Vacinação covid-19: farmacêuticos, para que vos quero?

Portugal tem 15.000 farmacêuticos e, destes, cerca de 14.000 prestam cuidados de saúde. Uma força de trabalho muito competente, que a população conhece e nela confia. Sempre subaproveitados e, acima disso, desvalorizados. Porquê?

Afinal, os farmacêuticos sempre têm um papel ativo na vacinação contra a covid-19. Já não falo na sua descoberta e desenvolvimento, nem na sua aprovação regulamentar. Falo da sua reconstituição, preparação, manipulação. Em vacinas novas, menos conhecidas dos profissionais de saúde, é fundamental a precisão nas condições de preparação, para que possa ser administrada corretamente, sem qualquer desperdício ou inutilizações evitáveis. Desde a cadeia de frio, diferente do habitual para as outras vacinas, passando pelo cumprimento do tempo entre o seu “descongelamento” e a administração, ou na sua reconstituição em condições de assepsia, os serviços farmacêuticos dos hospitais mostram a sua exatidão e o rigor de um “relógio suíço”.

Depois da administração, há ainda todo um trabalho para garantir a vigilância das reações adversas ou a segurança destas vacinas que precisamos de continuar a conhecer melhor. Para que a confiança que já hoje temos nestas inovações seja ainda maior. E saibamos que os nossos profissionais de saúde e o Sistema Nacional de Farmacovigilância funcionam e estão atentos a cada sinal. E se o fazemos nas farmácias hospitalares e nos serviços farmacêuticos das ARS, fá-lo-emos também nas farmácias comunitárias se o País assim o desejar, com todas as condições necessárias, quando as outras vacinas forem chegando a Portugal e milhões de portugueses precisarem de ter igual acesso.

Já hoje somos procurados para dar informações sobre a eficácia da vacina ou sobre quando será o momento da vacinação para muitos portugueses que por este País fora não sabem sequer quem são os grupos prioritários. Estamos em todo o lado, renovamos as receitas, apoiamos situações de doença menor, orientamos para os cuidados de saúde primários (agora cada vez com maiores dificuldades de acesso), para os hospitais em muitos casos de emergência... Somos uma espécie de linha Saúde24 ao vivo, personalizada. Fazemo-lo nos hospitais e nas farmácias, nos cuidados continuados (quando estamos lá), nas ARS (onde somos poucos, mas, afinal, parecemos muitos) e nos laboratórios de análises, que durante toda a pandemia nunca deixaram um idoso sem apoio domiciliário.

Portugal tem 15.000 farmacêuticos e, destes, cerca de 14.000 prestam cuidados de saúde. Uma força de trabalho muito competente, que a população conhece e nela confia. Sempre subaproveitados e, acima disso, desvalorizados. Porquê? Porque estão sempre lá, respondem a todos as necessidades e desafios, não se negam a nada, trabalham com todos os outros profissionais. Criam soluções e não arranjam problemas desnecessários. Não dão nas vistas nem fazem por isso.

Em silêncio, estiveram 20 anos à espera de uma carreira que, finalmente, veio em 2017, e que no início de 2021 ainda não conseguiu ser concluída. Os farmacêuticos hospitalares, que hoje abrem telejornais pelo trabalho excecional e fundamental que fazem na vacinação contra a covid-19, são os mesmos que esperam há anos pelo reforço de recursos humanos nas suas equipas dos hospitais.

Centenas de cartas, documentos, relatórios apontam para a necessidade de termos, pelo menos, mais 250 a 300 farmacêuticos no nosso SNS. Mas no Orçamento Geral do Estado nunca são uma prioridade, nos orçamentos suplementares que preveem a contratação de outros profissionais de saúde nunca figuram... Está também à vista que sem a rede de farmácias e laboratórios de elevada qualidade de serviço e organização, não conseguiríamos manter a nossa resiliência e a resposta em saúde no combate a esta pandemia que está longe de nos deixar voltar ao nosso futuro.

Afinal, o SNS precisa ou não precisa de farmacêuticos? Está à vista. Os portugueses precisam, seguramente. É caso para perguntar ao Ministério da Saúde: farmacêuticos, para que vos quero? Talvez 2021 dê resposta a esta pergunta... que nunca teve resposta.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico