Fabricar as vacinas da covid-19, o outro contra-relógio da pandemia

É uma corrida industrial como nunca se viu: depois de a ciência ter estado em campo para desenvolver as vacinas contra o novo coronavírus, agora é a vez de a indústria dar tudo por tudo para as produzir e distribuir.

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Caixas com doses da vacina da Pfizer prontos a serem embaladas na fábrica de Kalamazoo, no Michigan (EUA) Reuters/POOL
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As vacinas prontas a administrar LUSA/MARK LENNIHAN / POOL
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Uma caixa com os frasquinhos de vacinas Reuters/POOL
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Um carregamento da vacina da Pfizer prestes a ser despachado por avião nos EUA,Um carregamento da vacina da Pfizer prestes a ser despachado por avião nos EUA Reuters/POOL,Reuters/POOL

Pode ser ainda nesta sexta-feira que seis milhões de doses da vacina contra a covid-19 da Moderna comecem a circular nos Estados Unidos, logo que a Food and Drug Administration (FDA), a agência que regula o mercado dos medicamentos nos EUA, autorizar a segunda vacina contra o novo coronavírus nos Estados Unidos. Isto é mais do dobro das doses da vacina da BioNtech-Pfizer, anunciou o general Gustave Perna, o responsável pela logística da operação Warp Speed, que pretende fazer chegar 300 milhões de doses de vacinas para a covid-19 aos cidadãos norte-americanos. 

O primeiro desafio foi desenvolver vacinas contra a covid-19 numa velocidade de contra-relógio. Ao mesmo tempo, as empresas que se esforçaram para chegar à meta em primeiro lugar tiveram de correr noutra pista, onde a aposta é igualmente de tirar o fôlego: produzir milhões de doses da vacina para estarem prontas a despachar para qualquer lugar do mundo logo que fossem aprovadas, num piscar de olhos. 

Estreia absoluta

A norte-americana Moderna traçou o objectivo de ter 20 milhões de doses nos Estados Unidos até ao fim de 2020. É uma empresa de biotecnologia com uma década de existência, que se especializou em terapias baseadas na tecnologia de ARN-mensageiro (ARNm). Mas a vacina contra a covid-19 é na verdade o seu primeiro produto a ultrapassar a fase dos ensaios clínicos e a chegar ao mercado.

Para a Moderna, é uma estreia absoluta. Espera encontrar a experiência de colocação de um produto no mercado junto através do acordo assinado em Maio com a suíça Lonza. No comunicado que anunciou a colaboração o objectivo anunciado era “a produção de mil milhões de doses” da vacina, a partir de Julho, nos EUA, em Portsmouth (New Hampshire). Na Europa, a vacina seria fabricada em Visp, na Suíça.

A ideia é fabricar 100 a 125 milhões de doses da vacina no primeiro trimestre de 2021, das quais 15 a 25 milhões seriam distribuídas fora dos EUA, confirmou a Moderna ao PÚBLICO. A Agência Europeia do Medicamento prevê pronunciar-se sobre a sua autorização até 6 de Janeiro, mas nesta sexta-feira a Comissão Europeia exerceu o direito de preferência do contrato que tinha com a Moderna e comprou mais 80 milhões do doses desta vacina, elevando o total para 160 milhões de doses.

A vacina desenvolvida pela empresa de biotecnologia alemã BioNtech está a ser produzida e distribuída pela gigante farmacêutica Pfizer - à excepção da China, onde será comercializada pela Fosun, e enfrentará uma forte competição das vacinas da Sinopharm, da CanSino e da SinoVac, algumas das quais começaram já a ser administradas antes de serem aprovadas.

A Pfizer está a produzir matérias-primas necessárias para a vacina de ARNm, bem como o produto final, nas suas fábricas nos EUA, em Andover (Massachusetts) e Kalamazoo (Michigan), bem como em Puurs (Bélgica), a partir da qual pretende abastecer o mercado europeu. A BioNtech tem também fábricas na Alemanha, onde produz as moléculas de ARNm sintético e as nanopartículas de lípidos em que se inserem, para serem injectadas no organismo.

O objectivo seria produzir 1300 milhões da vacina da BioNtech-Pfizer em 2021, mas em 2020 só há cerca de 50 milhões de doses disponíveis para todos os países que a aprovarem – o que a torna um bem algo escasso. “Vários factores tiveram um impacto sobre o número de doses disponível em 2020. Um deles é que produzir a vacina a esta escala e neste ritmo é algo sem precedentes. Acelerar a cadeia de fornecimento de matérias-primas demorou mais do que esperávamos”, disse a Pfizer ao PÚBLICO.

A Administração Trump está a negociar um acordo com a Pfizer que poderá permitir à farmacêutica um acesso mais fácil às matérias-primas de que necessita - com o objectivo de os EUA virem a ter mais doses da vacina em 2021, noticiou o New York Times.

Acordos de produção

A Johnson & Johnson (J&J) está alguns passos mais atrás - anunciou nesta sexta-feira ter 45 mil participantes no seu ensaio clínico de fase 3, do qual espera ter dados provisórios no fim de Janeiro. Mas a vacina que está a ser desenvolvida pela sua filial Janssen – que aposta numa única dose para conferir imunidade – está já a ser apreciada pelas agências reguladoras do medicamento na Europa e EUA. E a multinacional farmacêutica preparou-se para uma colocação rápida no mercado, investindo em vários acordos de produção, nos EUA e na Europa.

“A J&J investiu mais de 300 milhões de dólares em novas unidades de produção nos EUA e na Ásia e no alargamento da unidade que temos na Europa, em Leiden, na Holanda, de forma a garantir o fornecimento da vacina a nível global”, disse directora-geral da Janssen Portugal, Filipa Mota e Costa. “Com este investimento conseguimos produzir mil milhões de doses por ano, já para utilização ao longo de 2021.”

Estes acordos incluem até uma parceria com a Aspen, na África do Sul, uma das primeiras farmacêuticas a produzir genéricos dos anti-retrovirais no continente africano que permitiram a milhões de doentes aceder a tratamentos para a sida. A farmacêutica sul-africana diz ter capacidade para fabricar 300 milhões de doses. O mais recente acordo de produção foi assinado esta semana pela Janssen com a farmacêutica catalã Reig Jofre, para produzir até 50 milhões de doses por ano da vacina da covid-19.

O desenvolvimento da vacina para a covid-19 pela Janssen, tendo por base a tecnologia que serviu para as vacinas contra os vírus do ébola e Zika, começou em Janeiro. Trata-se de um adenovírus geneticamente modificado, que não causa doença, no qual foram inseridos genes do novo coronavírus, para que as nossas células produzam uma proteína que faz reagir o nosso sistema imunitário. Desta forma, o sistema imunitário é treinado para reconhecer o novo coronavírus. 

Se a investigação sobre a vacina começou logo em Janeiro, os “preparativos para a produção começaram a 1 de Abril, ainda antes do início dos ensaios clínicos”, explicou Filipa Mota e Costa ao PÚBLICO, por email

A vacina da AstraZeneca-Universidade de Oxford está atrasada, precisa de fazer mais ensaios clínicos, porque teve resultados que suscitaram dúvidas, e vai fazer uma colaboração com o Instituto Gamaleya, que desenvolveu a vacina russa Sputnik V. Mas preparou-se para ter uma produção de até três mil milhões de doses da vacina em 2021, através de acordos com várias empresas e entidades em diversos locais do mundo.

A empresa indiana Serum Institute, por exemplo, que é o maior fabricante mundial de vacinas por volume de produção, já tem mais de 40 milhões de doses prontas desta vacina para o mercado indiano. Mas na Austrália, por exemplo, a empresa CSL já começou a produzir 30 milhões de doses. O desenvolvimento da vacina é que se atrasou.

Esse é um problema comum. A Sanofi-GSK, por exemplo, anunciou que só deverá conseguir ter a sua vacina no fim de 2021, pois a resposta imunitária que desencadeia foi considerada insuficiente e a Novavax está igualmente atrasada