Banana Glamping: complexo turístico à volta das plantações da Madeira vence concurso de ideias

É um “novo conceito de complexo turístico sustentável, pensado para reaproveitar o desperdício das bananeiras” da ilha. Os autores venceram a competição Tomorrow Tourism Leaders e esperam começar a receber turistas em 2022. E avisam já: “Se não gostar de banana, não valer a pena vir”.

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Andreia Gomes Carvalho
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André, Cátia e Catarina são os mentores do projecto Banana Glamping DR
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Um glamping temático, inspirado na banana da Madeira e que inclui desde o reaproveitamento da planta para a construção das estruturas a visitas guiadas a produtores locais, foi o projecto vencedor do Tomorrow Tourism Leaders, um concurso nacional que tem como objectivo premiar uma “solução assente nos princípios da sustentabilidade” no sector do turismo.

O projecto chama-se Banana Glamping e o conceito nasce pela mão de Catarina Silva, Cátia Sousa e André Lopes, com formação nas áreas do Marketing, do Turismo e da Engenharia Mecânica respectivamente. A ideia passa por criar “um novo conceito de complexo turístico sustentável, pensado para reaproveitar o desperdício das bananeiras da Madeira”, resumem os autores.

“É um turismo de experiência”, afirma Cátia Sousa à Fugas. “Não é apenas um sítio onde os clientes vão pernoitar. Obviamente, todas as estruturas vão ser o mais confortáveis, inovadoras e sustentáveis possível mas, ao mesmo tempo, queremos aqui um elo de ligação entre a comunidade e os clientes.”

Entre as iniciativas inclui-se, por exemplo, ter visitas guiadas a plantações, “juntamente com os produtores de lá”, aponta Catarina Silva, para que os visitantes conheçam a história e o impacto que o produto tem na ilha, as diferenças entre a variedade madeirense e as outras ou como decorre o ciclo de produção, entre outras curiosidades associadas a este ícone da Madeira. Sabia, por exemplo, que a planta morre depois de dar o fruto?

A ideia passa ainda por utilizar produtos à base de banana no serviço de massagens, utilizar as folhas de bananeira no serviço de catering e, claro, utilizar o fruto na confecção do pequeno-almoço. “Verdade seja dita: se não gostar de banana, não vale a pena vir”, ri-se Catarina.

Uma das componentes essenciais do conceito está no reaproveitamento do desperdício gerado na produção de banana. Actualmente, apenas cerca de 12% da planta é aproveitada (o fruto, essencialmente), mas já existem vários projectos e investigação científica a nível internacional que exploram a utilização das folhas ou do caule para a produção de sacos, têxteis ou mobiliário, entre outras aplicações.

No caso do Banana Glamping, o objectivo será ter as estruturas das unidades de alojamento construídas a partir da transformação deste excedente, utilizá-lo na decoração (vai ser toda “à base do reaproveitamento de desperdício da banana”) e ter uma loja onde vendam merchandising (“carteiras, casacos, ...”) feito a partir da fibra da bananeira.

“O mais importante vai ser incentivar as entidades a fazerem esta transformação e nós sermos os parceiros”, aponta Cátia. “Ao falarmos com a Dra. Dorita Mendonça, directora executiva do Turismo da Madeira, também nos apercebemos que, realmente, já estão a existir projectos nessa área de transformação do desperdício da banana em matéria [na ilha]”, acrescenta Catarina. A premissa será criar uma rede de economia circular, em parceria com estas empresas e com os produtores locais de banana.

Neste momento, o conceito ainda está “em fase de projecto”, focado no plano de viabilidade económica. Em breve, vão arrancar as reuniões com produtores locais, determinantes na escolha do local onde implementar o projecto. Depois, o plano passa por “ir para a Madeira e pôr o Banana Glamping de pé”, avança Catarina. “A nossa visão passa por abrirmos no último trimestre de 2022”, revela André Lopes, 32 anos. Imaginam cinco tendas de glamping: duas para o sector de luxo e três para famílias. Isto, claro, “se tudo correr bem” e dentro dos prazos previstos, acrescenta Cátia.

É que os três, apesar de gostarem “muito da Madeira” e de já lá terem ido “algumas vezes”, não têm uma ligação directa ao arquipélago. A ideia até começou a germinar em Cabo Verde, onde Cátia e Catarina, 28 e 29 anos, se conheceram durante um estágio no âmbito do programa Inov Contacto, em 2019. Foi lá que conheceram plantações de banana e se aperceberam que “existia bastante desperdício”, recorda Catarina.

“Entretanto fui à feira da Planetiers [World Gathering, que decorreu em Lisboa no final de Outubro de 2020] e acabei por ter esta ideia: porque não juntar este tema da sustentabilidade, de aproveitar o desperdício da banana, e transformá-lo para o turismo, neste caso, um glamping.” A ideia será começar com um projecto na ilha da Madeira e, quem sabe, “escalar para outros locais onde existam também plantações”.

A questão da sustentabilidade é basilar no projecto. “Não é só a temática da banana. Queremos muito puxar aqui o turista a ter uma prática muito mais consciente das viagens que faz e mesmo levar estas práticas para casa”, acrescenta Cátia. Workshops de upcycling, formações ecológicas ou trabalhar a cozinha vegana são algumas das possibilidades.

A vitória no concurso, aponta Catarina, “foi uma validação da ideia que tivemos, um voto de confiança gigante”. O concurso, promovido pelo Fórum do Turismo e pelo Super Bock Group, com o apoio institucional do Turismo de Portugal, tinha como objectivo “identificar novas oportunidades para uma das sete regiões turísticas nacionais, contribuindo para tornar Portugal um destino turístico mais sustentável, através do produto Turismo de Natureza”, adianta o comunicado de imprensa.

Foram recebidas 740 ideias e, dessas, seleccionadas 190. Os sete finalistas foram apurados com o apoio das entidades regionais, tendo cada uma escolhido “a melhor ideia para a sua região”. A proposta vencedora, anunciada esta terça-feira pela secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, recebe um prémio pecuniário no valor de cinco mil euros, além de mentoria da região turística em que se insere, neste caso, a Madeira.

“Para além da viabilidade económica, os critérios em análise incluíam o apoio às comunidades locais, o respeito pela cultura e a preservação do património natural e edificado e a mitigação dos impactos negativos no meio ambiente”, refere o comunicado, destacando-se como “prioridades globais que reflectem o momento actual, marcado pela crise pandémica, e possibilitam gerar respostas adequadas para os territórios se desenvolverem social e economicamente através do turismo”.

O Tomorrow Tourism Leaders - Super Edition lançará em breve uma nova competição dedicada à sustentabilidade do canal Horeca, que abrange as áreas da hotelaria, restauração e cafetaria, “um dos sectores que também está a ser particularmente afectado pela pandemia”.