David Mourão-Ferreira

"Que fique só da minha vida um monumento de palavras...", escreveu David Mourão-Ferreira nos anos 70. De agora até 24 de Fevereiro de 2007, não faltarão desculpas para reencontrar essas palavras

Há dez anos, no dia 16 de Junho de 1996, num quarto do Hospital da CUF de onde se via o mesmo Tejo da sua varanda de infância na Rua Joaquim Casimiro (apenas a três quarteirões de onde hoje fica o hospital), morria David Mourão-Ferreira, poeta, prosador, ensaísta, professor, letrista, lisboeta e europeu.Ao longo dos últimos dez anos, enquanto uns cuidadosamente o esqueciam (que curioso ele não ter constado da lista de autores que Portugal "apresentou" na Feira de Frankfurt no ano dedicado ao nosso país... que estranha a ausência de qualquer menção da parte da sua última editora na Feira do Livro que encerrou há poucos dias em Lisboa!) e outros (amigos e familiares) achavam mais prudente que a publicação de textos inéditos demorasse o que fosse necessário, o público continuou a esgotar edições da sua Obra Poética e do romance Um Amor Feliz. O fado, que ressurgiu em Lisboa, retomou, através de Mariza ou Cristina Branco, as letras que ele escreveu para Amália e revelou, através de Camané, outras novas, que nunca tinham sido gravadas.
Lisboa não o esqueceu: além de João Soares inaugurar a Biblioteca David Mourão-Ferreira e Santana Lopes a rua com o mesmo nome, quis o destino que uma escavadora na abortada estação de metro do Terreiro do Paço tivesse o nome duma das letras que escreveu para a música de Alain Oulman e a voz de Amália: Maria Lisboa! A estação ainda nem chegou a nascer... mas Amália e David Mourão-Ferreira não morrem na memória mais profunda dos lisboetas.
Grande professor de sucessivas gerações, primeiro do ensino secundário e depois da Faculdade de Letras, passando por escolas particulares durante os anos 60 quando o antigo regime o afastou da universidade, David Mourão-Ferreira teve, recentemente, o seu nome associado a uma bonita escola secundária no Bairro Alto que Marçal Grilo inaugurou e outro ministro encerraria - aparentemente a escola era boa de mais e onde havia alunos e professores (que bem protestaram contra o fecho da escola) passou a funcionar uma instituição financeira. Haverá história mais simbólica dos nossos tempos do que uma escola encerrada... por ser boa de mais?!
Europeu e de grande cultura e convicção europeias, David Mourão-Ferreira tinha a paixão da tradução de poesia. Começando por fazê-lo para os vários programas de divulgação que apresentou na rádio e na televisão, continuou traduzindo, deixando uma notável colecção de textos, cuja publicação na íntegra apenas ocorreria em finais do ano passado, através dos três volumes de Vozes da Poesia Europeia, organizados por Joana Varela.
Agora é a Europa, e em particular a Itália de que tanto gostava, quem o celebra. Neste mesmo mês, inaugura-se em Camerino a Academia de Fado David Mourão-Ferreira, enquanto em Bari, na mesma universidade onde em 2005 foi criada a Cátedra David Mourão-Ferreira, será atribuído pela primeira vez um Grande Prémio Europeu de Letras e Artes com o nome do escritor português.
Em Portugal, na mesma RTP em que fez tantos programas sobre a literatura (e em especial a poesia) - que coisa tão estranha e distante a poesia em prime time! -, anunciou-se a emissão, na 2:, no próprio dia 16 [ontem], dum documentário a si dedicado, a cargo de António José Almeida, Anabela Almeida, Joana Varela e Panavídeo.
"Que fique só da minha vida um monumento de palavras...", escreveu nos anos 70. De agora até 24 de Fevereiro de 2007 - data em que completaria 80 anos e antes da qual, tudo indica, serão publicados alguns dos seus textos ainda inéditos -, não faltarão desculpas (das boas!) para reencontrar essas palavras. Filho do escritor e editor da Valentim de Carvalho