Morreu Jean Graton, o autor de BD francês que nos deu Michel Vaillant

O criador da saga tinha 97 anos e era o último sobrevivente da geração dos grandes autores de banda desenhada da revista Tintin.

Foto
THIERRY PRAT/GETTY IMAGES

Jean Graton, um dos grandes nomes da época de ouro da banda desenhada franco-belga, criador do mítico piloto de automóveis Michel Vaillant, cujas aventuras os leitores portugueses dos anos 70 seguiam semanalmente na versão nacional da revista de banda desenhada Tintin, morreu esta quinta-feira em Bruxelas, aos 97 anos. Mas o herói mais famoso de Graton continua bem vivo e em plena forma, agora em histórias escritas pelo seu filho Philippe.

Nascido na cidade francesa de Nantes em 1923, mas radicado na Bélgica desde os anos 40 – recebeu a comenda da Ordem das Artes e das Letras em França e foi nomeado cavaleiro da Ordem de Leopoldo na Bélgica –, Jean Graton “era o último representante vivo da geração dos grandes autores da revista Tintin”, observa o crítico de BD João Miguel Lameiras, para quem o autor teve o mérito de trazer para a banda desenhada um público aficionado pelo automobilismo, que Michel Vaillant praticava nas mais diversas modalidades, da Fórmula 1 aos ralis.

O piloto nasceu em 1957 nas páginas da famosa revista belga Tintin, cuja versão portuguesa foi lançada em Junho de 1968 e continuou a publicar-se até 1982. Foi nas suas páginas que os leitores portugueses – dos 7 aos 77 anos, segundo a célebre propaganda da revista – foram seguindo, ao ritmo de umas poucas páginas publicadas cada quinta-feira, as aventuras de Michel Vaillant e do seu grande amigo, o temperamental piloto americano Steve Warson.

Foto
Prancha do álbum F3000, de 1989

Antes da Tintin e dos carros, Jean Graton, trabalhou em publicidade e animação, e foi ilustrador de As mais belas histórias do Tio Paulo, de Jean-Michel Charlier, na revista Spirou. Também fez ilustração para o jornal Les Sports. Na Tintin, começou a escrever e a desenhar as suas próprias histórias sobre desportos como râguebi, basquetebol, escalada, boxe, hóquei no gelo ou futebol americano, reunidas no álbum Ça C'est du Sport, de 1957

Mas o seu principal foco de atenção estava nas corridas de carros do seu herói, Michel Vaillant. Na saga homónima, que ficará como o principal legado do autor para a banda desenhada, o piloto de ficção competia em eventos reais, com pilotos que existiam mesmo. Desenhou-o até aos 80 anos, que cumpriu em 2004, ano em que se reformou, deixando o filho, Philippe Graton, com quem tinha começado uma editora no início dos anos 80, e que já era responsável pelos textos, continuar a saga, que prossegue até aos dias de hoje. Duels, o último álbum da nova série de livros de Michel Vaillant, saiu no dia 15 deste mês. No total, foram publicados mais de 70 volumes dessas aventuras, que em Portugal têm vindo a ser editados pela Asa. O PÚBLICO editou oito histórias inéditas da saga em 2014.

Os fãs de automobilismo eram atraídos pelo realismo do desenho dos carros e dos cenários, para os quais Graton usava vários desenhadores, lembra João Miguel Lameiras, que vê na série de Michel Vaillant “um exemplo claro”, na BD franco-belga, de uma lógica de tipo industrial. “Era um produto comercial bem feito, dentro do género, e atraiu muita gente que gostava de automobilismo”, diz o crítico, que censura ao autor “um estilo demasiado estático” e “as caras demasiado parecidas” das suas diferentes personagens.

Ainda antes de aparecer na versão portuguesa de Tintin, Michel Vaillant já fora divulgado na Cavaleiro Andante e noutras revistas de banda desenhada, que, com a tendência da época para traduzir livremente nomes próprios, o introduziram aos leitores portugueses como Miguel Gusmão, lembra Lameiras.

Duas das 70 aventuras do piloto, incluindo as que foram já criadas por Philippe Graton, têm cenário português: Rali em Portugal (Cinq filles dans la course, 1971) – “além das cenas do rali, tem por exemplo imagens da Universidade de Coimbra”, nota João Miguel Lameiras – e O Homem de Lisboa (L’homme de Lisbonne, 1984), com um enredo policial, às quais se poderia ainda somar Um Encontro em Macau (Rendez-vous à Macao, de 1983).

Jean Graton “tinha contactos directos com pilotos e outras pessoas ligadas ao mundo do automobilismo”, diz Lameiras, e se essas relações lhe permitiram trazer com realismo o ambiente das corridas para a ficção, também o contrário acabou por acontecer, com uma equipa real a disputar as verdadeiras 24 horas de Le Mans ostentando as cores de Michel Vaillant. Em 2017, Philipppe Graton acordou uma parceria com a equipa suíça Rebellion Racing para que dois carros oficialmente designados Vaillante-Rebellion corressem no circuito de Le Mans e disputassem toda as corridas do campeonato do mundo de endurance desse ano.

Ainda antes de chamar o filho a colaborar com ele, Jean Graton já recorrera também à sua mulher, Francine, que escreveu os textos para a série Les Labourdet, dos anos 1960, sobre uma família dos subúrbios parisienses, e que foi também responsável por Julie Wood, série sobre uma motociclista que acabou por transitar para a saga Michel Vaillant, onde Julie se tornou namorada de Steve Warson.

O herói mais carismático de Jean Graton chegou ao cinema em 2003, num filme de imagem real de Louis-Pascal Couvelaire, com Sagamore Stévenin como Michel Vaillant, Peter Youngblood Hills como Steve Warson e Diane Kruger como Julie Wood.

Notícia corrigida às 12h46 de 22/01 com o nome e a data de publicação do último álbum da saga