Torne-se perito Reportagem

As árvores de Santa Maria da Feira: diversidade e assombro nas Guardiãs do Castelo

São árvores, senhores! Vêem a passagem dos séculos e mantêm-se como sentinelas do castelo proporcionando à Mata das Guimbras uma biodiversidade inclusiva, em que avelãs e castanhas crescem lado a lado com bagas traçadas de cianeto. Tudo parece intocado no novo percurso pelo património ambiental da cidade.

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Adriano Miranda
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Entre os 700.000 espectadores que todos os anos rumam à Viagem Medieval de Santa Maria da Feira e se acomodam nas margens daquele fio de rio Cáster para apreciar os principais espectáculos dessa recriação história, com cavaleiros empunhando espadas e archotes, damas a pedir socorro, catapultas de ataque aos invasores e flechas de ponta incendiada, os mais sensíveis já terão pensado: não podia haver melhor palco para estas batalhas, assim em terreno natural, com uma boca de cena tão larga, adereços técnicos escondidos pela morfologia do piso e um cenário de fundo verde e maravilhoso, feito apenas de intocadas copas de árvores.

É verdade que alguns adultos com espírito mais menineiro aproveitavam o evento para se aventurar por essa massa arbórea de fundo, conduzidos por figurantes que baloiçavam em troncos altos, vestidos de duendes, ou dançavam pela mata, em trajes de fadas. Mas, na maioria das vezes, o interior dessa floresta mantinha-se ignorado, o que, embora representando um desperdício gritante de conhecimento sobre o património ambiental da zona, teve também a incontestável vantagem de manter essa paisagem incólume, em estado praticamente bruto, numa condição quase inatacável de limpeza e com uma biodiversidade densa, fresca e aromática.

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Para nos evitar o sentimento de culpa por expormos agora esse éden bem guardado, fica já aqui combinado: quem visitar a Mata das Guimbras está obrigado a deixá-la (pelo menos) tão limpa e cuidada como a encontrou e, de preferência, deve também ser criterioso na partilha da experiência, para precavermos tropas de passeantes negligentes a perturbar-lhe a calma e o viço. É que é precisamente pelo interior dessa mata arbórea que o Município da Feira desenvolve desde meados de Outubro um programa de visitas orientadas que, a poucas centenas de metros do monumento mais identificativo do território, dá a conhecer as mais emblemáticas “Guardiãs do Castelo”, revelando-lhes a idade, características botânicas, origem geográfica, propriedades terapêuticas, significado social e económico, etc.

Todas as visitas são conduzidas por João Almeida, ex-director do Parque de Serralves, no Porto. No percurso inaugural, aquele arquitecto paisagista começou por referir que a Mata das Guimbras, juntamente com o jardim histórico constituído pela Quinta do Castelo e pela encosta ao lado do Museu Convento dos Loios, preserva “uma enorme biodiversidade”, resultante da cuidadosa selecção de espécies efectuada no início do século XX pela Real Companhia Hortícola-Agrícola do Porto. Depois, a passos espaçados para garantir distanciamento físico entre os participantes, o guia liderou o caminho, uma assistente amplificou-lhe o discurso na retaguarda do grupo, com recurso a uma coluna de som portátil, e tudo o resto foi aprendizagem e deslumbramento – e também um certo embaraço por tantos anos de ignorância e contempto quanto a um património assim exposto, mesmo ali, à face da estrada, à vista (distraída) de todos.

Logo no início da visita, João Almeida aponta-nos uma aveleira (Corylus avellana) que passara despercebida em todas as vezes que lhe procurámos a sombra, um lódão-bastardo (Celtis australis) cujas dupras comestíveis lhe garantiram a alcunha de “ginjinha-do-rei” e uma palmeira-de-leque-do-México (Washingtonia robusta) cujo exotismo de 25 a 30 metros de altura acabou por mesclar-se bem na vizinhança autóctone. Uns passos adiante, já absortos em folhagens mais espessas, chegamos à chamada “Clareira dos Gigantes”, onde o arquitecto nos faz reparar num possante tronco cinza-claro, com metro e meio de diâmetro, com o qual ainda há pouco nos cruzáramos sem notar os ramos frondosos que exibe na sua parte mais alta, a partir dos 20 metros de altura. Então damos por nós a penitenciarmo-nos por anos de injúria caluniosa a uma espécie mal-amada: como é que não percebemos que aquele portento era um eucalipto? Aliás, como é que há eucaliptos assim dignos e majestáticos, tão saudavelmente conviviais e respeitosos para com as espécies vizinhas? “Os eucaliptos não são todos iguais”, explica João Almeida, bem consciente da culpa alheia. “São uma das árvores com mais variedades – terá umas 600 espécies diferentes – e este exemplar aqui é um Eucalyptus sp.”. 

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Através de uma floresta pura onde só as tábuas de madeira afixadas a uma copa desnuda denunciam a presença humana que aí encenava enredos com duendes e fadas, seguem-se medronheiros (Arbutus unedo) “com quase 100 anos”. Tocamos-lhe a casca do tronco, distintiva por se apresentar em lascas de pontas arrebitadas, e apanhamos alguns medronhos já maduros, bem vermelhos e picotados. Depois apreciamos um azereiro conhecido como loureiro-de-Portugal (Prunus lusitanica), “que não é o que se utiliza para temperar carne”, até porque o seu fruto, vermelho quando verde e preto quando maduro, faz lembrar uma azeitona, mas, se esmagado, contém é cianeto, composto químico que qualquer seguidor de policiais televisivos sabe ser mortífero. Fiquemo-nos, portanto, pelas flores da espécie, que na devida época se revelam “brancas e exuberantes”.

Já na aproximação à Alameda Roberto Vaz Oliveira, que delimita a fronteira entre a Mata das Guimbras e o Castelo, a lição de João Almeida faz-se com ulmeiros (Ulmus minor), carpinos (Carpinus betulus), sobreiros (Quercus suber), freixos (Fraxinus angustifolia) e cerejeiras-bravas (Prunus avium). E então começa a segunda fase da visita, junto ao ex-líbris da Feira e à árvore que o acompanha em todas as fotografias, sem que soubéssemos de que espécie é.

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Do Líbano e Japão a palmeirinhas com pseudomagnórios

Aquela árvore soberba junto à muralha do Castelo da Feira é um cedro-do-Líbano (Cedrus libani), cuja madeira resistente e estável serviu, segundo dizem algumas escrituras, de matéria-prima à Arca de Noé. “Este exemplar tem mais de 100 anos e foi aqui plantado no início do século XX, por altura das obras de conservação no castelo”, conta João Almeida. O grupo sobe então para a pequena colina junto à secção do castelo conhecida como “Pátio dos Traidores” e todos os participantes se esticam para, a uns 20 metros de altura, distinguirem os únicos ramos ainda decorados pelos pequenos estróbilos que, como pinhas esguias, em maduros libertam uma membrana alada sob a qual escondem uma semente e, quando secos, soltam ao mínimo toque uma nuvem bem amarela de pólen.  

Daí passamos à Quinta do Castelo, o jardim que começou por ser privado e entretanto se tornou propriedade do Instituto da Segurança Social, que há cerca de uma década vem confiando a sua gestão ao Município da Feira. Esse espaço já é mais familiar ao grande público: em Agosto, durante a Viagem Medieval, acolhe o spa dinamizado pelas Termas de São Jorge e, em Dezembro, transforma as suas grutas, lagos e jardins em cenários do parque natalício Perlim. Agora mostra-se no seu estado real e é esse que João Almeida examina, apontando-lhe espécies como sequóias (Sequoia sempervirens), plátanos (Platanus x hispanica), abetos-de-Douglas (Pseudotsuga menziesii), espruces-da-Noruega (Picea abies), cedros-do-Atlas (Cedrus atlantica), tulipeiros-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera), criptomérias (Cryptomeria japonica) e, claro, uma série de diferentes carvalhos (Quercus rubra, coccínea e imbricaria). No passeio, conta-nos ainda que as tuias-gigantes (Thuja plicata) são sagradas para os índios americanos, que os bordos-do-Japão (Acer palmatum) chegam a ser “absolutamente deslumbrantes” na sua folhagem do tom castanho a violeta e convida-nos a experimentar o fruto da butiá (Butia capitata), que, em dentadas medrosas, descobrimos ter um sabor sumarento a lembrar o das nêsperas.

Ao fim de duas horas de percurso, ficamos com a sensação socrática de que isto foi apenas o início e Marina Rodrigues, a chefe da Divisão de Ambiente da Câmara da Feira, confirma-o. Antes de deixarmos o idílio, é ela que nos desperta do enlevo e chama à realidade: “Não podemos dar as árvores por garantidas. Já sabemos que fornecem oxigénio, purificam o ambiente urbano e são decisivas para a biodiversidade da fauna e da flora, mas temos que as conhecer melhor. Só o que conhecemos realmente é que valorizamos. E só aquilo que valorizamos é que realmente nos empenhamos em proteger.”

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