado a conquista da histórica cidade de Shusha, a segunda mais importante da região.

A confirmação chegou depois pela voz dos outros envolvidos: “A declaração trilateral assinada vai ser crucial na resolução do conflito”, disse o Presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, num encontro online com o Presidente russo, Vladimir Putin. Segundo Moscovo, a Turquia, principal aliado do Azerbaijão, concorda com o que foi negociado.

“O que está a acontecer em Kharabakh é uma verdadeira tragédia”, afirmou Putin. “Espero que todos os passos que tomámos recentemente conduzam ao estabelecimento de uma longa paz para benefício dos povos do Azerbaijão e da Arménia.”

Horas depois, chegavam à região perto de 2000 forças de manutenção de paz enviadas por Moscovo.

Segundo Aliyev, o acordo também envolve a mobilização de tropas turcas, mas responsáveis do Kremlin ouvidos pelo jornal Washington Post desmentem. O que está em cima da mesa é a possibilidade de instalar no Azerbaijão um centro de monitorização do cessar-fogo que poderia incluir a Turquia, explicou o assessor de imprensa de Putin, Dmitri Peskov. “As nuances dessa mobilização fazem parte de um acordo separado”, disse.

A declaração assinada determina que as forças da Arménia se retirem do enclave. As regiões de Aghdam e Kalbajar serão devolvidas ao Azerbaijão nas próximas semanas, permitindo o regresso dos refugiados que dali fugiram nos anos 1990.

Para os azerbaijanos passará também o controlo do estratégico Corredor Lachin, onde está situada a única auto-estrada que liga Nagorno-Karabakh à Arménia – algo que os arménios sempre recusaram ceder em todas as tentativas de negociação desde os anos 1990. Segundo Putin, é precisamente aqui que os soldados russos vão ocupar posições.

O apoio turco

O anúncio do acordo provocou violentos protestos em Erevan, com manifestantes a atacar edifícios governamentais e a saquear o gabinete do primeiro-ministro. Enquanto isso, festejava-se em Bacu, onde muita gente saiu à rua durante a noite, apesar de o recolher obrigatório em vigor desde o início do conflito, descreve a Al-Jazeera. As celebrações continuavam durante a manhã.

“Esta declaração tem um significado histórico”, escreveu Aliyev no Twitter. “Esta declaração constitui a capitulação da Arménia. Esta declaração põe fim a anos de ocupação. Esta declaração é a nossa Gloriosa Vitória”, congratulou-se.

Aliyev falou pouco depois com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan: segundo os media azerbaijanos, os dois celebraram a “brilhante vitória” do Azerbaijão. Foi o apoio turco que mudou o equilíbrio de forças e permitiu a Bacu as vitórias no terreno. Ancara desmente o envio de combatentes contratados na Síria, apesar dos muitos relatos coincidentes que o confirmam.

Fundamentais foram os drones comprados à Turquia e a Israel que permitiram aos azerbaijanos eliminar sistemas de defesa aérea e destruir centenas de tanques arménios.

Segundo as autoridades arménias, o conflito que começou no fim de Setembro fez 1200 mortos entre os seus militares e matou pelo menos 50 civis em Nagorno-Karabakh. O Azerbaijão nunca divulgou baixas militares, mas diz que os ataques da Arménia para lá das fronteiras do enclave deixaram 92 mortos entre a população. No entanto, já há quase três semanas Moscovo dizia que o balanço real de vítimas se aproximava das 5000.

Este foi o pior reacendimento do conflito desde o cessar-fogo declarado em 1994. A guerra entre a Arménia, de maioria cristã, e o Azerbaijão muçulmano começara três anos antes, quando o enclave arménio declarou a sua independência, em simultâneo com o colapso da União Soviética, e fez entre 20 a 30 mil pessoas mortos.