Jovens portugueses são dos mais expostos a risco de desemprego na Europa

Análise do Eurostat sobre os impactos da pandemia no mundo do trabalho evidencia a crescenta fractura entre a população activa. Quem já estava em desvantagem foi quem ficou ainda pior.

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Daniel Rocha

Os efeitos da pandemia sobre o mercado laboral foram bastante desiguais entre as categorias de trabalhadores mais vulneráveis e mais afectados. Por exemplo, “a probabilidade de perda de emprego foi entre duas e três vezes superior para os que ganham menos em países como Espanha, Irlanda, Itália e Portugal”, diz o Eurostat.

A autoridade estatística europeia analisou dados do segundo trimestre de 2020, que corresponde ao período do Grande Confinamento na Europa. A conclusão é que os riscos de desemprego ou layoff atingiram toda a população activa, mas na maioria dos Estados-membros da UE esses riscos foram maiores para os que já ganhavam menos. O mesmo sucedeu “num grande número de países” aos trabalhadores em risco de pobreza (aqueles que ganham 60% do salário mediano).

“Em termos gerais, isto significa que as ondas de choque desta crise sanitária sobre o mercado laboral tiveram mais impacto naquelas categorias de trabalhadores que já estavam numa posição de desvantagem”, conclui o Eurostat neste primeiro relatório sobre os efeitos da covid-19 no emprego face aos níveis de rendimento.

São dados ainda preliminares que ainda não levam em conta todos os efeitos das medidas temporárias aplicadas nos diferentes países para ajudar famílias e empresas atingidas pela travagem abrupta da actividade económica. Mas como nota o Eurostat, mesmo assim é possível identificar “padrões” que se repetem de país para país, ainda que depois haja diferenças geográficas.

Os números sugerem, mais uma vez, que a pandemia acentuou ainda mais as desigualdades. Para trabalhadores com menores rendimentos, a probabilidade de layoff foi de 21% e a probabilidade de desemprego foi de 5%. Já entre os de maiores rendimentos, as mesmas probabilidades desciam para 16% e 2%, respectivamente.

A idade dos trabalhadores e o sector de actividade são outras variáveis que influenciaram fortemente os riscos, com os mais jovens a serem os mais penalizados e os trabalhadores da restauração e alojamento a enfrentarem maiores probabilidades de desemprego, layoff ou perda de rendimento.

Agrupando num único quadro aqueles que estiveram em pior situação, o risco de desemprego foi maior para os trabalhadores temporários, do sector da restauração e hotelaria, os jovens e os menos qualificados. E como nota o Eurostat, “os jovens, os menos qualificados e os dos sectores mencionados já são os mais representados na faixa dos que ganham menos em diversos países”.

Os dados mostram ainda que mecanismos como o layoff foram essenciais para evitar uma maior destruição de postos de trabalho, mas, mesmo com estes apoios, aqueles que já ganhavam pouco enfrentam agora riscos de continuarem a perder rendimento.

No mapa das consequências, Portugal fica no segundo grupo dos países com maiores percentagens de perda de desemprego e de trabalhadores que passaram pelo layoff. E claro que a travagem no turismo teve um papel preponderante. O que, em parte, também ajuda a explicar porque é que Espanha (1.º) e Portugal (2.º) são os dois países onde o risco de desemprego jovem (pessoas entre os 16 e 24 anos) atingiu níveis mais elevados.

Esse risco de desemprego foi substancialmente mais elevado para jovens (14%) em comparação com o resto das faixas etárias da população activa (4%).

Em termos de qualificações, Portugal volta a estar no lote dos países onde o risco foi maior para os menos qualificados. E cruzando com a variável rendimento, verifica-se que Portugal faz parte do grupo de países com a maior distância no nível de risco de trabalhadores em risco de pobreza e dos mais bem pagos.

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