Jill Biden: a futura primeira-dama que não quer deixar as salas de aula

Enquanto o marido foi vice-presidente, quebrou a tradição e continuou a leccionar. Agora, em versão primeira-dama, quer repetir o inédito.

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Joe e Jill Biden na noite de sábado, depois do discurso do presidente eleito nos EUA Jim Bourg/Reuters
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Jill Biden e Michelle Obama tornaram-se muito próximas durante os mandatos de Obama John Gress/Reuters
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O roxo usado por Jill Beiden na máscara convida os eleitores a votar nos democratas (azul) ou nos republicanos (vermelho)s Kevin Lamarque/Reuters
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Jill Biden durante a campanha do marido, em Setembro, numa escola,Jill Biden durante a campanha do marido, em Setembro, numa escola Nicole Neri/Reuters,Nicole Neri/Reuters
,Convenção Nacional Democrática de 2004
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O casal durante a convenção democrática, numa escola, em Milwaukee, em Agosto passado Reuters

Foi logo no primeiro discurso enquanto presidente eleito dos Estados Unidos que Joe Biden colocou os holofotes na mulher, Jill Biden. “Para os educadores americanos, este é um grande dia para vocês”, afirmou no seu discurso de vitória deste sábado. “Vão ter uma de vós na Casa Branca. E a Jill vai ser uma excelente primeira-dama. Estou tão orgulhoso dela”, completou.

E, ao que tudo indica, Jill Biden quer quebrar a tradição: vai continuar a exercer a profissão de professora, ao mesmo tempo que cumpre os deveres de primeira-dama e se envolve nas políticas da educação do governo do marido. A concretizar-se, será a primeira vez que uma primeira-dama mantém o seu trabalho fora da Casa Branca, segundo Anita McBride, que gere o First Ladies Iniciative na American University e foi a chefe de gabinete de George W. Bush. “Será um precedente”, afirma ao The Washington Post.

"Como é que tem este número?”

Jill Tracy Jacobs Biden nasceu em Hammonton, New Jersey, em 1951 (tem 69 anos) e é a mais velha de cinco irmãs. Ao longo dos anos foi coleccionando diplomas, com dois mestrados e um doutoramento, todos na área do Inglês e da Educação.

Antes de Joe Biden, foi casada com um antigo jogador de futebol americano. Embora nunca tenha sido modelo profissional como Melania Trump, chegou a aparecer em anúncios locais na década de 1970. Terá, inclusive, sido ao passar por um desses anúncios no aeroporto de Wilmington, em 1975, que Joe Biden, então com 32 anos, reparou em Jill. 

O senador também já tinha sido casado. A mulher, Neilia Hunter, morreu num acidente de viação em 1972, juntamente com Naomi, a filha mais nova do casal (os dois filhos, Beau e Hunter, sofreram ferimentos severos, mas sobreviveram). O acidente aconteceu dias depois de Biden ter sido eleito pela primeira vez para o Senado norte-americano.

A história de Jill e Joe já foi contada por ambos em vários livros. Relatam que foi Frank, irmão de Joe Biden, que lhe deu o número de telefone da amiga Jill. “Como é que tem este número?”, foram as primeiras palavras que Joe Biden ouviu da agora esposa. 

O início da relação não foi fácil. Foram precisos cinco pedidos de casamento até se ouvir um “sim” de Jill, oito anos mais nova, que não queria repetir a experiência do divórcio e poupar os dois filhos de Biden, Beau e Hunter, os quais acabou por educar e que desde então a chamam de mãe.

Em 2015, Beau Biden, antigo procurador-geral do estado do Delaware e figura cada vez mais popular no seio do Partido Democrata, morreu vítima de um tumor cerebral. A ausência de Beau terá deixado um vazio na figura de confidente de Joe Biden, um papel ocupado por Jill Biden desde então.

O casal tem uma filha, Ashley Biden, filantropa e assistente social de 39 anos cujo marido, Howard Krein, foi alvo de escrutínio nacional durante as eleições deste ano quanto aos negócios que gere e ao aconselhamento feito à campanha no que toca às políticas a adoptar face à pandemia de covid-19.

Também Hunter Biden, filho do primeiro casamento, foi um dos alvos da campanha de Donald Trump, que o acusou de corrupção e de manter alianças com o governo chinês. Durante o primeiro debate presidencial, em Setembro, Trump trouxe para cima da mesa o passado de uso de drogas do filho do seu oponente.

Da sombra para um papel fundamental

Jill Biden sempre se manteve relativamente longe do centro das atenções, mesmo tendo em conta que o marido foi senador durante quase 40 anos e esteve ao lado de Obama ao longo de dois mandatos como vice-presidente.

Nessa altura, o casal viveu a poucos quilómetros da Casa Branca, no Naval Observatory, em Washington DC, naquela que será a mesma residência que irá ocupar Kamala Harris, o marido e as filhas, a partir de Janeiro.

Se em 2021 vai querer quebrar a tradição e continuar a trabalhar fora da Casa Branca, Jill Biden fez algo semelhante enquanto o marido foi vice-presidente. Durante os oito anos em que o antigo senador foi número dois de Obama, Jill continuou a ser professora na faculdade comunitária de Northern Virgina, algo inédito para uma segunda-dama. Terá pedido, inclusive, aos agentes dos serviços secretos que a acompanhavam diariamente que se vestissem como os alunos e andassem com portáteis para não se destacarem nos corredores. A longa carreira na educação já a fez passar por escolas secundárias e estabelecimentos de acompanhamento psiquiátrico para adolescentes.

A imagem que terá ficado na mente do staff que acompanhou a Administração Obama foi de Jill a levar trabalhos e testes dos alunos, para corrigir, em viagens institucionais para países como Israel, Japão ou República Democrática do Congo.

Próxima de Michelle Obama, trabalharam juntas em várias iniciativas na área da educação. “A Jill não só é brilhante, como amável. É muito engraçada e uma das pessoas mais fortes que conheço”, descreveu Michelle Obama no final do último mandato do marido. Já este ano, a antiga primeira-dama elogiou em diversas ocasiões a sua “parceira no crime”. “Não tenho dúvidas de que Jill vai ser uma fantástica primeira-dama”, categorizou numa publicação no Instagram.

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I can’t wait for Jill Biden’s speech tonight. I’m so fortunate to have gotten to know her while we were in the White House. She was my partner-in-crime, truly, working together to honor the tremendous service and sacrifice of our veterans and military families. We hosted baby showers for military spouses, stopped by Sesame Street with military kids, visited with wounded warriors and their families, and so much more. And through it all, her enormous heart and ready smile were always there, not just for me but for everyone she met. Because Jill is one of the most grounded people you’ll ever meet, inside or outside of politics. She’s just a breath of fresh air without an ounce of pretense. She’s funny, often playing tricks on her staff like hiding in an airplane overhead compartment to spook them. And she is passionate, loyal, and hardworking—as she showed by continuing to teach at a nearby community college, often grading papers on long trips for official events. There’s not a doubt in my mind that Jill will make a wonderful First Lady. So I hope you’ll watch her tonight. And if you haven’t yet, I hope you’ll make your plan to vote early—in person or by mail. Photo credit: @chuckkennedydc, @petesouza & @alucidon

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Das três vezes que Joe Biden tentou concorrer à Casa Branca —1988, 2008 e agora em 2020 —, esta foi a campanha em que Jill teve um papel mais activo. Terá sido fundamental em algumas das decisões mais importantes do marido, tal como na escolha da vice-presidente Kamala Harris. Também discursou na convenção nacional democrata e esteve ligada à equipa que desenvolveu as propostas apresentadas pelo então candidato quanto às políticas para a educação.

Ao que tudo indica, Jill Biden será uma primeira-dama que mete “as mãos na massa”, considera o Washington Post. “É provável que seja uma primeira-dama bastante mais activa e visível ao público que Melania Trump”, conclui o jornal norte-americano.

Já a própria, numa entrevista antes das eleições, afirmou à Vogue que “a beleza disto [de ser primeira-dama] é que tu o podes definir como quiseres. Foi o que eu fiz enquanto segunda-dama — eu defini aquele papel da maneira que eu queria que fosse”.