Estudo demonstra que paisagens “inteligentes” contribuem no controlo de fogos

Equipa de investigadores considera que as políticas actuais de gestão de incêndios se centram sobretudo na sua supressão imediata e ignoram os problemas de gestão da paisagem.

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Espigueiros na aldeia de Lindoso: estas estruturas usadas no armazenamento do milho são parte do património cultural do Norte de Portugal e Espanha Adrián Regos

Uma equipa internacional que envolveu investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio-InBio), associado da Universidade do Porto, desenvolveu um estudo que mostra que paisagens “inteligentes” podem ser a solução para o controlo dos incêndios.

“A implementação de políticas agrícolas que fomentem e protejam as actividades agro-pastoris locais poderá contrariar os efeitos negativos associados ao abandono rural, podendo reduzir consideravelmente o risco e impacto dos grandes incêndios florestais nas regiões montanhosas de interior da Península Ibérica”, refere João Campos, investigador do Cibio-InBio. 

João Campos, juntamente com a investigadora do Cibio-InBio e bombeira voluntária Silvana Pais, bem como outros estudiosos da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), realizaram um estudo recentemente publicado na revista Ecosystem Servisses, através do qual provam que a integração de uma gestão do território destinada a proteger e a promover o aumento das áreas agrícolas com estratégias de “gestão inteligente do fogo” poderão contribuir para a mitigação de incêndios florestais. João Campos fala de uma redução em cerca de 50% das áreas ardidas, citado em comunicado do Cibio-InBio.

Desta forma também poderá ser possível garantir a conservação da biodiversidade e o fornecimento de serviços de sequestro de carbono.

Desenvolvido na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, este estudo parte da convicção de que as tendências crescentes dos incêndios florestais e seus impactos nas paisagens do Sul da Europa estão interligadas com os efeitos pronunciados das alterações climáticas e o abandono regional do território.

Conversão para vegetação menos inflamável

Os investigadores acreditam que, adicionalmente, as políticas actuais de gestão de incêndios centram-se principalmente na sua supressão imediata e ignoram os problemas de gestão da paisagem, podendo incrementar ainda mais os impactos do fogo ao proporcionar uma transição das paisagens actuais para outras mais inflamáveis e propensas a incêndios.

“Tendo em conta este contexto, é necessário avaliar outras alternativas de gestão do território que possam contrariar as actuais tendências do impacto do fogo nestas regiões”, acrescentam, defendendo a implementação de estratégias fire-smart, isto é “gestão inteligente do fogo”.

Essas alternativas visam controlar o regime de incêndios através da conversão da vegetação actual para uma menos inflamável, de forma a criar ambientes mais resistentes e resilientes ao fogo.

“Surpreendentemente, a eficiência destas estratégias na mitigação de grandes incêndios florestais, assim como os potenciais benefícios para a conservação da biodiversidade e prestação de serviços dos ecossistemas, permanece praticamente inexplorada”, aponta o Cibio-InBio no comunicado.

O estudo realizado partiu da simulação da evolução da paisagem de acordo com diferentes estratégias de gestão do território para as próximas décadas, usando como horizonte temporal 2020/2050, e analisando os potenciais impactos no regime do fogo, no sequestro e armazenamento de carbono, e na disponibilidade de habitats para 116 espécies de aves, anfíbios e répteis.

“O estudo demonstra que a protecção e o aumento das áreas agrícolas, combinadas com estratégias fire-smart poderão contribuir para uma redução de 50% das áreas ardidas por grandes incêndios florestais previstas para o período entre 2030 e 2050. Uma estratégia de gestão fire-smart também contribuiria para um aumento do sequestro de carbono na área de estudo”, lê-se ainda no comunicado.

As políticas integradas também podem, acreditam os investigadores, contribuir para um aumento da disponibilidade de habitat para espécies sem protecção ou não ameaçadas dentro dos limites das áreas protegidas da reserva nos próximos 40 anos, assim como parecem ser os cenários de gestão mais vantajosos para as espécies protegidas, garantindo uma estabilização de habitat disponível durante as próximas três décadas.