Morreu o pianista e ícone do jazz Chick Corea

A popular figura do jazz foi vítima de um tipo raro de cancro. Tinha 79 anos. O jazz de fusão, os inúmeros projectos e os álbuns históricos com Miles Davis, estão entre os factos mais relevantes de uma história de desassossego constante.

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Mario Anzuoni/Reuters

Uma das figuras mais conhecidas do jazz, o músico Chick Corea, morreu na terça-feira, 9 de Fevereiro, aos 79 anos, foi confirmado esta quinta-feira, num comunicado partilhado pela família nas redes sociais. “É com tristeza que comunicamos que a 9 de Fevereiro, Chick Corea faleceu. Tinha 79 anos e foi vítima de um tipo raro de cancro que só foi descoberto recentemente”, pode ler-se. “Durante a vida e carreira, saboreou o gosto da liberdade e da diversão que tinha em criar algo novo. Era um marido, pai e avô amado e era um grande mentor e amigo para tantos. Através do seu corpo de trabalho e das décadas que passou a fazer digressões pelo mundo, tocou e inspirou a vida de milhões de pessoas.”

Excelente pianista e teclista, ocasionalmente também percussionista, é celebrado pela criação de inúmeros álbuns onde se aventurou pelo jazz de fusão, embora tenha também contribuições significativas numa linha jazz mais tradicional. Destacou-se pelo virtuosismo no instrumento que escolheu, mas também pela vontade de alargar os horizontes do jazz, encarando-o enquanto música livre e desejosa de todo o tipo de contaminações. 

Na mesma nota da família lê-se uma mensagem que o músico terá deixado, em forma de despedida: “Quero agradecer a todos aqueles que, ao longo do meu percurso, ajudaram a manter a chama da música incandescente. É minha esperança que todos os que têm uma intuição e inclinação para tocar, compor, actuar ou qualquer outra coisa o façam. Se não o fizerem por vocês, façam-no pelo resto de nós. Não só o mundo precisa de mais artistas como também é mesmo muito divertido.”

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Chick Corea e Herbie Hancock

Nos anos 1960, Chick Corea, ganhou notoriedade por causa de álbuns a solo como Now He Sings, Now He Sobs (1968), e pelo trabalho, entre outros, com Willie Bobo, Blue Mitchell, Dizzy Gillespie, Stan Getz e, principalmente, Miles Davis, tendo um papel destacado, por exemplo, no marcante álbum Bitches Brew de 1969. Como líder, viria a fundar o seu próprio grupo de fusão, Return To Forever. Mas a sua carreira é prolífica, com mais de 50 anos, dezenas de álbuns e 23 Grammys, incluindo pelo longa-duração de 1975 No Mystery, Chick Corea Akoustic Band de 1989 e Forever de 2011. Ao longo dos anos as suas formações passaram por diversas vezes por Portugal. Na década de 80 tocou em mais do que uma ocasião em Portugal, o mesmo sucedendo mais tarde. Uma delas, foi em 1990, nos Coliseus de Lisboa e Porto. Outra em 2006, no Porto, com Gary Burton, tendo o duo regressado em 2009, no festival de jazz de Loulé. A última foi em 2015, no festival CoolJazz, acompanhado por outro grande pianista e figura popular do jazz, Herbie Hancock.

Nascido Armando Anthony Corea, em Chelsea, no Massachusetts, foi o pai, trompetista, que o introduziu ao estudo do piano. Aos 8 anos também tocava bateria. O seu primeiro álbum como líder viria a ser lançado em 1966, Tones For Joan’s Bones, mas seria quando se juntou a Miles Davis, num importante período de transição deste, quando o trompetista começou a colocar o jazz em diálogo com outras linguagens, que viria a ganhar reputação no piano eléctrico, tocando em obras como In a Silent Way, Bitches Brew ou Miles Davis at the Fillmore. Quando deixou Miles, optou por tocar jazz acústico numa linha vanguardista, no quarteto Circle, ao lado de Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschul. No final de 1971 voltou a mudar de direcção, tocando brevemente com Stan Getz e formando os Return to Forever (pelos quais passaram o guitarrista Al Di Meola, o saxofonista Joe Farrell ou o baixista Stanley Clarke), numa linha onde o rock encontrava o improviso do jazz.

Quando o colectivo se separou, no final dos anos 1970, começou a surgir nos mais diversos contextos, incluindo digressões, em duo, com Gary Burton ou Herbie Hancock, ou em quarteto com Michael Brecker, ou em trios com Miroslav Vitous e Roy Haynes. Já nos anos 1980 viria a formar um outro grupo de fusão, The Elektric Band, e também uma formação acústica, a Chick Corea Akoustic Band, entre muitas outras aventuras.

Quando o século XXI teve início lançou um par de álbuns, solitário, ao piano, e em 2007, um registo em duo com o mestre do banjo, Béla Fleck.  Na companhia de John McLaughlin, que havia tocado com ele ao lado de Miles, viria formar mais uma banda em 2008, e no ano seguinte juntar-se-ia à pianista japonesa Hiromi para o álbum Duet. Em 2013, depois de mais um par de discos com diversas formações, viria a originar mais uma banda, The Vigil. Em 2016, quando celebrou 75 anos, deu uma série de concertos em Nova Iorque no clube Blue Note, rodeado de muitos que o acompanharam ao longo dos anos: Herbie Hancock, Wynton Marsalis, John McLaughlin ou Stanley Clarke.

Mais recentemente, em 2019, viria a reunir um octeto de fusão, contaminado pelas influências latinas, entre elas o flamenco, outra das constantes ao longo de muitos anos, a que deu o nome de Spanish Heart Band. O pianista viria a revisitar material de 1976 (My Spanish Heart) e de 1982 (Touchstone) a que acrescentou outras criações. O álbum Antidote foi lançado há dois anos. Foi o 99º álbum de Chick Corea.

É uma história de desassossego constante a sua, marcada por uma quantidade incrível de colaborações, de grupos e de projectos criados e vividos pelo pianista. Entrou em gravações históricas com Miles, foi um dos mais fortes cultores da música de fusão como Return to Forever ou Elektric Band, cultivou o experimentalismo com os Circle, deixou-se seduzir pela sons de inspiração latina, vagueando quase sempre com rigor, sem perder o contacto com o grande público. Uma vida cheia.