O que fazes pelo teu país?

A Revolução de Jasmin trouxe-lhes a esperança num país melhor, mais próspero, mais desenvolvido. Em vez disso, há um sentimento de desilusão.

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"Oxalá não se esqueçam de contribuir para a mudança quando forem mulheres sofisticadas e beberem chá em fina porcelana" DR

Elas são mulheres bonitas, elegantes, de bem com a vida, aliás, bem na vida. Para elas o dinheiro não é problema. Estão na casa dos 50 e muitos, talvez, 60. Glamorosas, filhas e mulheres de homens bem posicionados. Africanas com um pé na Europa e outro na América do Norte. Estudaram no estrangeiro, são cosmopolitas. E com todas estas características podiam ser mulheres bibelot. Em vez disso têm um discurso político activo e actual.

Falam da importância das mulheres na sociedade tunisina, como é fulcral estudarem, trabalharem, serem autónomas, mesmo que casadas e com filhos, serem livres, terem os seus negócios, terem uma voz e participação activa. Irritam-nas aqueles que acham que têm tudo garantido, que os direitos são adquiridos e que não correm o risco de lhos tirarem. Os que não votam merecem-lhes desprezo. Há que votar para fazer ouvir a sua voz, dizem.

Estamos numa vernissage, num espaço elegante em Tunes, e falamos de política. Tão diferente de Lisboa, onde se dirão frivolidades em ambientes como este. Talvez tenha sido diferente nos primeiros anos depois da revolução de 1974, não sei, era uma criança, não frequentava estes meios. A revolução delas é mais recente, celebram-se dez anos em Janeiro. A Revolução de Jasmin trouxe-lhes a esperança num país melhor, mais próspero, mais desenvolvido. Em vez disso, há um sentimento de desilusão. As clientelas políticas e a corrupção continuam, só mudaram as personagens, lamentam. Ainda assim, o discurso destas mulheres é comum quando falam sobre o seu trabalho: Faço o que faço pelo meu país.”

Olhando para os seus rostos cuidadosamente maquilhados, as suas jóias e roupas de alta costura, acredito que passavam bem sem as agruras das burocracias alfandegárias, das leis que não mudam e dificultam a vida de quem quer continuar a pagar ordenados e rendas; de quem quer apostar nas artes e nos artistas locais e dá-los a conhecer ao mundo. Bebem o seu chá de jasmim em chávenas Villeroy & Bosh. Sorvem o vinho local em copos de cristal e voltam à carga com o discurso de que tudo o que fazem é pelo desenvolvimento do país. Pergunto-me: “O que fazes pelo teu país?” (Gosto de me tratar na terceira pessoa do singular.) O que fazem as mulheres da elite portuguesa? Será que têm este espírito de serviço, este sentido de dever, ou continuam a ter os seus pobres, como as suas avós? Será que estas mulheres lindíssimas têm um complexo de Miss Mundo e, por isso, encarnaram o discurso de querer mudá-lo e fazer dele um sítio melhor?

Dias depois, à mesa com quatro jovens com cerca de 25 anos, que cresceram no período pós-revolucionário, conto-lhes como aquelas mulheres me impressionaram ao falarem com entusiasmo do seu trabalho, como aquele parecia ser a sua missão em nome de algo maior, e pergunto-lhes se sentem esse mesmo ímpeto. Tento perceber se é um traço comum à sociedade tunisina. Eles, três raparigas e um rapaz, entreolham-se. Ele responde de imediato que não sente qualquer obrigação por um país onde a corrupção grassa. Elas são mais ponderadas. Concordam, mas acrescentam que só fazendo primeiro algo por si poderão pensar nos outros e têm ideias de como contribuir, que medidas políticas deveriam ser adoptadas, dando exemplos concretos. Pelo caminho, lamentam os amigos que desistiram do seu país e emigraram para França, Canadá, Qatar... Mas não os condenam. Condenam os políticos.

Estes jovens não são filhos das senhoras da vernissage, os delas estudam nos EUA ou em França, Ciência Política ou Relações Internacionais em universidades de renome, provavelmente reflectem sobre as palavras de Kennedy: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti. Pergunta o que podes fazer por ele.” Estes jovens são de uma classe média que estudou – são quadros em empresas internacionais, gostam de viajar, de se divertir, defendem a liberdade de as mulheres usarem hijabe (nenhuma delas o enverga, mas respeitam quem o faz) , que fuma, que bebe, mas que cumpre o Ramadão. São jovens iguais aos portugueses, com os mesmos sonhos e aspirações, mas com um desejo de mudança urgente, porque lhes foi dada a esperança de um mundo melhor com uma revolução que se revelou uma ilusão. “First the money to have the power to change”, resume, prática, uma delas.

Oxalá não se esqueçam de contribuir para a mudança quando forem mulheres sofisticadas e beberem chá em fina porcelana durante um evento social. Insha'Allah.

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