Vacina de Oxford é “segura”, tem poucos efeitos secundários e induz resposta imunitária

A vacina de Oxford para a covid-19 vai agora na terceira fase de ensaios clínicos – é uma das (pelo menos) duas vacinas experimentais que estão na fase mais avançada dos testes em humanos. Os primeiros resultados foram divulgados esta segunda-feira e mostram que não houve efeitos secundários graves resultantes da vacina.

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Uma cientista no centro em que está a ser produzida a vacina contra o coronavírus SARS-CoV-2, em Oxford, no Reino Unido Steve Parsons/REUTERS

A vacina que está a ser desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela empresa farmacêutica AstraZeneca foi considerada “segura” e produziu uma resposta imunitária, segundo os resultados preliminares divulgados esta segunda-feira pela revista científica The Lancet. A fase em análise, em que foi administrada a vacina a 1077 adultos saudáveis, mostrou que a vacina fez com que o organismo produzisse anticorpos e linfócitos T até 56 dias depois de terem recebido o fármaco. A vacina teve ainda “efeitos secundários reduzidos”, que podem ser aliviados ao tomar paracetamol. “Não houve efeitos nocivos graves resultantes da vacina”, lê-se no comunicado da Lancet.

Os autores indicam que são precisos mais ensaios clínicos com esta vacina, incluindo em adultos mais velhos e com complicações de saúde, para saber se ela consegue realmente induzir uma protecção eficaz contra a infecção pelo novo coronavírus. São resultados “promissores”, lê-se no comunicado.

Segundo os resultados agora publicados, a vacina provoca uma resposta imunitária dos linfócitos T num período de 14 dias após a vacinação e gera também uma resposta de anticorpos em 28 dias. “O sistema imunitário tem duas maneiras de encontrar e atacar agentes patogénicos – através das respostas dos anticorpos e dos linfócitos T. Esta vacina pretende induzir ambos, para que possa atacar o vírus quando está a circular no corpo, assim como atacar células infectadas”, explicou um dos cientistas que lideraram o estudo, Andrew Pollard. “Esperemos que isto signifique que o sistema imunitário consiga lembrar-se do vírus, para que a nossa vacina possa proteger as pessoas durante muito tempo.” Ainda assim, acautela, são precisos mais estudos para ter a certeza de que a vacina protege da infecção e saber-se quanto tempo dura essa protecção.

A vacina ideal, refere a equipa de cientistas, deverá ser eficaz após uma ou duas administrações, deve funcionar numa população mais idosa e com complicações de saúde e conceder ainda uma protecção mínima de seis meses que permita reduzir as transmissões do vírus entre humanos. Ainda é cedo para se saber se esta vacina cumpre todos estes parâmetros, mas os ensaios clínicos continuam.

As vacinas são vistas como uma luz ao fundo do túnel no combate à pandemia de covid-19 (que já infectou 14,5 milhões por todo o mundo e fez 606 mil mortes), sendo nelas depositada muita da esperança para se voltar ao “normal”. Há meses que a investigação vai em passo rápido numa corrida sem precedentes: depois de o vírus ter sido descoberto no final de 2019, há já mais de 20 vacinas em ensaios clínicos, mas ainda nenhuma chegou ao final do caminho de ensaios para provar que é eficaz para prevenir a infecção pelo coronavírus SARS-CoV-2. 

A equipa da Universidade de Oxford, no Reino Unido, foi uma das primeiras a iniciar ensaios clínicos em humanos. Os testes, cujos resultados foram agora divulgados, foram feitos em adultos com idades entre os 18 e os 55 anos, sem historial de covid-19, em cinco hospitais britânicos entre 23 de Abril e 21 de Maio. Os participantes continuarão a ser acompanhados durante um ano, pelo menos. Dos efeitos secundários registados, o cansaço e dores de cabeça são os mais frequentes. Houve ainda quem sentisse dor no local onde foi administrada a vacina, dores musculares, mal-estar, arrepios e febre.

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Dado Ruvic/REUTERS

agora 163 “candidatas” a uma vacina da covid-19: 23 estão em fase de ensaios clínicos (em pessoas), deixando para trás os ensaios pré-clínicos (em células, tecidos ou animais, que estão a ser feitos em 140 outras “candidatas”), segundo a actualização de 15 de Julho da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a lista da OMS, a Universidade de Oxford é uma das, pelo menos, duas instituições que já começaram a fase 3 dos ensaios clínicos em humanos; na lista está também uma vacina produzida pela chinesa Sinovac. Há ainda uma vacina experimental da norte-americana Moderna, que ainda não começou a recrutar voluntários para esta etapa.

A vacina da Universidade de Oxford está agora na fase 3 dos ensaios clínicos, em que é feita a avaliação dos resultados do fármaco em milhares de voluntários. Nesta segunda-feira foram conhecidos resultados de ensaios clínicos da equipa de Oxford, publicados na revista científica The Lancet, mas as conclusões referem-se ainda à fase 1 dos ensaios clínicos (avaliação da segurança e capacidade de desencadear uma resposta imunitária). A fase 2, cujos resultados não foram ainda divulgados, corresponde à avaliação da eficácia clínica, a dose adequada ou reacções adversas.

“Há ainda muito trabalho a fazer antes de confirmarmos que a nossa vacina pode ajudar no combate à pandemia, mas estes resultados preliminares são promissores”, afirmou a co-autora do estudo, Sarah Gilbert. “Também precisamos de saber mais sobre o vírus. Por exemplo, ainda não sabemos quão forte tem de ser a resposta imunitária provocada para proteger efectivamente de uma infecção”, explicou ainda a cientista.

Que vacina é esta?

A vacina da Universidade de Oxford é feita com vectores virais: servem-se de um vírus modificado (um adenovírus de chimpanzés que não se replica) que entrega nas células humanas um fragmento do próprio material genético, levando-as a produzir uma proteína que imita a do SARS-CoV-2.

A empresa farmacêutica AstraZeneca aliou-se à instituição de ensino superior britânica com o objectivo de produzir uma vacina em massa; caso seja eficaz, a intenção é que sejam distribuídos a nível mundial mais de dois mil milhões de vacinas.

A equipa de Oxford pretende também começar testes em voluntários saudáveis que serão deliberadamente expostos ao vírus, segundo noticiou na quinta-feira o jornal britânico The Guardian – mas a medida tem sido controversa, como não existe uma cura cientificamente provada para a doença covid-19 que possa salvar os voluntários caso apresentem complicações graves. Estes testes são feitos num ambiente de laboratório controlado, podendo ser concluídos em menos tempo (numa questão de semanas) e sendo necessárias menos “cobaias”. Nas outras fases, espera-se que os voluntários sejam expostos ao vírus na sua vida normal, o que pode levar meses.

Há ainda milhares de pessoas a serem recrutadas como voluntárias no Reino Unido, Brasil, África do Sul e Estados Unidos para a fase 3 dos ensaios clínicos, escreve o The Guardian. Avançando-se com os testes em que os humanos são directamente expostos ao vírus seriam apenas precisas dezenas de pessoas para testar a eficácia da vacina. O objectivo seria começar estes testes no final do ano, segundo o director do Instituto Jenner da Universidade de Oxford e um dos coordenadores do projecto, Adrian Hill, e esta opção seria um “complemento” às restantes fases. Outra das vantagens deste método é perceber quão duradoura será a imunidade concedida pela vacina. Ainda assim, as certezas escasseiam e Adrian Hill tem alertado para o perigo de “falsas promessas”.

O Governo britânico tinha já um acordo com a Universidade de Oxford para ter 100 milhões de doses da vacina que está a ser desenvolvida em conjunto com a empresa farmacêutica AstraZeneca, mas assinou também acordos para ter mais 90 milhões de doses de outras vacinas que estão ainda em desenvolvimento: 60 milhões foram encomendados ao grupo francês Valneva (em ensaios pré-clínicos) e outros 30 milhões à empresa de biotecnologia alemã BioNtech e a farmacêutica norte-americana Pfizer (na fase 1 e 2), segundo a BBC. Ainda assim, não é certo que alguma destas vacinas venha a ser viável.