Galp entra na exploração mineira de lítio

Petrolífera vai ficar com 10% do capital da empresa que está a preparar a exploração da mina de lítio em Boticas.

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Galp, presidida por Carlos Gomes da Silva, anunciou recentemente o fecho da refinaria de Matosinhos Nuno Ferreira Santos

A Savannah, empresa que detém a concessão de Covas do Barroso, em Boticas, e na qual pretende explorar uma mina de lítio, assinou com a Galp um acordo que vai deixar a petrolífera com 10% do capital da subsidiária da empresa britânica em Portugal.

Em cima da mesa está um acordo de fornecimento garantido (off-take) à Galp de uma parte (até 50%) do lítio que a Savannah extrair em Portugal, no âmbito da estratégia através da qual esta sociedade pretende ser a primeira a produzir concentrado de espodumena, uma das matérias-primas necessárias para, através de processo químico de refinação, produzir carbonato ou hidróxido de lítio num processo que culminará na produção de baterias.

O acordo de parceria e de off-take foi anunciado esta terça-feira ao mercado pela Savannah, uma empresa cotada na bolsa de Londres. No âmbito do acordo, segundo esclarece o comunicado, a Galp irá pagar 6,4 milhões de dólares (5,2 milhões de euros) para ficar com a participação de 10% na empresa da Savannah que controla a Mina do Barroso. Adicionalmente, a petrolífera liderada por Carlos Gomes da Silva irá participar na gestão do projecto e partilhar a sua “experiência significativa no desenvolvimento de projectos de matérias-primas de larga escala em Portugal”.

A parceria prevê ainda um acordo de exclusividade para avaliar o “fornecimento garantido [off-take] até 100.000 toneladas por ano de concentrado de lítio extraído da Mina do Barroso, equivalente a cerca de 50% da produção anual”. A Savannah sublinha ainda que “este acordo representa um passo significativo na comercialização da Mina do Barroso e será um factor importante para assegurar o financiamento necessário para a construção do projecto”.

Questionada sobre o destino que dará a este lítio se o acordo de compra com a Savannah se concretizar, a Galp não quis confirmar se vai avançar para a construção de uma refinaria.

“A Galp está a avaliar várias oportunidades para diversificar o seu portefólio, onde se incluem a cadeia de valor das baterias e do hidrogénio verde”, respondeu fonte oficial.

Em relação à possibilidade de entrar noutro ponto da cadeia de valor do lítio, nomeadamente na produção de baterias, a empresa disse estar “numa fase de estudos iniciais com parceiros para explorar potenciais parcerias que alavanquem nos recursos endógenos do país para formar novos clusters”.

David Archer, presidente-executivo da Savannah, sublinha que a empresa está “muito satisfeita por anunciar a Galp como potencial investidor e parceiro estratégico futuro no nosso projecto português. Acreditamos que o concentrado de lítio com pequena pegada de carbono da Mina do Barroso irá proporcionar uma fundação chave para a transição energética para a mobilidade eléctrica”.

Duas semanas depois de ter anunciado o encerramento da refinaria de Leixões, e de ter negado a existência de planos para transformar aquelas instalações industriais numa refinaria de lítio, a Galp vem assim confirmar pretende entrar na corrida a esta matéria-prima e logo no início da cadeia de produção de baterias eléctricas, através da exploração mineira, muito contestada pelas populações locais e movimentos ambientalistas.

A Savannah submeteu em Junho do ano passado, à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o relatório síntese do Estudo de Impacte Ambiental (EIA), bem como o Plano de Lavra, em fase de estudo prévio, para a exploração de lítio na Mina do Barroso. O projecto aguarda, entretanto, luz verde ambiental para avançar no terreno. A Galp entra, assim, numa fase preliminar em que ainda não estão garantidas todas as condições de exploração do lítio, não só em Portugal – onde ainda se aguarda a divulgação pelo Governo da estratégia nacional para o lítio , como especificamente em Boticas. 

Num comunicado enviado mais tarde aos media, a empresa britânica acrescenta que “este é o mais significativo projecto de exploração de espodumena de lítio na Europa Ocidental, sendo estruturante para a economia nacional e estratégico para reduzir a dependência deste mineral raro a nível da União Europeia (EU)”. “O projecto estima alimentar mais de 600.000 veículos eléctricos através do lítio anualmente extraído das concentrações de espodumena existentes no local. Trata-se de um projecto que potenciará a instalação toda a cadeia de valor das baterias de lítio em Portugal”, acrescenta.

Em Setembro, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, afirmou que Portugal não vai explorar o lítio “a todo o custo”, mas que este é “absolutamente fundamental” para a descarbonização, razão pela qual o Governo vai avançar com uma avaliação estratégica. Na semana passada, Matos Fernandes sublinhou, por outro lado, a propósito do encerramento da refinaria da Galp em Leixões, que o Governo quer “muito que Portugal venha a ter uma refinaria de lítio, aliás há municípios que já tornaram público o seu interesse, mas nenhum deles é Matosinhos”. 

No acordo de parceria anunciado esta terça-feira entre a Galp e a Savannah não é feita qualquer referência à potencial refinaria em território português. 

A Savannah Resources é uma empresa britânica de prospecção mineira cotada na Bolsa de Valores de Londres e com projectos em Omã (de cobre), em Moçambique (de areias minerais) e Portugal (lítio). Em Maio de 2017, a Savannah adquiriu a Slipstream Resources Portugal, onde se incluem as referidas concessões de lítio da empresa em Portugal, para desenvolver o projecto mineiro na região do Barroso, no concelho de Boticas, detendo a Mina do Barroso a 100% desde Junho de 2019.

Com um investimento total estimado na ordem dos 110 milhões de euros e a criação prevista de 215 empregos directos e 500/600 indirectos, o projecto de exploração de lítio em Boticas tem vindo a ser contestado pela população local que criou a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) para lutar contra a mina. com Lusa