As máscaras da extrema-direita continuam a cair

De suposto intelectual com um projecto mundial de transformação política, Steve Bannon passou a ser um banal suspeito de vigarice.

Um a um, os profetas do populismo de extrema-direita vão mostrando a sua verdadeira face, estatelando-se em casos de corrupção que tinham prometido não só combater, mas erradicar na Europa ou nas américas. Um dos mais perigosos missionários dessa promessa de regeneração moral, Steve Bannon, foi detido esta quinta-feira por alegadamente se ter apropriado de um milhão de dólares de donativos para a construção do muro na fronteira sul dos Estados Unidos.

O exemplo é esclarecedor da mentira e da hipocrisia do personagem e não é o primeiro a desvendar a natureza dos que se propõem restaurar as sociedades, depurando-as de imigrantes, fazendo regressar os ressentimentos nacionalistas ou acabando com a corrupção: já tínhamos os exemplos de Heinz-Christian Strache na Áustria, os negócios duvidosos patrocinados pela Rússia na Itália de Salvini ou nos Estados Unidos de Trump, já para não falar das relações suspeitas do Presidente brasileiro com as redes criminosas do Rio de Janeiro.

A queda de Steve Bannon é, no entanto, particularmente importante para se desmascarar a extrema-direita porque se tinha tornado o impulsionador da estratégia que se propunha erguer uma espécie de internacional populista. Depois de se afastar de Donald Trump e de desistir dos panfletos extremistas que assinava no Breitbart News, Bannon empenhou-se em disseminar o vírus da extrema-direita na Europa.

A sua proximidade com Marine Le Pen é conhecida. O seu papel no apoio a Nigel Farage para garantir o “Brexit”, que saudou como uma vitória, é público. O seu projecto de criar uma universidade em Itália para disseminar o populismo foi travado in extremis. A sua detenção por um crime tão prosaico e velhaco como o desvio de fundos doados por militantes da sua causa xenófoba é a prova de que a extrema-direita se alicerça não apenas em ideias erradas, mas também em homens sem carácter.

A remissão de Bannon para o estatuto de criminoso comum (caso seja condenado, obviamente) é, por isso, importante pelo simbolismo que impõe. De suposto intelectual com um projecto mundial de transformação, passou a ser um banal suspeito de vigarice. Não chega para afastar o perigo do autoritarismo, nacionalismo e xenofobia que paira sobre a Europa – e continuará a pairar enquanto for promovido pela Rússia de Putin.

Mas se juntarmos ao caso a possibilidade real de uma derrota de Trump, a completa descredibilização de Bolsonaro ou a recuperação da iniciativa das forças democráticas em Itália ou na França, podemos respirar um pouco melhor. E um dia, quando soubermos quem é de facto André Ventura ou quando alguém nos explicar como paga tantos outdoors pelo país fora, talvez possamos juntar Portugal às boas notícias.