E depois da covid-19?

Se no início da pandemia o emagrecimento poderia ser visto como uma questão secundária, neste momento a realidade é outra.

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Rui Gaudencio

Não se deixe enganar pelo título. Apesar de a vacinação já se ter iniciado, este não é um artigo sobre a retoma de uma total normalidade nas nossas vidas, mas sim um guia para os milhares de pessoas que já foram (e ainda serão) infectadas. Uma das questões que vamos sabendo cada vez mais é que, mesmo após a recuperação do vírus, existem problemas de saúde que podem perdurar no tempo e para os quais todas as pessoas devem estar atentas.

Os dados disponíveis até à data revelam que 35% dos adultos com teste positivo não voltaram aos níveis anteriores de saúde, mesmo três semanas após o teste. Na faixa etária dos 18 a 34 anos, 20% reportaram sintomas prolongados no tempo. Um estudo na Áustria verificou que 88% dos participantes infectados e com necessidade de internamento tinham ainda danos pulmonares passadas seis semanas e 56% mantiveram-nos até 12 semanas após.

Apesar de existir ainda pouco tempo de pandemia, para se ter uma ideia exacta das complicações que podem surgir a longo prazo noutras síndromes de insuficiência respiratória aguda provocadas por coronavírus, a capacidade física diminuiu nos dois anos seguintes, e um outro estudo revela que 40% dos infectados ainda tinham sintomas de fadiga crónica três anos e meio após o diagnóstico. De resto, esta fadiga crónica e dificuldade respiratória são as sequelas mais sentidas nos casos mais graves, pois há relatos de falta de ar (70%) e necessidade de utilização de oxigénio em casa (13,5%) mais de um mês após alta hospitalar, situação que se pode arrastar até dois e três meses após debelada a infecção.

Para além desta fadiga crónica, os outros sintomas que se mantêm a longo prazo após a infecção por covid-19 são: dificuldade respiratória, tosse, dores articulares, dores no peito, dificuldade na concentração e confusão mental, depressão, dores de cabeça, febre intermitente, palpitações e perda de olfacto. Também o risco de AVC aumenta em indivíduos infectados por covid-19 independentemente de estarmos a falar de idosos ou adultos. É importante referir que estes sintomas estão descritos mesmo em jovens adultos, sem complicações prévias de saúde e com sintomas ligeiros após a infecção.

Já sabíamos que a obesidade é o segundo mais forte preditor de necessidade de hospitalização (logo a seguir à idade) e está associada à necessidade de ventilação assistida, independentemente de outras patologias associadas. Neste momento é possível também perceber que a probabilidade da manutenção a longo prazo de alguns destes sintomas é duas vezes maior em indivíduos com obesidade e também em hipertensos.

Tendo em conta estes dados, a alimentação saudável e o exercício físico ganham ainda mais relevância nesta altura. É importante povoar a nossa rotina alimentar diária com fontes de nutrientes que possam tornar o sistema imunitário mais competente na resposta à infecção (vitamina C, vitamina D, vitamina E, zinco, betacarotenos), tais como citrinos, quivi, pimentos, cenoura, batata-doce, todas as couves, lacticínios, oleaginosas e eventualmente suplementar vitamina D e ómega 3, pois as fontes alimentares nesta altura do ano são escassas.

Se no início da pandemia (pela surpresa causada por esta mudança súbita de realidade e pelo confinamento) o emagrecimento poderia ser visto como uma questão secundária, neste momento a realidade é outra. Já todos estamos mais adaptados à nova realidade, e os dados disponíveis permitem-nos perceber que o estado de saúde de base consegue prever a gravidade da infecção. Ter um peso saudável e ser fisicamente activo são os melhores “seguros de vida a ter nesta fase”, até porque a tríade infecção/confinamento/sedentarismo tem como outro efeito colateral a perda de massa muscular e consequente deterioração do estado de saúde. Como tal, a combinação de dieta rica em proteína com exercício físico (no ginásio ou em casa, se ainda não se sentir seguro) torna-se ainda mais fundamental nesta fase para que a diminuição da capacidade cardiorrespiratória e de massa muscular seja atenuada.

Para quem continua em teletrabalho, a prática de exercício físico é ainda mais importante, quer pelos seus benefícios em si, quer pelo quebrar da rotina doméstica de longas horas sentado frente a um computador.

Uma nota final para dois suplementos que podem ser úteis no pós-infecção. A creatina, que já se sabe ter muitos outros efeitos positivos para a saúde, para além da melhoria da performance desportiva, pode ajudar na reabilitação pulmonar, sendo já utilizada em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crónica e fibrose quística. Também a co-enzima Q10 pode ter algum impacto positivo na melhoria dos sintomas da fadiga crónica, sobretudo quando esta suplementação é feita nos indivíduos que por outras questões (nomeadamente colesterol elevado) já estejam medicados com estatinas.

A importância de uma alimentação equilibrada está presente em todas as fases da vida, mas às vezes é necessário um pequeno grande “susto” para que esses hábitos alimentares de facto se modifiquem. A infecção por covid-19 para a grande maioria das pessoas que a ela sobreviveu com maior ou menor sintomatologia tem de ser vista como um alerta e uma motivação para a aquisição de rotinas de treino e alimentação ainda mais saudáveis.