Da Suécia, com calma e cautela

O facto de a Suécia ser usada numa espécie de Benfica-Sporting do debate sobre a pandemia é algo que me incomoda. Ou, como diria Carl Gustav, é um pouco “tråkigt”. Mas se é para ser assim, pelo menos que se usem fontes de informação verdadeiras, notícias completas e não apenas traduções a dois tempos de tablóides sensacionalistas.

Atravessava o Rossio, no final do Verão, numa das minhas passagens pela cidade natal quando um grupo de pessoas, sem máscara, gritava palavras de ordem contra as medidas restritivas impostas pelo Governo português durante a pandemia. No fim do discurso, que acompanhei lá do fundo da praça, ouvi um sonoro “Obrigado, Suécia!”. Sendo emigrante no país há 15 anos, confesso que sorri com a referência, mas não a percebi bem. Na semana que se seguiu entendi que aquele grupo formava os “Jornalistas pela verdade” e a Suécia era vista como o exemplo de quem seguira a vida normalmente, ignorando a pandemia. Em simultâneo, fui lendo notícias diárias onde o “modelo” sueco era (e é) discutido em Portugal para se demonstrar o falhanço absoluto das medidas aplicadas. Para além desde súbito fascínio com a Suécia, que não entendo, ainda compreendo menos como pode um modelo ser utilizado por quem desvaloriza a covid (e nega que sejam aplicadas quaisquer medidas) e, ao mesmo tempo, servir de referência para quem quer dizer que as medidas estão erradas. Pior ainda: como é que se debate um modelo que se foi adaptando ao longo dos meses, que foram para todos de aprendizagem, como se fosse algo estático e imutável?

Recentemente, o responsável máximo da saúde na região de Estocolmo (Björn Eriksson) disse numa entrevista que não seria necessário reabrir o hospital de campanha porque a cidade tinha camas suficientes. Referiu também que precisava de ajuda da população para cumprirem as recomendações do Governo e, algo que não é novo, mais efectivos, mesmo de outras áreas, para trabalharem nos hospitais e centros de saúde. Em Portugal esta notícia surgiu com o título “Precisamos de ajuda!” e “Estocolmo está com 99% de ocupação”.

Note-se, eu não sei qual é o melhor caminho para se lidar com uma pandemia, não tenho certezas absolutas e limito-me a seguir as recomendações de quem passou uma vida no terreno. Entre as certezas da classe política ou a opinião de um cientista que estava na linha da frente na “explosão” do ébola em África, Anders Tegnell, desculpar-me-ão mas tenderei a ouvir este último. Na Suécia, aliás, os papéis estão bem delimitados, com autonomia da direcção de saúde face aos poderes políticos. O que não entendo é esta necessidade de se discutir em Portugal o que se passa na Suécia usando frases fora de contexto ou histórias contadas para validar uma narrativa pré-definida. O Governo sueco admitiu que falhou nos lares, no início da pandemia. Encerraram as visitas tarde demais e isso teve um preço alto. E foi assumido pelos responsáveis, coisa a que não estamos habituados na realidade portuguesa.

Ainda assim, de alguma forma, esta falha surgiu nos nossos jornais como “Idosos abandonados à sua sorte” (Pedro Filipe Soares repetiu-o aqui no PÚBLICO) ou sem tratamento. Quando Johan Giesecke (antigo epidemiologista chefe da Suécia e mentor de Anders Tegnell) disse em Abril que a falha nos lares tinha levado à morte de pessoas que, de qualquer forma, morreriam dali a poucos meses, fiquei escandalizado. O que para ele era matemática antecipada (dizia que os países da UE chegariam ao fim com um número semelhante de mortos), para mim, latino e de povos mais calorosos, parecia uma análise fria. Só depois de perceber o funcionamento dos lares é que entendi o que ele queria dizer – o SNS sueco providencia apoio na velhice ao domicílio, portanto, as pessoas só saem de suas casas para os lares numa fase da vida em que já estão bastante debilitadas. O mesmo é dizer que a estadia nos lares não é longa, em contraponto com a nossa realidade onde, por vezes, “despejamos” os mais velhos por longos anos. Nesse contexto, percebi o sentido da frase de Giesecke. Não sei se estará certo ou não mas, oito meses depois, o número de mortos em Portugal aproxima-se da realidade sueca a uma velocidade preocupante.

O mesmo se passou com a intervenção do rei. Disse “falhámos”, referindo-se aos mortos, e usou a expressão “tråkigt” (aborrecido) para descrever a situação. O que se espera de um monarca sem qualquer responsabilidade de governação? Claro que vai lamentar as mortes e fazer uma declaração de Estado. Desde quando é que isso tem qualquer outra validade que não seja a da solidariedade com o povo sueco? E poderá algum chefe de Estado não repetir essa frase? Haverá alguém que desde o princípio da pandemia tenha certezas e não lamente os seus mortos?

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Emporia Shopping, Malmö, 20 de Dezembro de 2020: a Suécia tem mais mortos e menos casos de covid-19 que Portugal EPA/JOHAN NILSSON

Parece-me também importante referir o seguinte sobre a abordagem sueca a esta pandemia. Há, desde sempre, medidas restritivas que, ao longo do tempo, se foram adaptando às realidades. São os responsáveis que o assumem e dizem, de forma honesta, que estão a aprender ao longo da caminhada. Eu estou a trabalhar a partir de casa há nove meses. É um cenário normal por todo o país. De igual forma, há sinais para o distanciamento físico em qualquer espaço público, líquido para desinfecção em cada loja, protecções para quem atende terceiros, convívios reduzidos ao núcleo familiar, actividades de grupo canceladas (desportos, música, etc.), espaçamento em restaurantes e por aí fora. Existem duas grandes diferenças em relação a Portugal: nada é obrigatório, mas aconselhado, tanto que não há obrigatoriedade no uso da máscara (mas aconselhado que a usem nos transportes públicos), nem confinamento ou recolher obrigatório. No entanto, muitas pessoas usam a máscara por livre iniciativa e, quanto ao confinamento, eu diria que a população já se recolhe há meses – a ideia geral das pessoas é que o Governo não necessita de lhes dizer o óbvio para que cumpram.

E, sinceramente, mesmo não sendo especialista na área da saúde, parece-me ter alguma lógica não obrigar ao confinamento em horas específicas porque, como se vê em Portugal, isso significa que um número maior de pessoas se concentra num espaço menor de tempo. Traduzindo, todos ao monte de manhã num centro comercial aumentando a probabilidade de contágio para, em seguida, se fecharem com as respectivas famílias.

Há ainda, entre as várias notícias “à la carte”, uma que me deixa ainda mais apreensivo e que tem que ver com a economia. Segundo algumas publicações que, anteriormente, acusaram o Governo sueco de apenas olhar para os números, todo o esforço teria sido inglório porque, e cito, a Suécia estaria em recessão como os restantes países da Zona Euro. Ora, nenhuma delas é verdade. Nem a Suécia ignorou as pessoas para defender os números nem, muito menos, se encontra numa situação económica semelhante à portuguesa. Para mal dos nossos pecados, acrescente-se. É um facto que enquanto o “mundo foi para casa”, a partir da Primavera, a Suécia, tal como os demais, passou por dificuldades. Alguns empregos desapareceram, várias empresas foram para lay-off e o Governo teve que prestar auxílio, recorrendo a uma “bazuca” (para usar um termo da moda) para aguentar os trabalhadores ou os desempregados durante alguns meses. Neste momento, ainda que apoiadas em trabalho remoto, muitas empresas voltaram a contratar e já se sente alguma retoma com o aumento das exportações. E falamos de um período de meses para esta retoma, não são anos. O meu empregador (Volvo), que é um dos maiores no país, passa exactamente pelo cenário descrito. Portanto, se nas discussões do vírus ainda podemos tentar extrair reacções por títulos de notícias, já na parte financeira é mais complicado. A realidade é apenas uma.

O facto de a Suécia ser usada numa espécie de Benfica-Sporting do debate sobre a pandemia é algo que me incomoda. Ou, como diria Carl Gustav, é um pouco “tråkigt”. Mas se é para ser assim, pelo menos que se usem fontes de informação verdadeiras, notícias completas e não apenas traduções a dois tempos de tablóides sensacionalistas.

E, no fim desta pandemia, se me for concedido um desejo de Natal, gostava que o nosso país continuasse na sua comparação com a Suécia no debate das estratégias. Começando na educação universal, passando pela aplicação da receita dos impostos progressivos (quem tem mais paga mais) e no valor do salário mínimo, que não é de miséria, e terminando no gigantesco Estado social sustentável. Além de ser um debate mais interessante teria o bónus, pelo menos pessoal, de me facilitar o regresso a casa.