Dia 115: Quando as Birras de Mãe passam a livro

Quando a quarentena nos separou, percebemos que era o momento certo para avançar nas nossas redes sociais, mas foi sem dúvida nenhuma o acolhimento do Ímpar, do PÚBLICO, que com a publicação das nossas cartas ajudou e ajuda o Birras de Mãe a crescer e a chegar a tantas mães e avós birrentas.

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O livro de Isabel e Ana Stilwell chega às livrarias no próximo dia 17 de Novembro DR

Querida Mãe!!!

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O nosso livro já existe! A partir desta terça-feira fica disponível em pré-venda, para quem quiser recebê-lo em casa, e no dia 17 chega mesmo às livrarias. Fiquei a pensar no lançamento do primeiro livro que escrevemos juntas, o 49.233 contos de telefone – diário de uma mãe/diário de uma filha, quando eu tinha 15 anos. Lembra-se da festa de lançamento no Teatro Villaret, em Lisboa? Convencemos a Rita Salema e a Madalena Brandão a fazerem um sketch de um excerto do livro. Foi dos dias mais emocionantes da minha vida, adorei ver em palco a Madalena a fazer de filha e a Rita a fazer de mãe, numa discussão acesa porque a mãe se tinha atrevido a ler o diário da filha — e a assistência na sala a rir às gargalhadas.

Lembro-me da emoção de tocar nas páginas daquele livro com a incredulidade de termos sido nós a escrevê-las! Também me recordo do pânico que senti ao dar autógrafos, vinda de uma escola inglesa estava aterrorizada com a possibilidade de estar a dar erros ortográficos em catadupa!

Sei que sou uma privilegiada por ser sua filha, e que provavelmente nunca teria a oportunidade de escrever um livro tão cedo caso não o fosse, mas o que me parece que era valioso na altura, e é valioso agora neste nosso projecto do Birras de Mãe, é a certeza de que o que passamos para o papel é a verdade e a cumplicidade de uma relação de carne e osso. Não por narcisismo, nem para falarmos de nós, e menos ainda para expormos a nossa vida privada, mas na universalidade das emoções que todos vivemos enquanto mães e filhas e, desta vez, enquanto avós e mães. É isso que queremos partilhar, desmontando o politicamente correcto, porque sabemos como perante os obstáculos é bom percebermos que não somos os únicos e que não estamos sozinhos.

Quando a quarentena nos separou, percebemos que era o momento certo para avançar nas nossas redes sociais, mas foi sem dúvida nenhuma o acolhimento do Ímpar, do PÚBLICO, que com a publicação das nossas cartas ajudou e ajuda o Birras de Mãe a crescer e a chegar a tantas mães e avós birrentas.

Quando a Livros Horizonte nos propôs um livro de Birras de Mãe, quase um “manual” de mesa-de-cabeceira, não nos surpreendeu — aquela equipa já nem estranha as nossas ideias doidas! —, mas ficámos imensamente felizes. A maior surpresa chegou quando percebemos que havia marcas que queriam apoiar o livro possível. Marcas que vão para lá dos “anúncios bonitos” e que querem mesmo apostar em conteúdos relevantes, que de alguma forma se identificaram com o “tom” das nossas conversas, com a nossa intenção de descomplicar a vida das famílias e de investir na infância das crianças (porque, na verdade, é isso que nos importa). Por isso só podemos agradecer à Vitacress e à Uriage por, mesmo neste tempo tão difícil de pandemia, apostarem no mundo dos livros e em projectos novos e fora da caixa como o nosso.

Enfim, estou em pulgas por ter o livro na mão, porque por mais digital que se tenha tornado o mundo nada se compara a um livro, sou viciada no cheiro a papel, no folhear das páginas. Ainda por cima, um livro cheio das nossas birras. Só tenho mesmo, mesmo pena que a porcaria da covid-19 não nos permita festejar presencialmente com toda a nossa maravilhosa comunidade de mães e avós birrentas. Mas vamos compensar esta falta com muitos momentos online!

E mãe, obrigada por mais este capítulo na nossa aventura conjunta...

Beijinhos


Minha querida Ana,

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Nunca pensei ficar tão grata a uma maldita conta de telefone. Para quem já não consiga pensar em “contos”, é preciso lembrar que representava quase metade do meu salário na altura, e que quando rasguei o envelope e deparei com aquele valor ia tendo um ataque cardíaco. Soube logo que a culpada só podias ser tu, porque com a tua veia de terapeuta/conselheira passavas horas a resolver os dramas amorosos das tuas amigas, num tempo em que uma chamada de um telefone fixo (o nosso), para um telemóvel (o delas) custava os olhos da cara.

Chamei-te aos gritos, e nem tentaste deitar as culpas para os teus irmãos, o que te ficou bem, mas menos bem ficou o espanto que manifestaste contra a minha incapacidade de aceitar que aquelas centenas de escudos tinham sido bem gastos. Basicamente, acusaste-me de ser insensível e fria por regatear o meu financiamento da tua verdadeira Linha Voz Amiga, que acreditavas ter salvo, no mínimo do suicídio, uma série de adolescentes como tu. Ficou claro, logo ali, que a minha visão “adulta” do mundo e a tua de adolescente tinham pouco em comum, e em boa hora te “castiguei” com a obrigação de escrever comigo um livro (além de te ter confiscado a semanada).

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Divertimo-nos tanto e, acredita, que se não tivesses estado à altura do desafio aquele livro nunca teria sido publicado, fosses ou não minha filha. Aliás a reacção dos leitores, mães e adolescentes, mostrou-nos como é importante para as pessoas encontrarem eco das suas angústias e preocupações, como os livros podem ajudar-nos a ver saídas, a encontrar caminhos, a sentirmo-nos mais compreendidos e, simultaneamente, a desdramatizarmos aquilo pelo qual estamos a passar.

Queremos muito que este Birras de Mãe produza nos leitores o mesmo efeito. Não foi por acaso que o dividimos em capítulos temáticos, desde os primeiros conflitos, às birras com testosterona, passando pelas típicas do “No meu tempo não tra assim”, tornando-o um livro de fácil consulta mesmo quando a fúria nos tolda a vista!

Não é um livro de receitas, porque não nos passa pela cabeça saber o que mais convém a cada um, mas ficávamos contentes se os nossos leitores rissem e chorassem connosco e, de caminho, impedissem amuos e mal-entendidos de contaminar a sua relação.

Numa coisa tens toda a razão, Ana, raios partam o coronavírus. O lançamento no Villaret foi espantoso — depois da tua carta fui ver as fotografias, eras tão pequenina e eu pouco mais velha! —, e o livro até foi traduzido para o mercado espanhol, porque estas birras são universais.

Mas juro-te que quando o raio da pandemia acabar, e vai acabar, vamos desafiar a Rita Salema e a Madalena Brandão para voltarem a subir ao palco com as nossas birras. Enquanto isso, não vamos deixar de celebrar, era o que faltava.

bj