Crónica

Dia 120: Quanto tempo se resiste?

Quem afirma que os avós cedem a todos os pedidos dos netos está coberto de razão. É um sinal de sabedoria e inteligência perceber que num braço-de-ferro entre a nossa vontade e a deles, serão sempre eles a vencer. Pelo cansaço.

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Querida Ana,

PÚBLICO -
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Só uma pergunta: resistes durante quanto tempo?

Do lado de cá do telefone ouvi o teu mini Eduardinho repetir:

Quero Chquik
Mãe, quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik

Até que não o conseguiste continuar a ignorar e lhe explicaste que não podia beber um segundo leite com chocolate. Ai, ele disse:

Quero Chquik
Mãe, quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik

Zangaste-te. E ele argumentou:

Quero Chquik
Mãe, quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik

Pedi-te para lhe passares o telefone, convencida de que o conseguia distrair — narcisismos de avó! —, e perguntei-lhe se tinha brincado muito no jardim e apanhado minhocas. Ele contou-me que sim. E depois disse:

Quero Chquik
Mãe, quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik
Quero Chquik

Desliguei, já não sabia se devia rir ou chorar. E pensei: quem afirma que os avós cedem a todos os pedidos dos netos está coberto de razão. É um sinal de sabedoria e inteligência perceber que num braço-de-ferro entre a nossa vontade e a deles, serão sempre eles a vencer. Pelo cansaço. Aquela teimosia vem incluída no equipamento de base das crianças, é uma arma de sobrevivência. Dá lá o Chquik ao menino!


Querida Mãe,

PÚBLICO -
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A única coisa que tenho a dizer sobre isto é: SE ele quisesse mesmo um SEGUNDO Chquik o tempo de resistência teria sido de aproximadamente cinco minutos em versão determinada, mais três ou quatro em modo vacilante, seguidos de uma cedência gloriosa.

Mas visto que, depois de uma rápida sondagem às irmãs, percebi que ele tinha bebido um pacote “oficial” ao lanche, tirado à socapa da despensa e bebido um outro, e ainda sugado o fundinho do da Marta, desta vez até foi bastante fácil manter a minha posição de firmeza.

Embora deva dizer que, na verdade, suspeitava que mais do que um leite com chocolate o que ele queria era a minha atenção total. Aprendi uma coisa com a nossa cadela Amora que se aplica muito bem ao meu filho: quando aparentemente está desesperada por comida normalmente é porque quer ir para a rua brincar! Idem aspas com ele. E como não estava absolutamente exausta (também há dias em que acontece!) fomos brincar e o Chquik ficou na despensa... pelo menos até se lembrar dele outra vez!

Beijinhos!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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