Florestas autóctones: testemunho vivo da biodiversidade portuguesa para a posteridade

Formam o grande conjunto de espécies lenhosas com origem no território português, pelo que o seu valor é incalculável, principalmente com as ameaças que hoje enfrentam: alterações climáticas, espécies exóticas, incêndios rurais e desinvestimento. Para reforçar a sua importância e fomentar a discussão, 23 de Novembro é Dia da Floresta Autóctone.

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Adriano Miranda

Quando confrontados com descrições dos conjuntos arbóreos e arbustivos que compõem a floresta autóctone portuguesa, é recorrente verificarmos o emprego de termos como “resiliente”, “policulta”, “diversa”, “adaptada”. No entanto, são poucos os pensadores da área que conseguem mensurar a riqueza deste património biológico que, ao longo de milhares de anos, se inter-relacionou com (e influenciou) os diferentes ecossistemas e bioclimas existentes em Portugal e que, aos dias de hoje, se apresenta como uma herança viva de todos esses processos – ao mesmo tempo que espelha as variações do território.

Paulo Farinha Marques, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e especialista em arquitectura paisagista, parte deste quadro para expor a sua visão da floresta nativa portuguesa. “É como se fosse um verdadeiro jardim, tão diverso que parece que alguém especial o veio plantar.” Nele cabem, a norte, o carvalho-roble e o padreiro, a sul o sobreiro e a azinheira, nos territórios com clima mais rigoroso o castanheiro e a cerejeira-brava, nos locais mais amenos o loureiro, nas zonas mais altas, o teixo e a bétula, e o amieiro e o freixo nos territórios ladeados por cursos de água.

O carácter único deste património – que hoje tem a sua existência celebrada e assinalada –, por configurar um “repositório da informação biológica mais precisa que existe”, deveria constituir, na opinião do docente, um motivo mais do que suficiente e válido para a sua conservação – um processo contínuo, ainda a decorrer, inerente à condição de seres vivos. “Está sempre a replicar-se e a reinventar as suas substâncias, os seus genes e o seu valor.” Em última instância, uma política de conservação face à floresta autóctone, à luz dos dias de hoje, que permita, no futuro, “com mais capacidade anímica, científica e executiva”, retomar essa mesma floresta. Um recomeço que surge como resposta à destruição, ao “deitar abaixo”.

Uma floresta planeada (e plantada) para dar resposta aos objectivos económicos

Ao longo dos séculos, a história da floresta autóctone reflecte a evolução dos processos económicos que serviram de base à subsistência da vida humana – principalmente desde que esta começou a ser dominante. Segundo Helena Freitas, docente da Universidade de Coimbra e investigadora no Centro de Ecologia Funcional, “ao longo do século XX, sobretudo devido ao aparecimento de novas actividades económicas,” a floresta autóctone portuguesa sofreu transformações profundas, “fazendo que ela correspondesse (e respondesse) a algumas dessas actividades”.

Numa primeira fase, a fileira do pinho foi protagonista da mudança, tendo em vista o aproveitamento da madeira e da resina, ao passo que o eucalipto começou a dominar nas últimas décadas do século, face ao crescimento da indústria do papel. Estas intervenções, com o objectivo de tornar a floresta um “território mais produtivo” (através da monocultura e de um regime intensivo), acabariam por permanecer e prevalecer sobre uma perspectiva mais conservacionista, orientada para a biodiversidade e para os valores naturais. Como tal, os efeitos não demoraram a fazer-se sentir. Nas palavras de Paulo Farinha Marques, “registou-se uma retracção”.

Na sua actualização de Novembro de 2019, o Inventário Florestal Nacional, publicado pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, indica que 72% da floresta nacional é constituída por espécies autóctones. Helena Freitas faz uma leitura diferente: “O ICNF considera o pinheiro-bravo uma espécie autóctone, o que não é um erro, mas a sua propagação teve um objectivo industrial, à semelhança do eucaliptal.” Sublinhando que “a floresta biodiversa é aquela que privilegia as folhosas”, a investigadora da Universidade de Coimbra esclarece: “Tecnicamente, tendemos a não incluir os povoamentos de pinheiro-bravo porque, de facto, não é a espécie que define a floresta autóctone nacional.”

“O que persiste dessa floresta autóctone são resíduos, são espaços muito contidos, muito limitados”, reflecte o investigador da Universidade do Porto. “Está confinada a núcleos muito pequenos.” Pelas suas características biológicas, as espécies autóctones estariam sempre em desvantagem quando comparadas com as exóticas que, ao longo dos anos, foram introduzidas tendo em vista o aproveitamento económico – e que actualmente representam uma grande ameaça à biodiversidade. O seu crescimento “mais lento” torna-as menos competitivas e atraentes para determinadas indústrias, uma realidade que se agrava face às alterações climáticas e em cenário de resposta aos incêndios – fenómenos que, segundo Helena Freitas, representam as maiores ameaças à floresta nativa portuguesa.

Com uma mancha florestal que consiste “no predomínio crescente de espécies exóticas e na perda progressiva das espécies autóctones”, reflexo do “descuramento no investimento nestas espécies”, a docente e investigadora considera que o actual momento é de “viragem”, no que concerne à conservação da floresta autóctone, sob pena de as perdas serem “gravíssimas e irreversíveis”. “Devíamos começar por identificar e proteger rapidamente aquelas manchas naturais que preservam uma identidade e uma integridade natural ainda muito significativa. Torná-las invioláveis e garantir a sua salvaguarda, de forma intransigente”, defende. A sinalização, aponta, pode ser utilizada na “reconversão, regeneração e restauro de outros territórios”.

Fomentar o conhecimento, fazendo da floresta uma escola

A população, extremamente concentrada nos grandes centros urbanos e alheada destas problemáticas, ainda com crescentes excepções, representa um papel determinante no processo de transformação e reconversão da floresta portuguesa em direcção à sua origem. No entanto, Paulo Farinha Marques sugere que a distância entre os territórios rurais e urbanos abre caminho e propicia “o desconhecimento”. “Nós só valorizamos aquilo que conhecemos, só gostamos daquilo que conhecemos”, esclarece. “Para gostarmos da nossa mata autóctone, temos de viver com ela. Temos de gostar da rugosidade dos seus troncos, das cores acinzentadas das suas folhas e das suas formas, que são diferentes das outras.”

Na perseguição deste objectivo, a educação pode assumir-se como o estímulo maior, por representar “o começo de tudo”. A linha mais fundamental da educação das crianças passa por termos escolas com espécies autóctones, escolas perto de florestas autóctones, escolas que convivam e vivam com e na floresta autóctone, escolas que cultivem floresta autóctone. Defende, igualmente, que os professores, enquanto “facilitadores de educação”, devem ser “militantes do conhecimento” para que, através da transmissão de informação, consigam gerar “interesse e motivação” para a temática nos seus interlocutores. “É um conhecimento para nos tornar capazes de fazer a diferença. Não que queiramos mandar no mundo, mas porque isso faz parte da nossa existência como seres completos”, remata.

Para Helena Freitas, a valorização destas questões por parte da população é indissociável do usufruto que o património florestal pode proporcionar: um território “onde possam passear, passar fins-de-semana, fazer piqueniques, observar a diversidade”. Trata-se, por isso, de um “valor crescente para a maioria das pessoas”, que percepciona a floresta autóctone como “mais próxima” devido à sua “biodiversidade e harmonia”. Uma tendência que pode ser aproveitada por outros sectores económicos, que deverão considerar a integração do valor natural da floresta autóctone. “Na cidade, a oferta turística tem de passar por uma harmonia crescente entre a oferta cultural, artística e natural”, defende, por entender que este é um “desejo cada vez mais presente na actividade humana”.

Esbater as assimetrias demográficas com espécies autóctones em cada rua

As cidades encerram um território onde a floresta autóctone, respeitando a escala, pode iniciar a sua aproximação à população, algo que, segundo Paulo Farinha Marques, foi e está a ser feito, uma tendência lançada pelo recém-falecido Gonçalo Ribeiro Telles. “Podemos fazer todos os nossos parques, todas as nossas matas ordenadas, quer dentro das cidades quer na sua periferia, [recorrendo a espécies autóctones] e promover essa realidade”, ressalva o especialista em arquitectura paisagista, que hoje participará no debate (Re)Pensar a Floresta, a decorrer em Serralves a partir das 17h30.

Helena Freitas (que também participará no evento em Serralves) destaca as possibilidades que o contexto urbano oferece para a gestão dos espaços naturais. “Se temos mais recursos, com tecnologia que nos permite fazer monitorização em tempo real, faz todo o sentido. Deveria ser compulsivo, deveríamos ter uma selecção obrigatória de espécies autóctones.” A investigadora vai ainda mais longe, sugerindo a criação de “uma cintura-tampão do ambiente urbano vocacionada para uma floresta autóctone como forma de transição para o espaço rural – uma forma inteligente de mitigarmos os riscos utilizando o capital natural”.

Artigo alterado às 15h46, com comentário aos dados do Inventário Florestal Nacional.