A comida que era servida a bordo dos bacalhoeiros deu um livro

Lançamento de Chora e Feijão Assado - A Gastronomia de Bordo na Pesca do Bacalhau acontece no âmbito do festival que decorre em 21 restaurantes de Ílhavo.

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José Ribeiro é um dos antigos cozinheiros dos bacalhoeiros Anna Costa

O que é que se comia nos navios bacalhoeiros portugueses? Bacalhau, claro está, feijão e também alguma carne. A evolução dos tempos, em especial os avanços tecnológicos nos navios e o surgimento de legislação laboral, trouxe algumas alterações à alimentação dos tripulantes dos navios da pesca do bacalhau, especialmente no que toca à quantidade e à variedade.

Essa retrospectiva histórica é apresentada num estudo elaborado pelo Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) e que serve de ponto de partida para um livro que será lançado no próximo dia 14, no âmbito da comemoração do Dia Nacional do Mar (celebrado a 16 de Novembro).

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A chora de bacalhau é um dos pratos mais emblemáticos da gastronomia de bordo Margarida Malaquias

À perspectiva teórica e académica, a publicação Chora e Feijão Assado - A Gastronomia de Bordo na Pesca do Bacalhau junta um conjunto de receitas outrora confeccionadas a bordo dos bacalhoeiros – agora passadas para o papel com a ajuda de antigos cozinheiros de bordo.

Da lista de receitas constam pratos como a feijoada de samos, caras de bacalhau fritas, raia de pitau e a afamada chora (sopa confeccionada com cabeças de bacalhau), considerada o prato mais emblemático da gastronomia de bordo. Sem esquecer as célebres caldeiradas, feitas pelos próprios pescadores a partir dos vários tipos de peixe capturados, num ritual que era simultaneamente “alimentar e recreativo”, repara Pedro Silva, investigador do MMI que assina a visão sintética da evolução dos hábitos alimentares dos tripulantes dos navios da pesca do bacalhau apresentada no livro.

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Partindo da literatura alusiva à pesca do bacalhau – com especial destaque para Os Grandes Trabalhadores do Mar, de Jorge Simões, e A Campanha do Argus, de Alan Villiers  , e de entrevistas a antigos tripulantes  – , o estudo apresenta a composição das refeições servidas bordo, em diferentes períodos da história. As grandes mudanças? Coincidiram com a “evolução tecnológica da construção naval” – os navios passaram a ter câmaras frigoríficas para preservar os mantimentos  – e com o estabelecimento de regimes jurídicos nacionais e internacionais para a alimentação de bordo.

A publicação deste livro acontece no âmbito do Gastronomia de Bordo, que está a decorrer em Ílhavo até ao dia 22 de Novembro. Inserido numa trilogia de festivais com o mesmo nome e que ocorrem também em Peniche (decorreu de 2 a 25 de Outubro) e na Murtosa (agendado para o período de 20 de Novembro a 1 de Dezembro) –, o Gastronomia de Bordo de Ílhavo passa este ano por 21 restaurantes.

Degustações para todos os gostos

Às sextas, sábados e domingos, os estabelecimentos aderentes apresentam as experiências gastronómicas relacionadas com o bacalhau e seus derivados. Cada experiência é composta por, no mínimo, três pratos de bacalhau e seus derivados, numa combinação de entradas ou pratos principais que prometem desafiar os paladares mais exigentes. Desde a tradicional feijoada de samos, passando pelos bolinhos e pataniscas de bacalhau, ou pelos tacos e ceviches de bacalhau, há propostas para todos os paladares e com preços a partir dos 15 euros por pessoa. O melhor é consultar a lista e começar a fazer a sua escolha (aconselham-se reservas com, pelo menos, 24 horas de antecedência).

Além das propostas gastronómicas, também é possível viajar pelo território para conhecer os locais emblemáticos das pescas e as tradições, crenças e até a inovação em torno dos pescadores, dos cozinheiros da pesca e das empresas de produção e de transformação alimentar e dos seus produtos.

Destaque para as visitas orientadas e para um showcooking de gastronomia de bordo (actividades sujeitas a inscrição prévia). Este fim-de-semana, por exemplo, há visitas guiadas à Liporfir, empresa de transformação de bacalhau, e às Hortas do Mar e da Ria – uma dedicada à produção de plantas e de flores comestíveis, particularmente apreciada por chefs de cozinha (Terra d’Avó), e outra instalada nas águas da ria, onde são cultivadas as ostras (unidade de produção de Pedro Pereira).