Opinião

O turismo nas guerras da covid-19

Para a generalidade dos países e não apenas para os do Sul, atrair turismo interno e externo é fundamental. Mas não pode valer tudo.

Desde o início da pandemia que já vimos de quase tudo: países a desviarem máscaras e material sanitário, açambarcamento de alguns medicamentos para tratar a covid-19, acusações infantis sobre a origem do vírus e agora, com o verão, também uma guerra para atrair turistas internos e estrangeiros, onde não faltam critérios sanitários à la carte, argumentos incompreensíveis, desinformação e notícias maldosas.

Como a primavera foi uma estação perdida e certamente o outono também será, o turismo de verão aparece como um importante balão de oxigénio para atenuar o agravamento dos problemas económicos e sociais que se anunciam. A União Europeia bem tentou adotar critérios unificados para todos os Estados-membros, de forma a evitar que se criem tensões e desentendimentos indesejáveis. Mas nem por isso evitou uma cacofonia de regras e de critérios ditados por estratégias individuais que favorecem uns Estados-membros e penalizam outros de maneira arbitrária, como se pode exemplificar pelas listas seletivas da Grécia e do Reino Unido.

Em Portugal, a estratégia para contenção do vírus tem sido bem sucedida e proporcional, com concertação política, muita testagem e sem privar a generalidade das pessoas das suas liberdades fundamentais. Além disso, há claramente maior confiança na capacidade de resposta do sistema de saúde, na utilização de terapias e na deteção e cerco a novos casos.

E, no que toca à transparência, fundamental para gerar confiança, não há nada a apontar sobre a divulgação da informação relativa à pandemia, discutida e atualizada diariamente. O mesmo não se poderá dizer de todos os países, havendo alguns que mudaram as regras de contabilização de mortes ou deixaram mesmo de dar informação sobre o número de casos ativos. Mais importante do que o número de casos diários, dizem os especialistas, é a capacidade para controlar os surtos que possam aparecer.

Entretanto, começou a perceber-se que as notícias sobre a situação em Portugal estavam a chegar de forma distorcida e incorreta ao estrangeiro, dando a entender que Lisboa estava confinada e que o país inspirava inquietação. Por que razão se pretende penalizar toda a região de Lisboa se só há algumas restrições numa freguesia do concelho e em freguesias e bairros bem localizados de outros municípios que não são turísticos? E porque se prejudica o resto do país onde o número de novos casos e de casos ativos é reduzido? E o que dizer da lamentável falsa notícia do El País, com chamada de primeira página, que titulava que “Portugal ordena o confinamento de 3 milhões de Lisboetas”?

O que causa surpresa é este tipo de notícias repetir-se em vários países no mesmo tom, o que certamente não será por os jornalistas perceberem mal a informação que lhes chega, nem por a imprensa nacional ter uma obsessão doentia por relatar exaustivamente cada caso novo que surge. Os efeitos negativos estão à vista, com muitos estrangeiros e compatriotas emigrados a desmarcarem os seus voos e as reservas na hotelaria e na restauração, não apenas para Lisboa, mas também para o resto do país.

Não se compreende que, por exemplo, a Alemanha, França ou Holanda não tenham problemas em receber voos dos aeroportos portugueses e outros imponham restrições, como Chipre, Malta, Grécia, Áustria ou Dinamarca. Tal como é absurdo que um dos países mais martirizados com a covid-19, o Reino Unido, que tem dado os piores exemplos com aglomerações em praias e jardins e com os assustadores festejos da vitória do Liverpool no campeonato inglês, venha agora vetar os corredores aéreos para Portugal, mas abra o caminho para Espanha.

Para a generalidade dos países e não apenas para os do Sul, atrair turismo interno e externo é fundamental num setor fortemente concorrencial e que investiu imenso em segurança sanitária para atrair turistas, mas que continua à míngua de procura por falta de confiança. Mas não pode valer tudo. Os critérios devem ser coerentes e quem informa devia ter cuidado para não criar falsos alarmes ou transmitir informações equívocas. Estamos todos no mesmo barco e é fundamental preservar as regras de bom relacionamento. Sobretudo porque os estragos causados pela pandemia, com mais ou menos turistas, serão sempre incalculáveis. Para todos.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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