Da pastelaria à costureira, dos dirigentes aos autarcas. Os casos de alegada vacinação indevida que se conhecem

Ainda não se conhecem os contornos das “irregularidades no processo de selecção para vacinação de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha” que terão motivado a demissão de Francisco Ramos, mas esta não é a primeira história de alegada vacinação indevida a tornar-se pública. Pelo menos nove destes casos já estão a ser investigados pelo Ministério Público.

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LUSA/CARLOS BARROSO

Francisco Ramos, coordenador do plano nacional de vacinação contra a covid-19, demitiu-se, esta quarta-feira, do cargo que ocupava devido a “irregularidades no processo de selecção para vacinação de profissionais de saúde do Hospital da Cruz Vermelha”, do qual é dirigente. Não se conhecem ainda os contornos deste caso, nem quantas pessoas terão estado envolvidas, mas esta não é a primeira história de vacinação de pessoas fora dos grupos prioritários que se tornou conhecida nos últimos dias.

Dos funcionários de uma pastelaria no Porto, que terão sido vacinados com as doses sobrantes do INEM, à directora do Centro Distrital de Setúbal do Instituto da Segurança Social, que vacinou todos os 126 funcionários, o PÚBLICO elencou as histórias que se foram tornando conhecidas ao longo dos últimos dias de vacinação fraudulenta. Pelo menos nove destes casos já estão a ser investigados pelo Ministério Público, confirmou a Procuradoria-Geral da República na segunda-feira.

Segurança Social de Setúbal vacinou 126 funcionários

A directora do Centro Distrital de Setúbal do Instituto da Segurança Social, Natividade Coelho, vacinou-se antes do tempo — assim como os 126 funcionários da instituição que dirigia. A lista de pessoas passou pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que descartou responsabilidade no caso. Natividade Coelho apresentou o pedido de demissão poucos dias depois;

Sobras para os trabalhadores de uma pastelaria e “não-essenciais” do INEM

Os 11 funcionários de uma pastelaria no Porto, situada nas imediações da delegação Norte do INEM, foram vacinados com as sobras daquela instituição. António Barbosa, responsável da delegação, afirmou que tomou esta decisão para evitar o desperdício das doses que, de outro modo, iriam para o lixo. O responsável demitiu-se pouco tempo depois.

Em Lisboa, a vacinação de funcionários “não-essenciais” e que não são profissionais de saúde do INEM também está a ser investigada. Em comunicado, a instituição afirma que, por terem chegado mais vacinas do que o que foi antecipado, “foi possível administrar as doses sobrantes aos profissionais do INEM que dão suporte à actividade de Emergência Médica, para evitar o desperdício destas”, mas nega que tenham sido pedidas vacinas para profissionais não prioritários.

Arcos de Valdevez vacinou presidente da Assembleia Municipal

O presidente da Assembleia Municipal de Arcos de Valdevez e provedor da Santa Casa da Misericórdia local, Fernando Araújo, terá recebido a primeira dose da vacina, depois de ter sido contactado pela enfermeira responsável pelo processo de vacinação na instituição. Terá sido vacinado por haver sobras, noticiou o Observador.

Em Portimão, presidente da Câmara e director de lar foram vacinados

O Centro de Apoio de Idosos de Portimão terá dado a possibilidade a todos os órgãos sociais de serem vacinados — incluindo aqueles que não têm contacto directo com os idosos, como os membros do conselho fiscal e o presidente da direcção (que chegou mesmo a ser inoculado), conta o Observador.

Também em Portimão, a presidente da Câmara, Isilda Gomes, já terá recebido as duas doses da vacina contra a covid-19. A justificação apresentada pela autarca prende-se com o seu trabalho de voluntariado no desenvolvimento de “um projecto para pôr em contacto as pessoas que estão no Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), doentes com covid-19, e as suas famílias”, explicou à TSF.

Director de hospital de Famalicão vacina mulher e filha

A filha e a mulher do administrador do Hospital Narciso Ferreira, em Famalicão, foram vacinadas por serem voluntárias no combate à pandemia. Num comunicado enviado à agência Lusa, Salazar Coimbra afirma que ele próprio foi vacinado por ser director clínico do hospital, recusando “qualquer fraude”. “Aliás, sempre se diga que outros familiares de outros trabalhadores que colaboram com a instituição foram igualmente vacinados”, lê-se no comunicado.

IPSS de Viseu vacina três dirigentes, mulher e filha do director

Em Viseu, foram vacinados três dirigentes da Associação de Solidariedade Social de Farminhão (ASSF)​, assim como a mulher e a filha do director. Ao PÚBLICO, o director da IPSS negou qualquer acusação de vacinação indevida naquela instituição particular de solidariedade social. O director da ASSF, 74 anos, admite ter incluído na lista de vacinação enviada à Administração Regional de Saúde do Centro não só o seu nome, mas também o do tesoureiro (65 anos) e do vogal (74 anos), justificando que são “dirigentes activos” e que, “atendendo à idade, [são também] pessoas de risco”. Além desses, foram ainda vacinadas quatro pessoas que não estavam incluídas na lista enviada à DGS: a vice-presidente (filha do director), a responsável da cozinha (esposa do director), a psicóloga do lar e o presidente da assembleia geral, com doses que sobraram.

Administração de hospitais de Bragança vacinada

Em Bragança, o presidente da Unidade Local de Saúde do Nordeste, que gere os hospitais e centros de saúde do distrito, vacinou-se a ele próprio, e a 40 funcionários, incluindo administração. À TSF, o próprio admitiu que já foi vacinado, mas disse que não “houve nenhuma vacina indevida”, tendo sido “rigorosamente seguidas as orientações ministeriais”. O objectivo, afirmou, foi evitar o desperdício de várias doses.

Ainda em Bragança, no Lar da Santa Casa da Misericórdia, terão sido vacinados “todos os órgãos sociais”.

Provedor da Misericórdia do Montijo inclui mulher na lista de prioritários

No Montijo, o provedor da Santa Casa da Misericórdia, José Manuel Braço Forte, terá incluído a mulher na lista da vacinação, sem que tivesse critérios para lá estar, escreveu o Expresso.

Em Ílhavo, a provedora da Santa Casa da Misericórdia, Margarida São Bento, e vários funcionários da instituição terão sido vacinados com sobras. De acordo com a agência Lusa, foi enviada uma lista com 95 nomes de pessoas a vacinar e chegaram 102 doses da vacina, o que terá motivado a vacinação de pessoas fora da lista prioritária. Para além disso, várias pessoas que constavam da lista não foram vacinadas por terem tido a doença há menos de 90 dias.​

Vereadora do Seixal vacinada sem ser de risco

A vereadora da Câmara do Seixal e responsável pelo Núcleo Local de Inserção de Sesimbra também terá sido vacinada, apesar de não fazer parte do grupo prioritário.

Costureira vacinada em Valongo

Em Valongo, a costureira e a mãe do presidente do Centro Social e Paroquial de Alfena foram vacinadas juntamente com utentes e funcionários da instituição. A situação foi confirmada à agência Lusa pelo padre Manuel Fernando Silva, que preside à instituição.

Reguengos de Monsaraz inclui presidente por “contacto próximo” com utentes de lar

O presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz, que integra a direcção do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, foi vacinado apesar de não integrar o grupo prioritário para a primeira dose. “O critério recomendado pelas autoridades de saúde e consensualizado com a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade para definir o universo a vacinar foi o do contacto próximo e regular com os utentes, sendo expressa a necessidade de incluir os membros das direcções das instituições que mantivessem esse contacto próximo”, afirmou a instituição.

Padre vacinado em Braga por estar a substituir director técnico

O padre da paróquia de Rossas, no distrito de Braga, foi adicionado à lista de prioritários do lar da localidade sem cumprir os critérios para ser vacinado na primeira fase. A paróquia confirmou ao PÚBLICO que o padre tinha sido vacinado por estar a substituir as funções do director técnico da instituição, cargo que implica o contacto próximo com utentes do lar.