Rebeldes etíopes atacam a Eritreia depois de perderem capital de Tigré

Explosões em Asmara aconteceram pouco depois de Adis Abeba ter reclamado o controlo da capital da região e declarado o fim da ofensiva na província junto à fronteira com o território eritreu.

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Refugiados etíopes improvisam abrigos num campo gerido pela ONU no Sudão BAZ RATNER/Reuters

Rockets lançados da província de Tigré, no Norte da Etiópia, atingiram a capital eritreia, confirmaram este domingo diplomatas ouvidos pelas agências de notícias. A embaixada dos Estados Unidos em Asmara já tinha dado conta de “seis explosões” na cidade no sábado à noite, poucas horas depois de o Governo etíope ter assumido o controlo de Mek’ele, capital de Tigré, e declarado vitória sobre a Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT).

Esta é já a terceira vez que Asmara é atacada desde que Adis Abeba lançou a operação militar para “recuperar a soberania” da província governada pela FLPT, a 4 de Novembro. A FLPT justificou mais uma vez o ataque com a acusação de que as autoridades eritreias têm estado a ajudar militarmente o Governo federal do primeiro-ministro, Abiy Ahmed, o que tanto a Etiópia como a Eritreia desmentem.

Segundo dois diplomatas em Adis Abeba disseram à AFP, “múltiplos rockets” parecem ter atingido o aeroporto de Asmara e instalações militares. A Eritreia é um dos países mais secretos do mundo e não houve nenhum comentário ao ataque.

Mas o Governo eritreu é próximo de Abiy, que negociou a paz com a nação vizinha, ao mesmo tempo que a FLPT considera a Eritreia como arqui-inimigo. Aliás, o plano de paz que valeu a Abiy o Nobel em 2019 foi um dos factores para a deterioração de relações entre as autoridades federais e a FLPT – o partido controlou a coligação de formações regionais no poder em Adis Abeba durante quase três décadas, incluindo durante a guerra com a Eritreia, entre 1998 e 2000.

Numa análise publicada no início de Novembro, o think tank International Crisis Group admitia que a Eritreia decidisse envolver-se em apoio de Adis Abeba contra a FLPT, antecipando que isso podia levar à entrada em cena de diferentes grupos sudaneses, “cada um com motivos diferentes para apoiar Adis Abeba, Mek’ele ou Asmara”.

Depois de terem prometido “resistir até à morte”, as forças da FLPT parecem ter desaparecido da capital da região que até aqui governavam. Isto a acreditar nas declarações de Abiy, que no sábado, ao início da noite, assegurava que Mek’ele estava “sob controlo” das forças federais e dava por terminada a operação militar que ordenou há pouco mais de três semanas.

A verdade é que é impossível saber o que se passa em Tigré, onde todas as comunicações e a electricidade permanecem cortadas. As Nações Unidas e vários líderes regionais têm apelado ao Governo para abrir corredores humanitários e permitir o acesso das agências internacionais, temendo tanto pelas consequências dos bombardeamentos e dos combates, como pela situação dos milhares de etíopes que já eram deslocados internos e dos 100 mil eritreus que vivem refugiados em Tigré, dependentes das organizações de ajuda.

Os poucos relatos directos chegaram através dos mais de 40 mil etíopes que fugiram da violência e alcançaram o Sudão e descrevem muita violência e confrontos étnicos – as forças federais atacaram Tigré com a ajuda de milícias amhara (da região com o mesmo nome, que tem disputas territoriais com Tigré) e terá havido massacres de parte a parte.

O pretexto para a ofensiva foi um alegado ataque contra duas bases militares das forças etíopes em Tigré – que a FLPT desmente – mas desde Setembro que o Governo de Abiy deixara de reconhecer a autoridade da FLPT e considerava os seus comandantes “criminosos” que ameaçavam a integridade da Etiópia. Isto depois de a FLPT declarar o próprio Abiy um primeiro-ministro ilegítimo, quando este decidiu adiar as legislativas por causa da pandemia de covid-19. Em resposta, os dirigentes regionais realizaram as suas próprias eleições, que Adis Abeba não reconheceu.