O bullying da D.

Quando eu estava distraída, apagavas palavras do meu caderno, trocavas as letras e transformavas a minha escrita num emaranhado de letras horrível.

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Paulo Pimenta

Querida D.

Chegaste num dia frio de Novembro e revolucionaste a minha vida. Eu tinha acabado de entrar numa nova escola. Fui sozinha sem amigos, mas confiante que iam ser tempos felizes.

Tu foste tão discreta que nem me apercebi da tua chegada. Tinha 7 anos quando comecei a ver-te melhor. Achei-te meia sonsa, com um ar de quem não parte um prato. Na verdade não te liguei nenhuma. Mas parecia que tinhas tirado o tempo para me irritares. De amiga tinhas muito pouco.

Quando eu estava distraída, apagavas palavras do meu caderno, trocavas as letras e transformavas a minha escrita num emaranhado de letras horrível. Todos os dias, e sem ninguém ver, abanavas o meu caderno para que eu não lesse bem conseguias porque eu saltava linhas e ficava tão irritada que os meus olhos se enchiam de lágrimas. Achei indecente.

Tanto fizeste que comecei a não gostar de ir para a escola. Tinha vergonha de contar aos outros meninos o que se estava a passar. Sentia-me triste e sozinha e tu eras a principal culpada. Eu tentava que não fosses tão má, mas tu não me querias ouvir. De dia para dia ia sendo pior, e eu arranjava as maiores desculpas e estratégias para esconder o que estava a passar e para que a professora não percebesse.

Foste horrível, mas tiveste azar. A professora descobriu tudo, ficou ao meu lado, ajudou-me, sem fazer alarido e sem chamar a atenção da turma para mim. Senti-me muito mais segura.

Devagarinho e com a ajuda da mãe e da professora fomos-te fintando.

Deixaste de conseguir fazer tudo o que querias, e isso tirou-te poder. Deixou-te mais querida e até mais humana. Eu também mudei, comecei a tolerar-te e a aceitar-te devagarinho. Bem devagarinho. Mas foi preciso tempo. Muito tempo, paciência e um trabalho infinito.

És cansativa que se farta. Mas eu aprendi a ser persistente e hoje sou muito mais forte e ponho-te no lugar quando é preciso. Já não tenho medo de ti e sei que por mais que queira nunca me vais largar. Para que saibas, és enjoativa. Não sei se já alguém teve a coragem de te dizer isto.

A verdade é que quase três anos depois, às vezes, ainda me fazes chorar, mas com a ajuda da mãe, da professora e da terapeuta, voltei a ser uma criança feliz. Recuperei a minha alegria e consigo-te ignorar totalmente nas minhas brincadeiras no recreio. Na sala de aula continuas a estar ao meu lado, mas bem mais controlada. Nada a ver com as parvoíces de antigamente. Ainda bem!

Sei que não gostas do teu nome, é pesado e faz justiça ao teu mau feitio. Vou contar a toda a gente Dislexia que, embora sejas insistente, não é tudo mau. Na verdade eu sou uma criança muito criativa, comunicativa e óptima a resolver problemas por tua causa.

Beijinhos D.

De uma criança disléxica

P.S.: A dislexia afecta 10% da população mundial. Não é uma simples troca de letras sem importância. É uma dificuldade neurológica que se manifesta numa dificuldade em ler, escrever e memorizar e que não está relacionada com o QI. Ajudar estas crianças a lidar com a dislexia torna a sua aprendizagem mais leve e feliz. A sua contribuição na divulgação e sensibilização para a dislexia faz toda a diferença. Em nome de todas as crianças disléxicas obrigada por partilhar.


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