Opinião

Mãe de leite e a importância do aleitamento materno

Ninguém tem dúvidas que o aleitamento materno cria laços afectivos e, no meu caso, além dos efeitos directos, também pelo exemplo de minha mãe.

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Wes Hicks/Unsplash

A futura mãe sabe um pouco de tudo sobre o aleitamento materno porque é bem ensinada pelos técnicos de saúde altamente qualificados e dedicados e pela facilidade, cada vez maior e mais fácil, de obtenção de conhecimentos via Internet e/ou redes sociais.

Para dizer verdades absolutamente inquestionáveis tais como:

  • O aleitamento materno é um acto de amor e carinho, proporcionando uma íntima relação entre a mãe e bebé;
  • É um factor fundamental para um normal desenvolvimento psicoafectivo;
  • O leite materno é o mais completo alimento para o bebé, prevenindo infecções, obesidade e diabetes;
  • O leite materno é económico e de fácil digestão;
  • O leite materno confere imunidade natural, prevenindo infecções;
  • O leite materno tem efeito laxante e promove a maturação do intestino;
  • O leite materno possui uma composição que proporciona um aporte proteico e energético equilibrado;
  • Para a mãe a amamentação previne hemorragias no período pós-parto e promove a involução uterina; reduz o risco de osteoporose, cancro da mama e cancro do ovário, ajudando a mãe a recuperar o seu peso habitual.

Mas qual a relação entre Mutualismo e Aleitamento Materno?

Todos conhecemos uma das definições de Mutualismo: É um sistema de associação assente nos princípios de ajuda recíproca entre os seus membros e de contribuição colectiva para benefício de cada um deles.” Neste contexto, conto um caso do qual fiz parte como secundária figura do elenco mas muito real e espelho das considerações sobre o aleitamento, que aconteceu em Silves, Algarve, decorria o ano 1950.

O que se passou, repito, é real e permite-me prestar homenagem a uma mulher de altas qualidades humanas, com um espírito muito à frente do seu tempo e, como poderão constatar, com um nato sentido de mutualismo, na sua mais pura concepção. Essa mulher, a Dona Bia, era a minha mãe.

Alimentando-me exclusivamente do seu leite, a minha saúde e evolução eram bem visíveis e motivo de orgulho de família e comunidade próxima.

A minha mãe soube que uma amiga de uma amiga tinha um filho que “definhava de dia para dia com um prognóstico muito fechado e só porque o leite de sua mãe não “prestava”. Por curiosidade e solidariedade a minha mãe mostrou desejo de ver o menino. Era mesmo verdade o que diziam, era um caso desesperado. Como o leite era abundante e o utente estava bem e não o consumia na totalidade a D. Bia, minha mãe, sugeriu ajudar.

A primeira vez que este meu “irmão de leite” provou a excelência do leite teve uma reacção tal que vomitou, o que em dialecto algarvio se chama de “ferrado de lula”, um líquido preto viscoso e cheiro horrível. Sempre em segredo (para que não se suspeitasse de eventuais perigos para a minha mãe e eu próprio) continuaram as sessões e em pouco tempo o menino ganhou saúde com cor e corpo de invejar.

Conheci esta história alguns anos depois e como a família do menino se mudou de cidade, para perto de Lisboa, só voltei a vê-lo na minha festa do 20.º aniversário quando ele e família nos visitaram.

Tenho vergonha de dizer (fraqueza humana!) que misturei alguma emoção com um sentimento de inveja porque o meu irmão de leite tinha-me ganho dez centímetros em altura e dez a 15 de largura equivalente em (pelo menos) 150 cm2 de robustez corporal. E à minha custa!

Felizmente que esse momento de mesquinhez foi fugaz e olhando para a minha mãe compreendi que a nossa vida tem momentos inesquecíveis e irrepetíveis.

Ninguém tem dúvidas que o aleitamento materno cria laços afectivos e, no meu caso, além dos efeitos directos, também pelo exemplo de minha mãe, indirectamente passou naturalmente para o meu subconsciente e pode em alguns momentos ter moldado o meu comportamento e ajudado a ser uma melhor pessoa. Uma homenagem devida à D. Bia, minha mãe.

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