Antes que a rua feche

Quando há recolher obrigatório às 13h, sente-se a urgência de viver o dia numa só manhã. Antes que a rua feche.

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daniel rocha

Estranhas são as manhãs dos dias de recolher obrigatório. A cidade agita-se até às 13h.

Em Setúbal, logo às 11h, já há casais frente a um jarro de vinho, pão e azeitonas, enquanto esperam por choco frito ou peixe assado. Dão alento e euros a quem optou por abrir portas, ainda assim. Bonito.

Estranho é percorrer a Doca dos Pescadores e ver tantos fogareiros sem carvão, chaminés sem fumo, vitrinas sem peixe.

Há muita gente na rua, mais ainda à beira-rio. Desde há uns tempos, parece sempre que há gente a mais em todo o lado. E demasiados cãezinhos, tantos. Estamos quase a fugir dali, mas as conversas prendem-nos.

“Então, rapaz, andas a passear o esqueleto?”, pergunta um homem a outro, ambos na casa dos 70 anos (parece-nos, apesar das máscaras). “E tu, a refrescar a diabetes?” Riem-se das suas maleitas. Reclama o primeiro, apoiado na bengala: “Eh pá, até me fizeste embaciar os óculos.” Quase a dar um abraço, lembram-se e recuam.

No meio do rio, a draga vai sugando o fundo do Sado. Motiva diálogos, dúvidas e discórdia entre quatro pessoas de meia-idade (parece-nos, apesar das máscaras). “Malvados”, conclui a mulher que fala mais alto.

Praticantes de remo, paddle e canoagem pintam o rio com os seus coletes vermelhos, verdes, cor de laranja. Alegram-no com as suas vozes, brincadeiras e gargalhadas, que chegam à margem.

A esplanada da praia da Saúde, lá no final da Avenida José Mourinho, enche-se demasiado… nessas manhãs, apesar de não servirem à mesa e de terem sempre o volume da música estupidamente elevado. Nem se consegue ouvir o rumorejar da água, mesmo ali aos pés.

Há um bolo de aniversário numa das mesas. Está rodeado de bebidas pouco apropriadas para o pequeno-almoço, mas é dia de festa e os jovens só estão a querer ser isso mesmo (parece-nos, apesar das máscaras). Vivem a urgência de aproveitar as poucas horas de encontro permitido.

Verdadeiros pelotões pedalam Arrábida acima, Arrábida abaixo. Estão enlameados e felizes. Falam alto e animados.

“Gosto de ti como esta pedra”, diz a menina ao adulto que a acompanha, talvez o pai. Desiludido, o homem pergunta: “Só isso?” A criança reformula: “Gosto de ti como o tamanho do planeta Terra.” O adulto está feliz: “Isso é bom, isso é bom.” Correm para o carro: “Anda, é quase meio-dia, o parque vai fechar.”

Nos dias de recolher obrigatório às 13h, o Parque Urbano de Albarquel obriga a que o estacionamento se esvazie uma hora antes. Daí a pressa do pai da menina.

Agora, sim, fugimos.

A pandemia fez-nos descobrir novos caminhos, ruas solitárias, edifícios antigos e diferentes. Aqui e ali, cruzamo-nos com quem também se esconde e não pertence ao percurso escolhido para os dias que se transformaram em apenas manhãs. Sorrisos cúmplices, com o rosto a descoberto e à distância de um passeio ao outro. Dir-se-iam crianças marotas que sabem estar a desobedecer a alguém.

Dos restaurantes da sempre animada Fonte Nova, só a Casa da Rosa abriu. Ao fogareiro, o senhor Artur responde um “dá para trabalhar” bem-disposto a quem lhe pergunta se “há take away com fartura”. É também ele que pesca o peixe que ali é servido. Benditos massacotes.

Estamos quase em casa, o mais difícil é subir a rua. Ouve-se o sino, só uma badalada, e abre-se o portão. A rua fechou.

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