Covid-19: director de IPSS de Viseu nega fraude na vacinação da mulher e da filha

Entre outros colaboradores, foram vacinados três dirigentes da associação, assim como a mulher e a filha do director. Ordem dos Enfermeiros já apresentou queixa.

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Os relatos de vacinação indevida têm sido recorrentes nos últimos dias. LUSA/CARLOS BARROSO

O director da Associação de Solidariedade Social de Farminhão (ASSF), em Viseu, nega qualquer acusação de vacinação indevida contra a covid-19 naquela instituição particular de solidariedade social (IPSS). “Todos os que foram vacinados são prioritários e de risco”, assegura Duarte Coelho.

A Secção Regional do Centro (SRCentro) da Ordem dos Enfermeiros (OE) recebeu esta segunda-feira uma denúncia dando conta de que pessoas que, não pertencendo a nenhum grupo prioritário, foram inoculadas. A OE do Centro já apresentou queixa ao Ministério da Saúde, condenando as denúncias de atropelos aos critérios de vacinação que têm recebido.

Contactado pelo PÚBLICO, o presidente da secção do Centro da OE, Ricardo Correia de Matos, apela aos colegas de profissão que estão a trabalhar nas brigadas de vacinação “para que se recusem à vacinação sempre que detectarem irregularidades dentro dos grupos prioritários” e pede ainda uma “moldura criminal agravada para quem viola o plano de vacinação”, uma vez que, sustenta, as pessoas que são vacinadas de forma irregular passam por cima de profissionais de saúde que estão na linha da frente do combate à pandemia e a “necessitar da imunidade que a vacina garante”. 

Em causa está a administração (na Unidade de Cuidados Continuados de Farminhão, uma valência da ASSF) da vacina contra a covid-19 a pessoas não-prioritárias, como é o caso de três dirigentes da associação e ainda quatro colaboradores, que receberam a primeira dose a 18 de Janeiro. Ao PÚBLICO, o director da ASSF (74 anos), admite ter incluído na lista de vacinação enviada à Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro não só o seu nome, mas também o do tesoureiro (65 anos) e do vogal (74 anos), justificando que são “dirigentes activos” e que, “atendendo à idade, [são também] pessoas de risco”. 

Filha e mulher também foram vacinadas

Duarte Coelho diz ter seguido a orientação da Confederação Nacional das Instituições Solidárias (CNIS), justificando que “a prioridade na vacinação deve ser dada primeiro aos utentes, segundo aos colaboradores trabalhadores, e, em terceiro, a pessoas que estão em contacto directo com utentes ou trabalhadores da instituição – dirigentes activos”. 

Além dos três dirigentes, foram ainda vacinadas quatro pessoas que não estavam incluídas na lista enviada à DGS: a vice-presidente (filha do director); a responsável da cozinha (esposa do director); a psicóloga do lar, que também colabora nos cuidados continuados; e o presidente da assembleia geral. “Houve, no final da vacinação, quatro doses que sobraram e para não desperdiçar foram vacinadas pessoas de risco. Nas sobras, tivemos critério e prioridade ao escolher”, assegura. A vacinação incluiu 30 utentes e cerca de 25 colaboradores da unidade de cuidados continuados, confirma Duarte Coelho ao PÚBLICO. 

Mulher e filha de administrador de hospital em Famalicão também foram vacinadas

Este caso vem juntar-se a outros de alegada má utilização da vacina. Também esta segunda-feira, o administrador do Hospital Narciso Ferreira, em Vila Nova de Famalicão, Salazar Coimbra, negou “qualquer fraude” no processo de vacinação naquela instituição. O caso foi avançado pelo Correio da Manhã, que dá conta da alegada vacinação indevida da mulher e filha do administrador, deixando para trás cerca de 20 médicos, enfermeiros e outros profissionais que trabalham no internamento de covid-19. 

O administrador justifica que tanto a mulher como a filha foram vacinadas porque se voluntariaram para ajudar no combate à pandemia de covid-19. Num comunicado enviado às redacções, Salazar Coimbra acrescenta que ele próprio foi vacinado porque é director clínico do hospital, propriedade da Santa Casa da Misericórdia local, situado em Riba de Ave.

Os casos não ficam por aqui. O provedor da Santa Casa da Misericórdia do Montijo (SCMM) incluiu na lista de pessoas a vacinar o seu nome e o da esposa, não pertencendo a nenhum grupo prioritário da primeira fase de vacinação. Em declarações ao jornal Expresso, também José Manuel Braço Forte justificou que a mulher foi vacinada porque é voluntária naquela instituição. Apesar disso, o presidente da assembleia geral da SCMM salienta que Maria Fernanda Braço Forte “não é voluntária há, pelo menos, um ano”. 

Ao PÚBLICO, os enfermeiros do Centro não consideram a justificação válida para a toma da vacina. “Se nós temos doses finitas e está a acontecer um racionamento desta dimensão com um bem tão escasso, não podemos entrar na loucura de querer vacinar toda a gente porque a partir desse momento qualquer pessoa seria passível de vacinação desde que se inscrevesse como voluntário numa determinada instituição”, remata Ricardo Correia de Matos.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) recomenda que, para evitar o desperdício de doses da vacina contra a covid-19, deve vacinar-se “qualquer pessoa elegível”, mas respeitando a ordem de prioridades “na medida do possível”. Além disso, a DGS refere ainda que nestes casos, por exemplo, “a vacinação deve prosseguir para as pessoas com co-morbilidades com menos de 65 anos de idade, mesmo que não estejam vacinadas todas as pessoas com 65 ou mais anos de idade”.

Num comunicado emitido este domingo, o Governo anunciou que vai passar a exigir que se apresente uma lista de pessoas suplentes a quem a vacina da covid-19 possa ser administrada para que se evite vacinar cidadãos que não são prioritários. O Ministério da Saúde considera “inaceitável” qualquer utilização indevida de vacinas. “No caso de, por circunstâncias imprevistas, não ser possível administrar todas as doses definidas numa determinada entidade, e face às características de conservação das vacinas e com o intuito de evitar a sua inutilização, as mesmas podem vir a ser administradas a pessoas não previstas inicialmente”. Mesmo assim, as prioridades definidas pelo plano deverão ser respeitadas, diz a tutela.

Texto editado por Ivo Neto