O futuro da educação superior: sem fronteiras e sem paredes

Tenhamos consciência do imenso caminho de adaptação a percorrer. O que fizemos, e bem, está bem aquém do que há a fazer no desenvolvimento e na prática deste modelo educativo. Temos muito a melhorar, tanto no plano institucional, como no plano pessoal.

Em tempos de pandemia, nunca antes vivida por estas gerações de hoje, importa começar por enfatizar que a substância deste texto tem motivações muito anteriores a estes tempos difíceis por que estamos a passar. Sinto que as preocupações do momento não estão focadas no futuro. Sou naturalmente influenciado pelas dificuldades de hoje. Sei bem das imensas dificuldades e do extraordinário esforço das instituições, gestores, docentes e colaboradores não docentes, em manter viva a sua missão de oferecer educação superior aos nossos jovens, com todas as restrições do momento, na circulação de estudantes, na dimensão reduzida das salas, no atendimento a estudantes em confinamento, nas limitações de docentes e colaboradores não docentes, bastantes deles também em confinamento. Vejo com atenção as recomendações da tutela. Reconheço e interiorizo os ensinamentos destas dificuldades, como reconheço a forma como globalmente essas centenas de milhares de jovens se adaptaram e vêm desenvolvendo o seu trabalho, serenamente. Mas, neste texto não falo deste presente. Falo de uma visão para o futuro do nosso ensino superior, da necessária evolução dos modelos pedagógicos generalizadamente ainda adotados nas nossas instituições do Ensino Superior, de um salto para um futuro que venho caracterizando de bem antes da pandemia com o mote da Educação Superior sem Fronteiras e sem Paredes.

A pandemia não é a causa ou motivação para esta necessária evolução que de há bastante tempo já vem sendo desenhada e abraçada por muitas instituições de vanguarda no Mundo. Agora, é verdade e percebo como factual, que as práticas instauradas neste curto período pandémico, fruto da expansiva reação humana à adversidade vivenciada, com um intenso incremento do uso de meios digitais para formação a distância, serviram para tornar clara a urgência de adotarmos novos métodos, adaptados aos tempos, às expectativas dos jovens e dos menos jovens, fazendo bom uso de novas tecnologias e metodologias disponíveis. Estes curtos dias, que provavelmente se prolongarão, reforçaram a relevância deste rumo pedagógico e creio também que ajudaram muito a ultrapassar algumas barreiras mais conservadoras relativamente à exequibilidade e inevitabilidade desta evolução. Temos de consolidar este rumo, acelerando o progresso, focando-nos nas muitas melhorias que temos de introduzir nas nossas (novas) práticas pedagógicas.

Esta revolução pedagógica tem vindo a aprofundar-se em crescendo ao longo dos últimos 20 anos, mas os seus contornos começaram a desenhar-se bem antes, nos idos anos 50 do séc. XX.  Não menorizando o relevo dos contributos teóricos desenvolvidos em todos estes anos, sobre processos de aprendizagem e correspondentes práticas pedagógicas, o modelo que tem vindo a consolidar-se, no quotidiano do presente século,  tem na sua base três forças motrizes centrais: por um lado, a visão teórica seminal de Alan Turing [1], divulgada em 1950,  sobre computação, algoritmia e inteligência artificial; por outro, a evolução do digital, cuja génese se identifica com a mesma década;  e, no plano mais pedagógico, as propostas do Processo de Bolonha, desde 1999, que visam a criação de um  Espaço Europeu de Ensino Superior e promovem, num quadro próximo do construtivismo, um modelo de formação centrada nos estudantes, com foco na (auto)aprendizagem,  com uma importantíssima reformulação dos objetivos educativos e  de desenho dos curricula sob a forma de produtos de aprendizagem, associada esta reformulação  aos objetivos académicos e políticos de reconhecimento europeu desses produtos de aprendizagem e de promoção da mobilidade estudantil.

Abro um parêntese em favor da ciência, refletindo por um minuto sobre a sua absoluta relevância para o desenvolvimento humano. Esta convergência da teoria com a tecnologia, que hoje está a revolucionar toda a atividade humana, e cuja génese situei nos anos 50 (quiçá iniciada nos anos 40), só se começou a afirmar, tenuamente, por volta dos anos 80, com o início da massificação dos equipamentos de cálculo, especificamente dos computadores, isto é, com o início da era do digital no quotidiano. E só no presente século XXI, mais concretamente nos últimos 10 anos, se tem vindo a fazer sentir da forma avassaladora que caracteriza as revoluções. Estamos pois a falar em 60 a 70 anos desde as primeiras propostas teóricas e de desenvolvimento tecnológico, até à revolução do digital, da inteligência artificial que invadiu o nosso quotidiano, em todas as áreas da atividade humana, de forma profundamente sentida e permanente [2]. Especificamente no plano académico esta ‘revolução’ projeta-se na ‘educação sem fronteiras e sem paredes’, materializada em modelos de aprendizagem que fazem (bom) uso dos meios digitais hoje disponíveis, de métodos e instrumentos de aprendizagem colaborativos que foram emergindo, e que respondem às apetências e expectativas dos mais jovens. Fecho parenteses.

Falando então da evolução dos modelos pedagógicos para a educação superior, devemos distinguir, certamente que na sua complementaridade e interligação significativas, o tema do desenho dos cursos, desse outro do modelo de funcionamento dos mesmos.

Começo pelo primeiro. Os cursos devem ser desenhados, tendo em mente os objetivos, desde logo de formação de base conferente de graus ou de formação de pendor mais ou menos executivo, ao longo da vida. Mas, em todos os casos devem ter como referência os produtos de aprendizagem, conceito particularmente desenvolvido no quadro da Reforma de Bolonha, que se projeta nas vertentes de conhecimento, aptidões, atitudes e competências. Ora, e restringindo-me à formação de base conferente de grau, o que a sociedade hoje procura em termos desses produtos de aprendizagem tem evoluído muito. O objetivo (quase) único do passado que consistia em proporcionar aos estudantes conhecimento considerado (pelos professores) fundamental, com algumas aptidões de aplicação, continuando a ser necessário, deixou de ser suficiente.

Hoje importa também aprofundar competências associadas a aptidões e atitudes. Importa transmitir tanto a perceção da multidisciplinaridade do conhecimento, como uma visão de multiculturalidade transversal, num Mundo que por razão da evolução das comunicações e dos transportes tem vindo a encolher, com todas as consequências socio-políticas que daí advêm. Importa desenvolver competências pessoais e interpessoais, como sejam o espírito crítico, a autonomia, a capacidade de liderança, a capacidade de trabalho em grupo, a capacidade de comunicação e, um ponto tão delicado quanto difícil, o controlo emocional, particularmente a pensar no trabalho e no convívio social num quadro de incerteza. O desenvolvimento deste tipo de competências tem que estar bem embutido no desenvolvimento curricular.

Na perspetiva dos modelos de funcionamento das ofertas formativas, a Educação sem Fronteiras e sem Paredes, materializa-se em combinações de atividades on campus e online, em momentos síncronos e assíncronos, as quais naturalmente estão associadas aos objetivos das formações ministradas, desde logo aos públicos-alvo e ao alcance que se deseja para cada curso, e em que designadamente se incluem:   

Cursos com uma estrutura pedagógica de aprendizagem híbrida, com uma componente presencial e uma outra a distância, síncronas, para todos os estudantes, para lá de um crescendo de atividades assíncronas, apelando à disponibilidade em ambiente digital de elementos de estudo e de ferramentas colaborativas para atividades individuais e particularmente de grupo. 

Cursos puramente (ou predominantemente) a distância, em áreas que não exijam atividade presencial, com um importante potencial de penetração (sem fronteiras) em mercados de grande dimensão, isto é, com um grande interesse económico e político associado ao interesse académico; nos dias de hoje são ainda, tendencialmente, cursos de formação ao longo da vida, de cariz executivo e não tanto de formação de base; 

  Cursos em oferta dual com cursos presenciais, mas simultaneamente oferecidos a distância, em que haverá coortes de estudantes, fixas ou flexíveis, numa e noutra modalidade, excetuando naturalmente as atividades que pela sua natureza sejam necessariamente presenciais; no futuro não distante vai crescer esta oferta dual; este modelo pode bem ser desenvolvido em formações de base, mas tem, em particular e desde já, um potencial significativo de penetração em mercados, eventualmente mais locais, necessitando no entanto de uma disponibilidade de meios tecnológicos nas instalações que me parece não estarem ainda disponíveis de forma generalizada; este último, um problema que é uma questão de tempo.

Estes modelos têm, pois, características e valências próprias, daí decorrendo a avaliação da adequação da sua aplicação para cada universo e objetivo de formação. Mas, globalmente, são modelos que abrem caminho para a necessária atração de novos públicos, para o alargar das oportunidades de educação superior na sociedade – em Portugal, no Mundo da Lusofonia, no Mundo em geral.

Noutra perspetiva, mais académica, todos estes modelos, fazendo uso dos métodos e instrumentos de aprendizagem colaborativos (sem paredes) que foram emergindo, abrem-se à visão de educação global e fortalecem a capacidade de autoaprendizagem dos estudantes, mas, pensando na (absoluta) relevância do presencial nas relações humanas e na formação humanista dos estudantes, o modelo de aprendizagem híbrida será, no presente, o que me parece assegurar melhor todas as valências, para todos os estudantes. Parece-me ser o modelo mais apelativo para as nossas formações conferentes de grau, dirigidas particularmente aos jovens.

Neste panorama, tenhamos consciência do imenso caminho de adaptação a percorrer. O que fizemos, e bem, está bem aquém do que há a fazer no desenvolvimento e na prática deste modelo educativo. Temos muito a melhorar, tanto no plano institucional, como no plano pessoal.

Eis algumas ações concretas a tomar em mãos – governo, instituições e docentes – tão rapidamente quanto possível, e é nesta capacidade de adaptação que reside a diferença entre os níveis de desenvolvimento dos Povos:

A adequação do edifício jurídico para enquadrar este modelo educativo de aprendizagem híbrida, sendo que me parece que a legislação vigente não acomoda tal modelo; nós temos o quadro jurídico para o modelo presencial (diria o modelo clássico antigo); nós temos um quadro jurídico (incompleto ainda) para o ensino a distância (o decreto-lei n.º 133/2019 de 3 de setembro, que aprova o regime jurídico do ensino superior a distância, em fase de regulamentação); não temos um quadro jurídico para os cursos com modelos de aprendizagem híbrida.

A capacitação digital e tecnológica das famílias e a capacitação do País em rede de alta velocidade, ação conjunta urgente em favor da necessária equidade do modelo educativo; sendo bem claro que esta utilização de meios digitais, em tempos de pandemia, minimizou significativamente os danos educacionais numa leitura e visão global, é igualmente claro que esta não capacitação de famílias e regiões acentuou o fosso da desigualdade económica e social que a adoção desta forma de trabalho cria para as famílias pobres;

A capacitação dos docentes a dois níveis: no plano da substância pedagógica e no plano tecnológico; governo e instituições têm de promover, de forma organizada e sistemática, essa capacitação dos professores, sendo que estes têm de estar abertos e disponíveis para o esforço de adaptação que necessariamente lhes será solicitado;

A capacitação tecnológica das instituições, também a dois níveis: em primeiro lugar em meios na sala de aula, numa evolução em linha com a evolução do quadro negro e do giz de há cinquenta anos para os projetores instalados em todas as salas, nos dias de hoje, e que no próximo passo incluirá câmaras de filmar, sistemas de som e quadros interativos (smartboards) em todas as salas; depois, e mais difícil de concretizar, na transformação possível da arquitetura das salas para a realidade da atividade colaborativa dos estudantes;

A capacitação formativa das instituições, igualmente a dois níveis: providenciando apoio especializado a docentes/estudantes (ou formadores/formandos); providenciando meios efetivos de apoio multimédia, nomeadamente (nos dias de hoje) no desenvolvimento de conteúdos de aprendizagem adaptados às plataformas digitais adotadas;

Noutro plano, um tema que poderá ser visto como datado, na medida em que a questão deverá desaparecer com a evolução tecnológica, mas que avalio com sendo atualmente muito sério: adoção de métodos de trabalho que garantam a fidedignidade das atividades, e neste ponto penso particularmente nas atividades avaliativas, importando realçar que a perceção pública da fidedignidade do modelo de avaliação é determinante para a confiança da Sociedade na prossecução da missão das Instituições.

Em síntese, Portugal está numa encruzilhada, também no Ensino Superior. Está em jogo o nosso desenvolvimento e consequente bem-estar que podemos aferir pelos indicadores da nossa convergência para os indicadores dos países Europeus mais desenvolvidos. Uma convergência que continua a ser uma miragem.

Com a tecnologia a trazer a teoria para o quotidiano, a digitalização dos processos de trabalho que todos observamos em todas as áreas é, obviamente, também uma realidade irreversível em toda a atividade das instituições do ensino superior.

A abertura do Ensino Superior a novos públicos, a sua atratividade para a captação dos interesses dos jovens e a sua competitividade internacional exigem uma evolução determinada para este tipo de modelos de aprendizagem, fazendo bom uso dos meios digitais colaborativos, a distância em modo síncrono ou assíncrono.

Os professores têm um papel crucial na reforma que está a (tem de) ocorrer, na medida em que são os detentores do conhecimento. As novas propostas pedagógicas, os conteúdos formativos e o modelo de partilha e transmissão do conhecimento terão sucesso na medida do comprometimento dos professores. As instituições devem reconhecer este papel dos professores e proporcionar os meios que permitam o sucesso da reforma. Os governos têm necessariamente de proporcionar o quadro legal e também incentivos para que o País avance na modernização do seu sistema do ensino superior, na modernização da sua oferta de Educação Superior, tudo isto sem perder pessoas no caminho.

Finalmente, um artigo recente, publicado no University World News em 31 de outubro passado, discorre de forma muito clara sobre esta evidência (para alguns...) de que a Educação Superior é uma vertente chave para a necessária recuperação pós-covid da Humanidade. Os países mais se desenvolverão na medida da convicção desta realidade e da correspondente ação política e no terreno.

Nós temos de trilhar este caminho porque o Mundo vive uma Revolução Global, irreversível, de cariz político, económico e social. E, se não tivermos sucesso no encontrar desse rumo, então continuaremos o nosso insucesso de convergência para os indicadores de qualidade de vida dos países mais avançados da nossa União Europeia.

Estamos num momento em que se abre mais uma imensa porta de oportunidades que temos de aproveitar para mudar o País. Espero sucesso no seu aproveitamento, para bem do nosso futuro coletivo.

[1] A. M. Turing (1950), “Computing Machinery and Intelligence”, in "Mind", Volume LIX, Issue 236, October, p. 433-460. Disponível (em 1 de outubro de 2020), em https://academic.oup.com/mind/article/LIX/236/433/986238
[2] Na área da Educação, a Comissão Europeia acaba de publicar um importante relatório, intitulado Digital Education Action Plan 2021-2027 Resetting education and training for the digital age, que propõe diretrizes e identifica áreas prioritárias para ação. A não perder, disponível em https://ec.europa.eu/education/education-in-the-eu/digital-education-action-plan_en (endereço ativo em 1 de outubro de 2020)

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico