Demitiu-se Francisco Ramos, coordenador do plano de vacinação da covid-19

Francisco Ramos renunciou ao cargo de coordenador por “irregularidades” que detectou “no processo de selecção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa”, do qual é dirigente, para a vacinação.

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Francisco Ramos era coordenador da task force criada para assegurar a vacinação da covid-19 em Portugal Rui Gaudêncio

Francisco Ramos demitiu-se do cargo de coordenador da taskforce da vacinação contra a covid-19, anunciaram o Ministério da Saúde e o próprio.

A decisão foi motivada por “irregularidades no processo de selecção para vacinação de profissionais de saúde do Hospital da Cruz Vermelha”, a cuja comissão executiva preside, afirmou Francisco Ramos em comunicado. Por essa razão, considera “que não se reúnem as condições” para se manter no “cargo de coordenador da taskforce para elaboração do Plano de Vacinação contra a covid-19 em Portugal”, lê-se. 

O pedido de renúncia foi apresentado na terça-feira, dia 2 de Fevereiro, a Marta Temido e divulgado aos órgãos de comunicação social esta quarta-feira. O PÚBLICO contactou Francisco Ramos, que não quis prestar declarações.

director clínico, Manuel Pedro Magalhães, e a enfermeira directora do Hospital da Cruz Vermelha também se demitiram, como a SIC adiantou. Terão sido os dois os responsáveis pela elaboração da lista de pessoas a vacinar, que incluía profissionais de saúde, sobretudo médicos, que estão afastados do hospital há algum tempo e que assim terão tomado a primeira dose antes de outros funcionários, nomeadamente enfermeiros que estão na linha da frente, adiantou ao PÚBLICO uma fonte ligada à instituição. 

O funcionamento da taskforce não está comprometido, garante o Ministério da Saúde. Será assegurado pelos outros membros do núcleo de coordenação: o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo (em representação do Ministério da Defesa Nacional), José Gamito Carrilho (Ministério da Administração Interna), Valter Fonseca (Direcção-Geral da Saúde) e António Faria Vaz (Infarmed).

Sem querer adiantar quaisquer detalhes sobre o futuro funcionamento da taskforce, Henrique Gouveia e Melo disse apenas ao PÚBLICO que, com o pedido de demissão, o ex-coordenador demonstrou ser “um homem com honra”.

Francisco Ramos justificou a sua saída alegando que “as regras estipuladas no plano de vacinação não terão sido observadas e que, nesse contexto, apresentou a demissão”, uma vez que tal aconteceu “no próprio hospital onde é responsável”, afirma Francisco George, ex-director geral da Saúde e presidente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP). 

O despacho que determinou a criação da taskforce foi publicado a 26 de Novembro de 2020. Francisco Ramos foi nomeado para a sua coordenação. Em 14 de Dezembro, depois de a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ter adquirido 55% do capital da Sociedade Gestora do Hospital da Cruz Vermelha, foi eleito, em assembleia geral, presidente da Comissão Executiva da unidade de saúde. Actualmente, a CVP não tem nada a ver com o hospital.

Questionada pelo PÚBLICO, fonte oficial do Hospital da Cruz Vermelha disse que o processo de vacinação começou na terça-feira e terminou esta quarta, abrangendo 230 doses. Explicou que na terça-feira, durante o dia, Francisco Ramos detectou irregularidades, que reportou à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, pedindo-lhe uma inspecção. O hospital aguarda os resultados da inspecção, afirmou a mesma fonte.

Francisco Ramos pediu também a demissão da Comissão Executiva do Hospital da Cruz Vermelha ao provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que não aceitou o pedido.

Médicos e enfermeiros não ficam surpreendidos com demissão

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, diz entender a demissão. “Dadas as circunstâncias anunciadas pelo doutor Francisco Ramos de que, no Hospital da Cruz Vermelha, as prioridades não terão sido seguidas, à semelhança de outras instituições do país, é perfeitamente entendível que, não conseguindo parar esta vergonha que se vê todos os dias, peça a demissão”, disse. O bastonário referiu igualmente que a falta de “condições para fazer uma devida fiscalização do processo de vacinação” também poderá ter contribuído para a demissão.

“O plano de vacinação é um dossier crítico para a recuperação do nosso país como um todo e para os serviços de saúde em particular, pelo que precisa de uma liderança forte, um plano e organização exemplares, associados a uma excelente operacionalização, uma comunicação transparente, regras objectivas, ouvindo os parceiros institucionais e quem está no terreno”, acrescentou Miguel Guimarães. “Posto isto, as notícias das últimas semanas são graves e preocupantes, mas a saída do doutor Francisco Ramos, por si só, não assegura que sejamos colocados no bom caminho, até porque a falta de diálogo consequente tem sido um problema sério do Ministério da Saúde e da taskforce”, alertou.

Para a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, a demissão do coordenador era algo “expectável” face aos diversos casos que têm vindo a público, mas é preciso fazer mais para acabar com as vacinações indevidas.

“Eu diria que era uma coisa a acontecer, expectável, mas não podemos pôr a culpa num homem só, ou que esta demissão faça com que ele seja o único culpado daquilo que está a acontecer. Não houve fiscalização nenhuma”, disse Ana Rita Cavaco ao PÚBLICO, referindo que o volume de denúncias recebido pela Ordem dá conta de “milhares de pessoas vacinadas indevidamente”.

“É preciso fazer mais, muito mais, porque estamos a dar um péssimo exemplo na confiança que as pessoas têm num sistema que já de si é muito frágil”, exigiu.

“Quem não cumpre as regras tem de ser punido”

O plano de vacinação prevê três fases de vacinação: neste momento decorre a primeira fase, com a vacinação dos que têm maior risco de contrair o vírus ou desenvolver complicações graves, como profissionais de saúde e idosos.

A vacinação teve início a 27 de Dezembro de 2020, assim que chegaram as primeiras doses. Já foram inoculadas, entretanto, cerca de 350 mil pessoas com a primeira dose da vacina.

Desde que a imunização arrancou já foram conhecidos, em Portugal, vários casos de vacinação indevida — desde os autarcas que se incluíram nos grupos prioritários aos funcionários de uma pastelaria localizada perto das instalações do INEM no Porto, aos quais o dirigente do instituto ofereceu uma dose.

Esta terça-feira, António Costa afirmou: “Quem não cumpre as regras [da vacinação] tem de ser punido. É simples.” Durante uma visita ao Centro de Saúde de Alvalade e Parque, em Lisboa, o primeiro-ministro afirmou ser “fundamental que todos respeitem os critérios”. “Ninguém quer ultrapassar ninguém e, compreendendo que todos estamos ansiosos de chegar a nossa vez da vacina, devemos aguardar.”