Nos bastidores do Vinhos de Portugal digital

Como se organiza um evento de vinhos em tempos de pandemia? Em ano de aprendizagem para público e organizadores, o Vinhos de Portugal descobre as vantagens de um novo modelo de comunicação.

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Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, e João Portugal Ramos, um dos produtores presentes no primeiro dia do evento Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio
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Luís Lopes, da revista "Grandes Escolhas" Rui Gaudêncio
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Rui Falcão, um dos críticos portugueses Rui Gaudêncio

Como posso degustar o vinho se não vou estar fisicamente presente no evento? Esta era a primeira dúvida colocada por todos a quem Simone Duarte explicava que, em ano de pandemia, ia mudar radicalmente o Vinhos de Portugal no Brasil. O evento que se realiza há seis anos no Rio de Janeiro e há três em São Paulo, levando até estas duas cidades muitas dezenas de produtores de vinho, não ia ser desmarcado, mas ia ser totalmente digital.

Confinados nas suas casas, os brasileiros mostraram-se nos últimos meses ávidos consumidores dos mais variados tipos de lives, mas provas de vinho? Como é que isso ia funcionar? Simone Duarte, da empresa Out of Paper, curadora do evento (que é uma iniciativa dos jornais PÚBLICO, O Globo e Valor Económico em parceria com a ViniPortugal) tinha já o modelo na cabeça: as pessoas inscreviam-se para assistir às provas com críticos e às conversas com produtores e podiam, se assim o desejassem, receber nas suas casas os vinhos apresentados nessas provas.

É um modelo “que nunca vai substituir os eventos presenciais” mas que, acredita, no futuro irá conviver com eles. “O mundo vai ser assim, os eventos são passar a ter uma componente digital e presencial, é uma tendência de que já se falava antes mas que a covid-19 veio acelerar”, assegura Simone. A vantagem? “Todo o Brasil e também as pessoas em Portugal podem ter acesso” a algo que até aqui abrangia apenas duas cidades. Um universo infinitamente maior, portanto.

E se no início houve alguma dificuldade em perceber o modelo, a partir do momento em que as pessoas recebem em casa os vinhos “fica mais fácil de entender” e em alguns casos “cria uma emoção até maior porque pode-se partilhar esse vinho com pessoas de quem se gosta”.

Para pôr tudo isto em prática, a equipa que habitualmente faz o Vinhos de Portugal teve que se adaptar. Thiago Pedreira, produtor pela parte da editora Globo, viajou para Portugal para coordenar a operação. Grande parte do seu trabalho este ano é testar e voltar a testar as ligações vídeo com as dezenas de produtores que, a partir das suas casas, das suas quintas, das suas adegas, entram no evento para conversar com os críticos portugueses (Manuel Carvalho, director do PÚBLICO, Luís Lopes, da revista Grandes Escolhas, e Rui Falcão) e brasileiros  (Jorge Lucki e o master of wine Dirceu Vianna Júnior). Para quem adquiriu bilhetes, estas conversas ficam disponíveis para serem vistas mais tarde sempre que se pretender).

Foi necessário escolher os cenários mais interessantes – as vinhas, infelizmente, não eram uma hipótese porque o evento acontece à noite em Portugal –, acertar luzes e ajudar quem tem menos hábito de o fazer a ficar com naturalidade em frente à câmara.

Com as provas já a decorrer, a partir do Hotel Onyria, em Cascais, desde a noite de sexta-feira (o evento termina este domingo), Thiago passa muitas horas em frente do computador, ligando para cada produtor com antecedência para que ele esteja pronto no momento de entrar em directo na conversa com o crítico. Não é raro vê-lo a gesticular em frente ao ecrã para, por entre os sorrisos de quem assiste aos seus esforços, tentar explicar de que forma um produtor devia virar o telemóvel para a imagem ficar direita.

Para todos em Portugal o trabalho começa com maior intensidade a partir do final da tarde, início da noite, para que as pessoas no Brasil possam acompanhar ao longo da tarde no seu fuso horário. Na sala de apoio, Celma Carreira trata dos vinhos, guardados em dois frigoríficos, assegurando que os críticos recebem os certos para cada prova, e que cada um está à temperatura adequada.

O trabalho de Celma é bastante semelhante ao que se faz no evento físico, mas com a pandemia as preocupações são muitas mais. O frasco de álcool-gel tornou-se “um elemento da equipa” que ninguém pode ignorar. De resto, o espectáculo é o mesmo que por todo o lado: gente de máscara (o mais divertido é quando alguém finalmente reconhece outra pessoa que já ali estava há um bom bocado), distâncias, garrafas e copos a serem desinfectados, o cuidado para que só uma pessoa pegue em cada um e que ninguém confunda o seu copo com o de outro.

No meio da azáfama, correndo entre as três salas disponibilizadas pelo hotel, Simone Duarte deixa um recado: o evento “não são três dias”. Ou seja, não vai terminar aqui. Todos os que compraram bilhetes vão poder assistir às provas e às conversas, que ficam gravadas, e às quais se poderá aceder ao longo dos próximos meses – até porque ninguém conseguiria acompanhar as 62 lives com produtores para além das 15 provas especiais em apenas três dias.

Além disso, o site que serviu de base ao evento e que inclui muitas dezenas de vídeos e fotografias, para além de informação sobre cada um dos produtores presentes e respectivos vinhos, continua também disponível e é de acesso gratuito.

E essa é outra vantagem deste modelo, sublinha a curadora: o Vinhos de Portugal tornou-se não só digital e transatlântico, mas passou a ter outra duração. “Até ao próximo evento, este continua” – com a possibilidade, que está a ser estudada, de se poder continuar a fazer chegar vinhos a casa das pessoas que o desejarem receber. 

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