Dia 119: A bondade não é só uma questão de boa educação

Quando não somos alvo de bondade, temos uma dificuldade acrescida em somar mais um elo à cadeia, um elo em que cada gesto de bondade faz nascer um novo, e por aí adiante.

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@designer.sandraf

Mãe,

Estou fascinada com a bondade e com a simpatia. Do poder que tem em nós. É tão mais poderosa do que a maldade. Sentimo-lo tantas vezes quando vemos filmes. Pense no A Vida é Bela. Trememos, claro, com a maldade dos guardas do campo de concentração, mas aquilo que nos traz lágrimas aos olhos, que nos toca mais profundamente é a bondade do pai para com o filho. Do soldado que naquele clima de horror e dor tem um gesto de bondade.

Mãe, o que me está particularmente a interessar nesta pesquisa sobre de onde vem a bondade, e de como a podemos cultivar nos nossos filhos, é que ao contrário do que pensamos não é (só) uma questão de ‘boa educação”, ou de transmissão dos “valores certos”. Vai para lá disso, exige que estejamos bem. Vi há pouco tempo um filme, daqueles em que o mundo está prestes a acabar porque um meteorito está prestes a colidir com a terra — muito original! —, mas com o desespero e o pânico, mesmo as pessoas que inicialmente eram bondosas, acabam a fazer coisas horríveis.

Porque ser bondoso requer muita energia, requer que estejamos bem o suficiente connosco para termos de sobra para dar aos outros. Não falo de uma bondade forçada para ‘ficar bem na fotografia’, cheia de segundas intenções, falo da verdadeira. E a bondade verdadeira parece-me menos uma escolha e mais uma consequência de nos sentirmos amados e em paz. Acredito que surge de um grande equilíbrio interior.

Hoje estive ansiosa, a sentir-me mal e fui bastante antipática para uma pessoa com quem me cruzei. E agora vim ao supermercado e a senhora da caixa foi tão simpática, tão bondosa, que me comovi. No meio desta pandemia num momento em que tememos pela vida e pela forma como vamos pagar as contas ao fim do mês, a que somamos o remoinho de problemas e ansiedades que já estavam dentro de nós antes da covid, precisamos de toda a bondade que conseguirmos encontrar. Mas, também, precisamos de compaixão por nós próprios: hoje não fui tão bondosa como queria porque estava a precisar de colo, e não porque sou má pessoa. E se é assim comigo, é assim com os outros. Espero não o esquecer da próxima vez que alguém for antipático comigo. Posso oferecer colo, se for capaz disso, em vez de lhe responder na mesma moeda.

Bjs


Ana,

Estou a escrever-te, rodeada de moscas que pousam sobre as minhas mãos, e se emaranham no meu cabelo, trazidas à vida pelo calor da lareira. A questão é que da bondade de uma postura franciscana, ao estilo “também as moscas são criaturas de Deus”, passei a uma guerra sem quartel, que já nem despreza as armas químicas. Ou seja, é importante que entendas o clima em que vivo, no momento em que tento acompanhar o teu pensamento.

Dito isto, comecemos pelo princípio. Como tu, e a cada dia que passa, estou mais consciente do poder transformador da bondade mesmo nos gestos pequeninos, que vão do acolhimento da senhora da caixa do supermercado, que entende o cansaço de uma mãe que ali chega com o carrinho cheio de compras e de crianças; ao senhor que nos ajuda com a mala no aeroporto, passando pelos bons-dias de um desconhecido que visivelmente sente realmente o que nos deseja.

E ainda bem que estamos convertidas à bondade, porque não me parece que possa vir nada de bom da maldade, nem que haja nada a aprender com ela. Porque por muito que assistir à maldade nos horrorize, inevitavelmente enche-nos de ódio e raiva — não é por acaso que damos por nós a querer que o mau da fita seja torturado com requintes de malvadez, e nem sequer pestanejamos quando, merecidamente (repara na palavra), acaba baleado na sarjeta. Ou seja, tendo em conta que ambas são extraordinariamente contagiosas, sempre é preferível “apanharmos” a bondade.

Espera, já te oiço a protestar que a tua tese é exactamente que ela não se contrai através de um qualquer vírus, sendo mais sintoma do que doença. Hum... Deixa-me pensar. Sem dúvida que nasce de uma crença intrínseca de se ser amado e de ter valor, mas temo que as pessoas acreditem que essa paz, esse equilíbrio de que falas, resulte da ausência de problemas, de desgostos, de lutos e perdas, ou que signifique que quem tem bondade para oferecer, não sofre de medos e pavores. Temo que se pense que só são bondosas porque a vida lhes corre bem, usando ainda por cima essa crença para justificar o facto de não o serem — já as estou a ouvir: “Ah, se eu tivesse aquela sorte, também me podia dar ao luxo de ser mais generosa.” Ora, tanto tu, como eu, conhecemos pessoas de infinita e diária bondade, e que passaram e passam por provações que não desejamos a ninguém. Por isso a bondade tem de ser mais do que um estado de alma, tem de resultar de qualquer coisa mais mágica.

Agora aquilo em que acredito também é que se não for reforçada e apreciada vai minguar e desaparecer. Quando não somos alvo de bondade, temos uma dificuldade acrescida em somar mais um elo à cadeia, um elo em que cada gesto de bondade faz nascer um novo, e por aí adiante.

A crise económica que se avizinha vai ser um desafio muito difícil, e concordo que pagar a maldade com colo é louvável, mas, minha querida filha, suspeito que filmes de meteoritos em colisão com a Terra não vão ajudar a levantar a moral. Vou fazer um índex com aqueles que estás proibida de ver porque, posso já ser avó, mas não deixo de ser tua mãe.

Beijinhos


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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