Saudades de Luis Sepúlveda num Correntes D’Escritas confinado e online

Festival literário da Póvoa de Varzim começa esta sexta-feira em modo exclusivamente digital, e num formato compactado. É dedicado ao malogrado autor de O Velho Que Lia Romances de Amor.

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Nuno Ferreira Santos

Estará ainda bem presente na memória dos leitores e amantes da literatura a sucessão de notícias sobre a evolução do estado de saúde do escritor chileno Luis Sepúlveda, que, cerca de dois meses após ter participado, em Fevereiro do ano passado, no festival Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, se tornaria numa das primeiras vítimas mediáticas da doença da covid-19, que nesse início de 2020 alastrara do Oriente até à Península Ibérica.

O festejado autor de O Velho Que Lia Romances de Amor, novelista e contista, mas também argumentista, cineasta, jornalista e activista político e ambiental, vai ser homenageado na edição deste ano do Correntes d’Escritas, que decorre esta sexta-feira e sábado, online, a partir daquela cidade.

Um ano depois, e após ter sido uma das últimas manifestações culturais públicas a realizarem-se presencialmente antes do primeiro confinamento, a circunstância de a pandemia nos manter arredados da rua e dos encontros públicos obrigou a que o festival decorresse apenas por via digital. A organização ainda ponderou o cancelamento da 22.ª edição do evento, mas optou por mantê-lo na agenda, ainda que em formato reduzido a dois dias e com a maioria das actividades a correr pela Internet.

“Será um Correntes d’Escritas diferente, com uma adaptação aos tempos que vivemos, mas isso será também mais um desafio, talvez dos maiores que tivemos até hoje, o que nos motiva”, disse à agência Lusa Luís Diamantino, o vereador da Cultura da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, entidade que promove o festival.

Principal mote na sucessão de mesas de conversas que serão difundidas ao longo destes dois dias, a figura e o universo literário de Luis Sepúlveda (1949-2020) vão estar também particularmente em cena no n.º 20 da revista Correntes d’Escritas, que lhe é inteiramente dedicada, e que será apresentada na cerimónia de abertura (esta sexta-feira, às 11h). E depois na exposição de fotografia de Daniel Mordzinski, O Mundo Sepúlveda, a “inaugurar” pelas 12h30; e ainda, a finalizar o programa do Correntes (sábado, 18h30), na leitura colectiva que a equipa do festival fará do seu livro História da gaivota e do gato que a ensinou a voar.

Como é já de tradição, a abertura oficial do festival vai fazer-se, na primeira manhã, com o anúncio dos vencedores dos prémios literários Casino da Póvoa e Fundação Dr. Luís Rainha, numa sessão que contará com uma intervenção da ministra da Cultura, Graça Fonseca.

Este ano, o prémio principal do evento é dedicado à poesia e conta com 11 finalistas, anunciados no dia 17 de Fevereiro, e escolhidos a partir de 70 obras enviadas ao concurso (recorde-se que, na edição do ano passado, dedicada ao romance, o vencedor do prémio foi o angolano Pepetela, com o livro Sua Excelência de Corpo Presente). O Prémio Fundação Dr. Luís Rainha é destinado a uma obra literária inédita sobre a Póvoa de Varzim. Entretanto e devido ao confinamento das escolas, a organização decidiu adiar para a edição de 2022 a atribuição dos prémios Correntes D'Escritas/Papelaria Locus e Conto Infantil Ilustrado/Porto Editora.

Já de tarde, e ainda a antecipar a sucessão das mesas temáticas, caberá ao escritor nascido na Argentina Alberto Manguel, também tradutor, editor e ex-director da Biblioteca Nacional desse país sul-americano, que actualmente reside em Portugal, fazer a intervenção inaugural do festival, em conversa com a jornalista Ana Daniela Soares, sob o mote A memória tem tendência para a ficção.

A seguir, e ao longo de mais três mesas e outras quatro “conversas a 2”, desfilarão pelos “ecrãs” do Correntes d’Escritas autores como Afonso Cruz, Alex Gozblau, Álvaro Laborinho Lúcio, Catarina Sobral, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Josep Maria Espirol, Juan Gabriel Vasquez, Lídia Jorge, Manuel Rui, Ondjaki, Onésimo Teotónio Almeida, Pepetela, Rui Zink, Simone Paulino, Valter Hugo Mãe, Maria Flor Pedroso, João Gobern e Carlos Vaz Marques.

Além destas conversas, o calendário do festival conta ainda com a exibição de um documentário de João Cayatte sobre a história de duas décadas de Correntes (estreado no ano passado); actividades de leitura de poesia e de contos, com o envolvimento da comunidade e dos autores convidados; e ainda o projecto especial As Penélopes, que porá um grupo de 12 escritoras e 12 bordadeiras da tradicional camisola da poveira a trabalhar em complementaridade na produção de textos e de camisolas.

O acesso às sessões poderá ser feito através do site da Câmara Municipal de Varzim, ou no Facebook do festival.