Henrique Segurado (1930-2021): a voz singular de um discípulo actual de Cesário Verde

O autor de Ressentimento Dum Ocidental morreu esta quarta-feira, aos 90 anos. Após décadas de silêncio, tinha regressado nos últimos anos com um conjunto surpreendente de novos livros.

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O livro de estreia do poeta, com capa do escultor João Vieira
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O livro de estreia do poeta, com capa do escultor Jorge Vieira

O poeta, jornalista e livreiro Henrique Segurado, que esteve ligado ao grupo da revista Távola Redonda na década de 50, e que voltara nos últimos anos à poesia, após um prolongado silêncio, morreu esta quarta-feira aos 90 anos. Segundo informações prestadas à Lusa pela ceramista Teresa Segurado Pavão, sua filha, o corpo do poeta e fundador das livrarias Castil será cremado este sábado no Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, após uma missa de corpo presente, às 16h00, na Basílica da Estrela.

Nascido a 6 de Abril de 1930, Henrique Jorge Segurado Pavão estreou-se como poeta aos vinte e poucos anos, em 1953, com Emigrantes do Céu, uma edição da revista Távola Redonda, movimento a que esteve ligado e que fora lançado, entre outros, pelos poetas António Manuel Couto Viana e David Mourão-Ferreira.

Assinando ainda como Henrique Jorge este seu primeiro livro, cuja capa é do escultor Jorge Vieira, é já como Henrique Segurado que publica em 1960, na Ática, o livro Asa de Mosca, que recebeu, a meias com António Ramos Rosa, o segundo prémio no concurso Fernando Pessoa, organizado por aquela editora. Um volume cujo “tom resistente, combativo, interveniente”, o afastava já, segundo viria a notar o ensaísta Fernando J. B. Martinho, da poesia da Távola Redonda.

Colabora em várias revistas, e concorre ainda a um outro prémio de poesia com um livro que nunca veio a ser publicado, Dança do Escalpe, mas é só em 1970 que sai o seu terceiro livro, Ressentimento Dum Ocidental, editado pela Galeria Panorama, no qual a lição de Cesário Verde serve o olhar de um ocidental vivendo em Portugal os últimos anos da ditadura. Se os seus primeiros livros já tinham despertado suficiente atenção para justificar a sua inclusão na antologia Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965, organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira e publicada pela Ulisseia em 1965, nos anos 70 aparecerá em várias antologias e outras obras colectivas, incluindo 800 Anos de Poesia Portuguesa, preparada para o Círculo de Leitores por Serafim Ferreira e Orlando Neves.

Ligado aos jornais desde meados dos anos 50, quando, após uma passagem pela Faculdade de Letras de Lisboa, entrou para O Século, Henrique Segurado foi após o 25 de Abril um dos fundadores de O Jornal, onde se manteve, como jornalista e administrador, até 1992. Paralelamente, abriu em 1976 a primeira livraria Castil em Lisboa, a Castil-Castilho, à qual se seguiram as Castil-Alvalade, Castil-Benfica e Castil-América, e mais tarde, em colaboração com a Valentim de Carvalho, as livrarias AZ em Lisboa e no Porto.

Uma carreira que parecia tê-lo afastado definitivamente da poesia, mas em 2011 e 2012, mais de 40 anos após a publicação de Ressentimento Dum Ocidental, Henrique Segurado regressou com dois volumes nos quais compila a muita poesia que afinal nunca deixara de escrever: Almocreve das Palavras reúne a sua obra lírica produzida entre 1969 e 1989, e Debaixo das Tílias aquela que escreveu entre 1990 e 2010. Um dos poemas deste último, Gola Alta, deu origem a um fado de Camané. Belos objectos gráficos, com desenhos de Rui Sanches, estes dois inesperados volumes confirmam o seu gosto pela poesia rimada e pelos metros tradicionais, das redondilhas maior e menor ao decassílabo, e a sua dívida a Cesário Verde, já homenageado em Ressentimento Dum Ocidental com o próprio título do livro e com o poema de abertura, Saudação a Cesário, e que volta a ser expressamente evocado num poema de Almocreve das Palavras, a encerrar um ciclo de três homenagens que significativamente se inicia com tributos poéticos a Camões e Pessoa.

O poema dedicado a Cesário termina com estas quadras: “E as ruas da cidade/ Num rigor tão pombalino/ Gemendo obscuridade/ De campo com sol a pino…// Gafanhotos, escaravelhos/ E Lua branca de dia/ (A leitura de Evangelhos/ Dos ateus em romaria!)// Perder-me nas tuas ruas/ De canastras e varinas/ De prédios e de charruas/ Buíças com carabinas…// Só sentir à minha volta/ A vida à tua maneira:/ Um muro de pedra solta/ Num tapume de madeira!” 

Em 2016, publica ainda um novo livro de poesia, O Avesso do Império, que confirma este juízo de David Mourão-Ferreira (1927-1996), inserido em Almocreve das Palavras, um livro que o ex-companheiro da Távola Redonda já não pôde ler, pelo menos em versão impressa: “A voz de Henrique Segurado, voluntariamente discreta pelos longos intervalos que têm caracterizado o aparecimento das suas obras, é, no entanto, das mais pessoais dentro da geração de Cinquenta, já por um sentido muito agudo do aproveitamento da tradição em termos de modernidade, já por uma exuberância imagística que frequentemente alterna com um pendor lapidar ou epigramático, de originalidade não menos surpreendente”.

A Ministra da Cultura, Graça Fonseca, divulgou ontem um comunicado em que realça as várias facetas da actividade de Henrique Segurado e “lamenta profundamente a morte do poeta e jornalista”, considerando-o um “poeta discreto, mas rigoroso e musical” e lembrando que “os seus poemas figuram em diversas antologias de poesia nacional” e fazendo referência aos seus livros mais recentes.

A morte é, sem surpresa, um dos tópicos recorrentes da sua poesia mais recente, encarada de frente e não sem humor em muitos poemas de Debaixo das Tílias, como Constatação, que abre com o verso “O poeta não morre... é o tanas!”, ou Ponto Final, que fecha com esta estrofe: “A morte não permite corrigenda/ Na página que fica por escrever./ É carteiro qu'entrega uma encomenda/ E que se esquece às vezes de bater...”.