Lar de Portimão vacina metade dos dirigentes contra a covid-19

O secretário de Estado, coordenador para o combate à pandemia no Algarve, Jorge Botelho, exige “esclarecimento”, admitindo que pode vir a ser aberto um inquérito.

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Processo de vacinação contra a covid-19 decorre em Portugal Daniel Rocha

Cerca de metade dos elementos que compõem os órgãos sociais do Lar de Idosos de Portimão foram incluídos na lista dos prioritários do Plano de Vacinação para a covid-19. Os dirigentes do Centro de Apoio a Idosos entendem que a vacina é um direito que lhes assiste: “Cumprimos o que está estabelecido no Plano de Vacinação e nas orientações da CNIS [Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade]”, diz, em comunicado de imprensa, a direcção do Centro de Apoio a Idosos — instituição com cerca de 260 utentes.

O presidente da direcção, Figueiredo Santos, foi um dos vacinados, mas só mais sete dirigentes é que lhe seguiram o exemplo. A interpretação que fizeram das normas levou-os a concluir que estão incluídos nos grupos de risco, por terem “contacto directo e activo com os idosos, e com as instalações que os mesmos frequentam e utilizam”. Porém, a vacina foi ainda oferecida aos funcionários administrativos, bem como aos membros do Conselho Fiscal, que não têm contacto com os idosos. O presidente do Conselho Fiscal, Carlos Bicheiro, coordenador do Gabinete de estudos do PSD de Portimão, citado pelo jornal Observador, afirma: “Eu não fui vacinado porque não quis. Os meus colegas também não foram.”

O secretário de Estado da Descentralização e Administração Local, Jorge Botelho, (coordenador das medidas de combate à pandemia, no Algarve), afirmou ao PÚBLICO: “A lei é clara quanto aos critérios de prioridade [na aplicação da vacina].” Qualquer desvio a essas orientações, sublinhou, “tem de ser esclarecido — eventualmente, abrir um inquérito”, à semelhança do que sucedeu com a directora da Segurança Social de Setúbal, Natividade Coelho, que terá sido indevidamente vacinada.

 Segundo a direcção do Lar de Portimão, o plano de vacinação “não exclui funcionários administrativos, nem corpos gerentes”. A terminologia usada, sublinha, é a de “profissionais dos lares”, e nessa formulação abrangente couberam “alguns elementos dos corpos gerentes considerados essenciais para o funcionamento da instituição e que têm não um contacto esporádico, mas uma ligação directa com os utentes”.

A proximidade, referem, pode dever-se ao facto de serem chamados “a intervir, com frequência diária ou quase diária, com utentes e seus familiares”. De resto, enfatizam, esta é a interpretação feita não só pela CNIS, mas também pela Coordenação de Apoio a Instituições Públicas.

O presidente da ARS, Paulo Morgado, declina a responsabilidade “O preenchimento da lista dos profissionais e utentes com critérios para a vacinação é da responsabilidade de cada instituição”. Sendo que à ARS e aos Agrupamentos de Centros Saúde (ACES) compete a administração das vacinas às pessoas identificadas por cada instituição. Por outro lado, recorda, a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) “vai dar início a uma auditoria, de âmbito nacional, com o objectivo de verificar o cumprimento dos critérios aplicáveis ao processo de vacinação contra a covid-19”.