Portugal fora dos destinos de baixo risco de Inglaterra. MNE diz que a decisão é um “absurdo”

Açores e da Madeira entram já na lista de destinos para onde podem ser feitas viagens não essenciais, mas isolamento de 14 dias continua a ter de ser cumprido.

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Reuters/Toby Melville

Portugal não está na lista inglesa de países de baixo risco para a covid-19, e por isso dispensados de quarentena — a lista foi publicada esta sexta-feira pelo Reino Unido. A decisão britânica foi considerada “errada” e “um absurdo” pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Açores e Madeira ficam já a partir de sábado na lista de destinos para os quais são permitidas viagens não essenciais, mas a quarentena aplica-se na mesma.

Na página com as indicações para passageiros que viajem de Portugal, o Departamento dos Transportes britânico diz que para Açores e Madeira são permitidas viagens não essenciais. Quem viajar a partir do continente continua sujeito às medidas impostas pelo governo britânico. Estas medidas são aplicadas para qualquer tipo de transporte.

A lista de destinos isentos de quarentena em Inglaterra conta com 59 países e territórios, entre os quais estão Espanha, Itália, França, Alemanha, Bélgica, Grécia e Dinamarca. A publicação do Departamento dos Transportes também refere que quem chegar da Irlanda e dos 14 territórios britânicos ultramarinos também não precisa de cumprir as duas semanas de quarentena.

A informação relativa às viagens para os restantes países do Reino Unido – País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte – vai ser publicada nos próximos dias pelos respectivos governos.

Desde semana passada que a BBC avançava que Portugal não faria parte da lista que foi publicada esta sexta-feira — que entra em vigor a 10 de Julho e que pode ser consultada aqui. Na altura, o ministro da Administração Interna português, Eduardo Cabrita, disse que “não há nenhuma razão” para a aplicação de quarentena no regresso ao Reino Unido, mas não quis antecipar o anúncio do Governo britânico.

Esta sexta-feira, Augusto Santos Silva classificou a decisão britânica “surpreendente”, “errada” e um “absurdo” do ponto de vista técnico, podendo trazer graves consequências económicas e a nível da confiança recíproca entre os dois países. “Esperamos que esta decisão profundamente injusta e errada seja corrigida o mais depressa possível”, acrescentou o ministro.

Augusto Santos Silva referiu ainda que Portugal continua disponível para “fornecer às autoridades britânicas toda a informação com toda a transparência sobre a situação epidemiológica” quer no país, “quer nas regiões que são tradicionalmente destinos turísticos dos ingleses”, como o Algarve e a Madeira. Sobre a inclusão dos arquipélagos portugueses na lista de destinos para os quais são permitidas viagens não essenciais apesar de ter de ser cumprida na mesma quarentena no regresso, o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou ser o “elemento final de caos para mostrar quão absurdo” foi o processo de decisão britânico.

“Na prática, publicaram duas listas: uma dos conselhos a viajantes, do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, que passa a considerar a Madeira e os Açores destinos seguros de viagem, e outra do Ministério do Interior que omite a Madeira e os Açores da lista dos territórios que deixam de estar sujeitos ao regime de quarentena”, explicou.

A embaixada britânica em Lisboa justificou a decisão do seu Governo com a “incidência relativamente elevada de casos de covid-19, principalmente na região da grande Lisboa”. Em comunicado, a representação do Reino Unido espera que a taxa de infecção em Portugal “diminua rapidamente”, para que o país possa ser adicionado à lista de destinos livres de restrições.

Quanto à decisão de deixar de desaconselhar viagens à Madeira e aos Açores, a embaixada explica que foi “em reconhecimento das taxas de infecção muito mais baixas nas regiões autónomas”, tendo pesado também “o facto dessas ilhas serem acessíveis através de voos dircetos do Reino Unido e terem controlos efectivos de entrada relacionados com a covid-19”. Ainda assim, a quarentena obrigatória vai permanecer “por enquanto em vigor para todas as pessoas que chegarem ao Reino Unido vindas de Portugal (no seu todo)”.

Desde 8 de Junho que vigora no Reino Unido a obrigação de isolamento durante 14 dias para todos os viajantes, britânicos ou estrangeiros, que regressem do exterior, para reduzir a probabilidade de contágio da covid-19. A desobediência vale uma multa de cerca de mil euros.

No sábado, e segundo as contas do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC)​, Portugal era o segundo país europeu com o número mais elevado de casos activos por 100 mil habitantes acumulados ao longo dos últimos 14 dias: 45,60 casos, muito acima do valor registado no Reino Unido (24,62), no terceiro lugar, e de Espanha e Itália, neste momento abaixo dos 10 casos activos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias. A Suécia era o país europeu que apresenta o valor mais elevado: 151,05.

 

Turistas do Reino Unido lideram com quase 20% das dormidas em 2019

Os dados de 2019 espelham a importância dos turistas ingleses no Algarve, mas também no resto do país. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, o Reino Unido manteve-se em 2019 como o principal mercado emissor de turistas para Portugal, representando 19,2% das dormidas de estrangeiros. No Algarve, o peso dos britânicos sobe para 37,3% do total das dormidas de não residentes.

A importância do mercado britânico também se pode medir pela taxa de crescimento, que entre 2013 e 2019, cresceu 51,2% no número de hóspedes e 32,2% no número de dormidas.

No ano passado, chegaram a Portugal 2,1 milhões de turistas provenientes do Reino Unido (mais 5,9% face ao ano anterior), perfazendo um total de 9,4 milhões de dormidas (mais 1,5%), depois de em 2018 terem registado decréscimos (recuo de 2,7% e de 5,4%, respectivamente).

À semelhança dos anos anteriores, os principais destinos dos hóspedes britânicos foram o Algarve (63,4% das dormidas do mercado), a Madeira (18,5%) e a Área Metropolitana de Lisboa (10,8%).

A hotelaria concentrou 91,9% das dormidas de britânicos e, dentro desta, destaca-se a preferência pelas tipologias de hotéis (48,1%) e hotéis-apartamentos (21,3%), seguindo-se o alojamento local (7,2%) e o turismo no espaço rural e de habitação (0,9%). Ainda de acordo com os dados do INE, nos “hotéis, a procura centrou-se nas unidades de cinco e quatro estrelas (37,0% e 50,1%, respectivamente), enquanto na tipologia de hotéis-apartamentos sobressaíram particularmente as unidades de quatro estrelas (67,4%)”.

O Turismo do Algarve lamenta uma decisão do Governo britânico que traz um impacto negativo para o país e para a região, considerando que o país foi “penalizado por falar verdade”.

“É uma decisão que lamentamos e que não compreendemos à luz dos factos, por ser profundamente injusta e penalizadora para o país em geral e para o Algarve em particular”, pode ler-se no comunicado enviado à imprensa.

É também realçado o empenho do país para garantir a segurança e a higiene do sector do turismo, nomeadamente com o Manual de Boas Práticas desenvolvido pela entidade algarvia ou o selo Clean & Safe criado pelo Turismo de Portugal.

Notícia actualizada às 17h52 com as reacções de Augusto Santos Silva e do Turismo do Algarve.

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