Ciência revela que ter um propósito na vida pode ser o segredo da longevidade

Uma metaanálise de dez estudos envolvendo mais de 136.000 pessoas descobriu que ter um propósito na vida pode diminuir o risco de mortalidade em cerca de 17% — quase tanto quanto seguir a famosa dieta mediterrânica.

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Os americanos sonham em viver muito. Num estudo feito há uns anos pelo Centro de Longevidade de Stanford, 77% afirmou que gostaria de chegar aos 100 anos. E, por isso, fazemos dieta, contamos passos, tomamos suplementos e esperamos por tratamentos milagrosos que nos levem à imortalidade. No entanto, embora a dieta e o exercícios sejam certamente vitais para a saúde (alguns suplementos podem realmente prejudicar o seu potencial centenário), a ciência mostra que há outro ingrediente da longevidade que muitas vezes esquecemos: encontrar um propósito.

A investigação revela que as pessoas que acreditam que a sua existência tem um significado têm níveis mais baixos de cortisol, a hormona do stress. Se uma pessoa de 90 anos com um propósito claro na vida desenvolver a doença de Alzheimer, provavelmente continuará a funcionar relativamente bem, apesar das mudanças patológicas reais no cérebro, revelou um estudo. Outra metaanálise de dez estudos envolvendo mais de 136.000 pessoas descobriu que ter um propósito na vida pode diminuir o risco de mortalidade em cerca de 17% — quase tanto quanto seguir a famosa dieta mediterrânica.

Há dois anos, ao pesquisar para meu livro Crescendo Jovem: Como a Amizade, o Optimismo e a Bondade Podem Ajudar a Viver até aos 100 anos, conversei com cientistas e centenários no Japão sobre a razão por trás da longevidade excepcional daquela nação — a esperança de vida ao nascer está nos 84,2 anos, quase seis anos a mais do que nos Estados Unidos. Enquanto em entrevistas semelhantes que fiz no Ocidente, as respostas tendiam a concentrar-se na dieta e no exercício físico, no Japão as conversas rapidamente mudaram para ikigai, que geralmente é traduzido como “propósito na vida” ou “vida que vale a pena ser vivida”.

O ikigai é visto como tendo efeitos mensuráveis ​​na longevidade, por isso, o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão incluiu-o na estratégia oficial de promoção da saúde. Num estudo epidemiológico conduzido junto de 43.000 japoneses, não ter ikigai foi associado a um risco 60% maior de morrer de doenças cardiovasculares. Isso é muito. Comer muitas frutas e vegetais por dia pode reduzir o perigo de sucumbir a doenças cardiovasculares em “apenas” 27%.

E em que é que se traduz esse propósito de vida? Idosos japoneses que entrevistei responderam que pode ser “cuidar dos netos”, “ser voluntário”, “manter as ruas limpas e bonitas”. Para Naoki Kondo, sociólogo da saúde da Universidade de Tóquio, um dos principais factores para se ter ikigai é ter um trabalho remunerado. “Quero trabalhar até um segundo antes de morrer”, disse.

Embora o conceito de ikigai não se traduza facilmente na cultura ocidental e certamente não tenhamos de trabalhar até cairmos, investigadores ocidentais mostram que os conceitos relacionados com o ter um propósito ou significado na vida também podem ter impactos significativos no nosso bem-estar físico.

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“Nos últimos dez a 15 anos, houve uma explosão de investigações que ligam o bem-estar, nas suas várias formas, a vários indicadores de saúde. Quando esse trabalho [começou], não sabíamos que o propósito na vida emergiria como um importante preditor de vários resultados de saúde”, diz Carol Ryff, psicóloga da Universidade de Wisconsin-Madison e directora do Midlife in the USA (MIDUS), um estudo nacional norte-americano. O que essas investigações têm mostrado é que as pessoas que têm altos níveis de propósito na vida passam menos noites nos hospitais, têm menor probabilidade de desenvolver diabetes e duas vezes menos risco de morrer de doenças cardíacas do que as outras que não têm um objectivo de vida.

Viktor Frankl, o falecido psiquiatra austríaco e sobrevivente ao Holocausto, levantou a hipótese de que um propósito maior dá às pessoas a vontade de permanecerem vivas. A investigação está agora a confirmar essa ideia. Pessoas que têm um propósito na vida são mais propensas a manter-se activas, verificar os seus níveis de colesterol e até mesmo a submeter-se a uma colonoscopia.

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No entanto, quando os cientistas controlam os comportamentos relacionados com a saúde, os fortes efeitos do significado na longevidade ainda persistem. A explicação pode estar, em parte, em como ter um propósito na vida afecta a nossa resposta ao stress. Em experiências laboratoriais, quando os voluntários ficam ansiosos (porque são instruídos a fazer um discurso público, por exemplo), os marcadores de stress, como o cortisol, tendem a aumentar. Mas aqueles que relatam altos níveis de propósito “acalmam-se mais rapidamente”, revela Eric Kim, psicólogo da Universidade de British Columbia.

Efeitos semelhantes de amortecimento de stress foram encontrados em investigação que recorrem a ressonâncias magnéticas, descobrindo que, quando são mostradas imagens perturbadoramente negativas (como as de acidentes de aviação ou carros queimadosas) a pessoas que relatam ter um alto nível de propósito, o centro do medo do cérebro, a amígdala, não é tão activada quanto a das pessoas que relatam ter um menor sentido de propósito.

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Infelizmente, procurar ou ter um propósito na vida não é tão simples quanto tomar suplementos dietéticos e, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, quatro em cada dez americanos ainda não conseguiram encontrá-lo. Um desafio é definir a coisa para começar. Enquanto Aristóteles falava sobre uma busca ao longo da vida da “actividade virtuosa da alma”, os psicólogos do século XXI falam sobre ter um sentido de direcção, de estabelecer metas e objectivos. Numa escala mais precisa desenvolvida por Ryff e seus colegas, ter propósito significa responder “sim” a perguntas como “Algumas pessoas vagueiam sem rumo pela vida, mas eu não sou uma delas”; e “não” para “Às vezes sinto-me como se já tivesse feito tudo o que há para fazer na vida.”

A boa notícia é que é possível aumentar o nosso sentido de significado e propósito por meio de intervenções simples, como o voluntariado. “As pessoas aumentam o seu sentido de compaixão e realmente obtêm novas visões do mundo ao fazerem voluntariado, o que pode realmente ajudar a aquecer a alma”, diz Kim, que considera que a atenção plena ou juntar-se a um grupo de pessoas que compartilham os mesmos valores também podem ajudar a pessoa a encontrar um significado para a sua vida. No entanto, tais intervenções ainda não foram testadas, salvaguarda.

Embora ser voluntário ou ingressar num clube possa ser difícil durante uma pandemia, a história já nos ensinou que tempos difíceis podem oferecer uma oportunidade única para encontrar um propósito. Por exemplo, de acordo com uma análise de palavras usadas em colecções históricas de textos escritos, os franceses não têm sido tão felizes desde o fim da Segunda Guerra como durante a guerra. A mesma análise sugere que os britânicos pareciam menos felizes na década de 1980 do que na década de 1940.

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Há algumas indicações de que tanto os norte-americanos quanto os europeus podem estar mais envolvidos em mais comportamentos que gerem objectivos durante esta pandemia do que antes do início da covid-19. Por exemplo, os donativos e a solidariedade aumentaram tanto nos EUA quanto no Reino Unido. De acordo com um estudo feito pelo IPSOS, quase metade dos americanos ajudou vizinhos idosos ou doentes quando a pandemia começou, enquanto 20% potencialmente se expuseram ao vírus para ajudar outras pessoas.

Numa sondagem irlandesa, 57% dos inquiridos declarou estar a reavaliar a sua vida. Durante o confinamento na Primavera, em França, onde vivo, assim como muitas vilas e cidades um pouco por todo o mundo, batemos palmas e batemos em panelas como sinal de apoio aos profissionais de saúde, durante 52 dias seguidos, fizesse chuva ou sol. Isso fez-nos sentir conectados, com um propósito. Talvez nós pessoalmente não pudéssemos ajudar a salvar os doentes, mas pelo menos podíamos dar apoio àqueles que estavam na linha da frente.

Se mantivermos estas atitudes, se encontrarmos um propósito e um significado na actual escuridão, poderemos acabar não apenas mais felizes, mas também mais saudáveis e com uma vida mais longa — e talvez mais resilientes face ao stress da covid-19.


Marta Zaraska é jornalista especializada em Ciência e autora do livro Crescendo Jovem: Como a Amizade, o Optimismo e a Bondade Podem Ajudar a Viver Até os 100, que ainda não foi traduzido para português.