Nação Cherokee exorta à Jeep para deixar de usar o nome da tribo nos seus modelos

Após mais de 45 anos – e na véspera de novos lançamentos do bem conhecido modelo – a Nação Cherokee pediu à Jeep que dê novos nomes aos best-sellers Cherokee e Grand Cherokee.

america-norte,automoveis,eua,empresas,motores,america,
Fotogaleria
Jeep Grand Cherokee de terceira geração (2005-2010) DANIEL ROCHA
america-norte,automoveis,eua,empresas,motores,america,
Fotogaleria
Jeep Grand Cherokee de terceira geração (2005-2010) DANIEL ROCHA

O pedido surge numa altura em que o mundo empresarial e desportivo reexamina a utilização de imagens e estereótipos no meio de uma maior consideração social sobre igualdade após o homicídio de George Floyd, um homem de pele negra, sob custódia policial em Maio do ano passado. A equipa da NFL de Washington, por exemplo, retirou um apelido há muito considerado uma ofensa racial, enquanto a equipa profissional de basebol de Cleveland anunciou que iria retirar a designação “índios” do seu nome. A Land O'Lakes removeu a mulher indígena da sua embalagem e este mês a linha de xarope para panquecas Aunt Jemima, da Quaker Oats, passou a chamar-se Pearl Milling Company.

“Penso que estamos numa época neste país de tanto as corporações como os desportos de equipa retirarem o uso de nomes nativos americanos, imagens e mascotes dos seus produtos, camisolas de equipa e desportos em geral”, disse o chefe da Nação Cherokee, Chuck Hoskin Jr., à Car and Driver, tendo partilhado o mesmo pensamento mais tarde com o The Washington Post.

A Nação Cherokee tem repetidamente manifestado frustração com a utilização do seu nome pela Jeep, mas esta é a primeira vez que faz o pedido de mudança de uma forma directa.

“Os nomes dos nossos veículos foram cuidadosamente escolhidos e cultivados ao longo dos anos para honrar e celebrar o povo indígena americano pela sua nobreza, proeza e orgulho”, considerou a Jeep numa declaração ao The Post. “Estamos, mais do que nunca, empenhados num diálogo respeitoso e aberto com o chefe da Nação Cherokee, Chuck Hoskin, Jr..”

O Jeep Cherokee original foi introduzido em 1974 como um sport utility vehicle (SUV) original com assentos tipo baquet e “detalhes racy”, concebidos para apelar aos condutores mais jovens e aventureiros, lê-se no website da Jeep. Em 2020, o Cherokee e o Grand Cherokee representaram mais de 40% do total de vendas da Jeep, segundo o relatório da Car and Driver.

A Jeep chegou a substituir o nome Cherokee por Liberty no mercado norte-americano em 2002, mas acabou por inverter a decisão 12 anos depois, quando um estudo de mercado revelou haver “um carinho marcado” pelo Cherokee, escreveu o The New York Times em 2013.

“Queremos ser politicamente correctos, e não queremos ofender ninguém”, disse ao The Times, em 2013, Jim Morrison, o antigo director de Marketing da Jeep e agora chefe da marca para a América do Norte. “Não recebemos qualquer feedback que fosse depreciativo”, informou. Na mesma história, porém, uma porta-voz da Nação Cherokee disse que a tribo era “realmente contra os estereótipos” e que a tribo não tinha sido consultada.

A Associação Americana de Psicologia avançou que a utilização dos povos indígenas como mascotes e símbolos é uma forma de discriminação, que afecta negativamente a auto-estima das crianças indígenas e mina a capacidade das nações indígenas “de retratar imagens precisas e respeitosas da sua cultura, espiritualidade e tradições”.

“Imagine uma criança cherokee que quer fazer uma pequena pesquisa sobre a sua própria tribo. Ela escrever cherokee no motor de pesquisa do Google e qual é a primeira coisa com que é confrontada? Com o Jeep Cherokee”, disse Hoskin numa entrevista ao The Post. “Penso que isso diz algo a esse jovem sobre o país em que vive e como o país valoriza colectivamente a sua tribo quando o que sobressai é um SUV.”

O Jeep Grand Cherokee 2021 deverá chegar aos concessionários norte-americanos esta Primavera. Só que mesmo que as vendas sejam um sucesso, os cherokees não ganharão nada com isso, nem em royalties, uma vez que o nome da tribo não é marca registada. Ao longo da sua história, a Jeep já utilizou outros nomes nativos em veículos, como Comanche Eliminator e Gladiator Mojave.

A Jeep, actualmente sob o chapéu do grupo Stellantis, que casou a PSA com a FCA e que tem à frente dos seus destinos o português Carlos Tavares, não é a única a recorrer a nomes indígenas para vender carros. A indústria automóvel americana tem uma longa história de apropriação da identidade indígena americana, especialmente como meio de evocar a robustez e a fiabilidade nos SUV e nas pickups. A Chevrolet vendeu o Apache e o Cheyenne; a Pontiac tinha o Aztek (a grafia mais comum para a antiga civilização mexicana); a Mazda comercializava o Navajo e a Dodge tinha o Dakota. A Winnebago continua a ser um dos principais vendedores de caravanas e autocaravanas.

“Pode obter mais com um Jeep Cherokee de tracção às 4”, lê-se num anúncio dos anos 1970. “Fora da estrada, as possibilidades são ilimitadas, lidando com a maioria das situações com facilidade. On-road, em situações de condução escorregadia ou perigosa, herda-se uma confiança que nunca se pensou ser possível antes.”

Como chefe, Hoskin considera que o seu trabalho é contribuir para uma compreensão pública mais ampla da história e cultura cherokee. E, explica, o uso do nome da tribo em produtos como o Jeep Cherokee, embora bem-intencionado, não faz nada para aprofundar o conhecimento sobre a Nação Cherokee.

“É uma forma muito limitada de educar as pessoas”, disse Hoskin. “Também reforça a ideia de que os cherokees são de uma época passada, e que tudo o que nos resta são uns quaisquer símbolos.”

A história Cherokee foi sendo passada oralmente “ao longo dos milénios”, de acordo com Cherokee.org. Originalmente localizada no Sudeste dos EUA, a Nação Cherokee foi forçada a mudar-se para o actual Oklahoma em 1838, depois de ter sido descoberto ouro nas terras natais da tribo. Mais de quatro mil cherokees morreram ao longo da jornada conhecida como o Caminho das Lágrimas.

Actualmente, o Governo soberano da Nação Cherokee representa mais de 380 mil pessoas nos Estados Unidos, o que faz dela a maior nação tribal do país.

“A melhor maneira de nos honrar é aprender sobre o nosso Governo soberano, o nosso papel neste país, a nossa história, cultura e língua e ter um diálogo significativo com tribos reconhecidas a nível federal sobre a adequação cultural”, rematou Hoskin.