Crónica

Covid-19: Por que me voluntariei para um ensaio clínico da vacina?

Steve Stecklow é jornalista da agência Reuters e decidiu participar num ensaio clínico da vacina Novavax. “Achei que, se a vida algum dia voltar ao normal, o mundo vai precisar de vacinas e voluntários para ver se aquelas funcionam.”

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Reuters/STAFF

Por que me ofereci para receber uma vacina experimental para a covid-19? Essa era as perguntas que alguns dos meus amigos me fizeram quando souberam que o ia fazer. “Quem sabe o futuro”, escreveu um ex-colega de quarto da faculdade, acrescentando: “Parece uma aposta.”

Tudo começou em Julho, quando o governo britânico anunciou que procurava voluntários para testes clínicos em grande escala para novas vacinas. Apenas um mês antes, um grande amigo morrera de covid-19 depois de passar semanas num ventilador. Curioso, preenchi um formulário online, imaginando que não estava a comprometer-me com nada.

No final de Setembro, um e-mail informou-me que estava entre os mais de 250.000 “pioneiros na luta contra a covid-19” que se haviam alistado nesta causa. No primeiro dia de Outubro, fui convidado a inscrever-me para um ensaio de uma vacina feita por uma empresa americana de biotecnologia chamada Novavax Inc. Então, esta procurava dez mil voluntários no Reino Unido para um ensaio de estágio final para determinar a segurança e eficácia da vacina.

“Se tiver entre 18 e 84 anos e estiver com boa saúde, pode ser elegível para participar”, afirmava o e-mail. “O estudo envolve seis visitas ao longo de um período de cerca de 13 meses. Despesas de deslocação ​serão reembolsadas”, prometia. Então, era hora de decidir.

Comecei a pesquisar a vacina Novavax, que tem recebido menos atenção do que outras. Nesta segunda-feira, a Pfizer Inc. anunciou que sua vacina parece ser mais de 90% eficaz. Em Setembro, os testes em estágio final de uma vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e AstraZeneca Plc foram interrompidos após um relato de uma doença neurológica grave num voluntário, embora os testes posteriormente pudessem ser reiniciados.

Para mim, a vacina Novavax parecia menos arriscada. Embora a empresa sediada em Maryland, EUA, nunca tenha recebido a aprovação para uma vacina, está a usar a mesma tecnologia promissora para criar a sua candidata à covid-19 que usou já para uma vacina contra a gripe. Anualmente e há décadas que tenho sido vacinado contra a gripe e nunca tive uma reacção adversa.

Os resultados publicados da primeira fase de teste da vacina Novavax também não mostraram efeitos colaterais graves, entre os mais de 100 participantes que foram injectados com ela. O pior caso foi de alguém que teve febre moderada por um dia. Por isso, decidi ir em frente. Achei que, se a vida algum dia voltar ao normal, o mundo vai precisar de vacinas e voluntários para ver se aquelas funcionam. A um nível mais egoísta, gosto da ideia de ser vacinado o mais rapidamente possível, dado a quão monótona — e às vezes assustadora — se tornou a minha rotina diária tinha. Aliás, tornei-me tão avesso a riscos que minha mulher já me apelida de “carcereiro”.

Outra vantagem: se eu contraísse o vírus, os investigadores poderiam monitorizar-me com o maior cuidado. No Reino Unido, onde houve um aumento de novos casos de covid-19 para mais de 20.000 diários, as pessoas infectadas estão essencialmente por conta própria, a menos que precisem de cuidados de emergência. Claro que havia a possibilidade de 50/50 de receber uma injecção de placebo, uma solução salina, que não me protegeria contra nada. Nos testes de vacinas, os placebos são usados ​​como um controlo para ver se o produto real é mais eficaz na defesa contra o vírus.

Depois de uma triagem online e por telefone para determinar se eu tinha algum problema médico que me desqualificasse para o estudo, foi agendada a primeira das duas injecções. Uma destas manhãs, apareci no centro de investigação clínica do King's College Hospital, no sul de Londres — um prédio pequeno que faz parte de um amplo complexo médico. Para minha surpresa, a recepcionista pediu-me para tirar a minha máscara com tecnologia militar de filtragem do ar, que custa 28 euros, e substituí-la por uma barata e descartável. Mais tarde, percebi que esse pedido foi feito porque a minha máscara poderia estar contaminada.

Ensaio, placebo e vacina real

Na sala já estavam outros voluntários a prepararem-se. Uma médica perguntou-me se tinha alguma dúvida e tinha: “E se a vacina Novavax tivesse tanto sucesso que o ensaio clínico fosse interrompido? Eu seria informado se recebesse o placebo e, em caso afirmativo, poderia receber a vacina real? ” A médica respondeu-me que se eu recebesse o placebo, teria de esperar um ano, pois os investigadores iriam querer continuar a monitorizar todos os participantes do ensaio. Não era o que eu queria ouvir. “E se outra vacina for aprovada primeiro que a da Novavax e eu estiver a receber o placebo? Poderei, na mesma, tomar essa nova vacina?” A médica sugeriu que era possível.

Depois de assinar um termo de consentimento para participar no estudo, a médica fez-me um breve exame físico. De volta à grande sala, um enfermeiro fez-me o teste covid-19, enfiando um longo cotonete na minha garganta e, em seguida, pelas narinas. De seguida, preparou-se para tirar sangue, avisei-o que tenho veias finas, o que pode ser problemático. Ele fez duas tentativas, acabando por chamar um colega que teve mais sorte.

A injecção em si não foi um problema, mas quando o enfermeiro verificou a minha pressão arterial confirmou que tinha disparado. Ele pediu-me para esperar alguns minutos e basicamente para me acalmar. Pensei nos exercícios de meditação com os quais sempre gozei mas que, recentemente passei a usar como resposta à ansiedade induzida pela pandemia. “Inspire, expire.” Funcionou.

Até agora, não tive qualquer efeito colateral e aguardo a segunda dose. Curioso sobre a minha experiência, conversei com James Galloway, professor sénior no King's College e o médico responsável por este ensaio clínico, que me informou que não foi tomada qualquer decisão sobre o que fazer com os voluntários que receberam o placebo, caso a Novavax se mostrasse eficaz ou se outra vacina fosse aprovada primeiro. O investigador acrescentou: “Se recebermos outra vacina que funcione, gostaríamos que as pessoas a tomassem, caso tenham recebido o placebo.” A intenção não é prejudicar quem participou no estudo, acrescentou.

Mais tarde, uma porta-voz da Novavax disse-me que os voluntários discutiriam as suas opções com os médicos que supervisionavam os locais de teste. Galloway alertou para um risco teórico para as pessoas que tenham feito o ensaio da Novavax receberem uma vacina diferente, podem fazer reacção.

O especialista não sabe como está a correr o teste da Novavax no Reino Unido porque não tem acesso aos dados. Mas, no geral, está optimista com a chegada de vacinas eficazes contra a covid-19. Galloway, 42 anos, acrescenta que contraiu a doença na Primavera, que teve febre durante dez dias e foi hospitalizado após desenvolver um problema de ritmo cardíaco. “Não desejo isto a ninguém”, declara. Agora está bem.

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