Ainda o ato de contrição sem penitência de Durão Barroso

Ao longo destes últimos cinquenta anos, soube fazer o que tinha de fazer para ser o que queria ser. Está-lhe no ADN a ambição e jogar no tabuleiro indicado para alcançar o objetivo seguinte.

O ato de contrição de José Manuel Durão Barroso, em entrevista ao Atlantic Talks, a propósito da invasão do Iraque e do seu apoio incondicional na Cimeira dos Açores é um traço da sua personalidade, uma espécie de modus operandi. Ficou-lhe do tempo das autocríticas importadas dos jovens generais maoistas.

Durão Barroso, ao longo destes últimos cinquenta anos, soube fazer o que tinha de fazer para ser o que queria ser. Está-lhe no ADN a ambição e jogar no tabuleiro indicado para alcançar o objetivo seguinte.

Nos anos imediatamente antes do 25 de abril combateu com todas as suas forças o PCP para lhe roubar influência na juventude universitária. Era destemido a defender os camaradas Marx, Lenine, Stalin e Mao. Até no boné que usava. Um fogoso revolucionário que anunciava a chegada do vento Leste e o educador da classe operária, entretanto falecido.

Com a revolução de Abril, o Zé Manuel levou o seu anticomunismo ao expoente de proclamar que a revolução não passava de um golpe de Estado do PCP com a camarilha militar. Era no tempo em que defendia que os pides morriam na rua e os professores da Faculdade de Direito, salvo raras exceções, deviam ser saneados e alguns julgados pelos bandos do MRPP a funcionarem como tribunais populares.

O seu ímpeto anticomunismo em nome do verdadeiro comunismo tinha de o levar ao PPD, como era dos livros. Lá foi com Eurico de Melo que escolhia a dedo os que interessavam ao partido. E dali nunca mais parou.

Com o estatuto de imperador do PSD, o partido que mais cedo ou mais tarde leva o líder a São Bento, formou governo com Paulo Portas, um dueto que garantiu a pés firmes que Saddam Hussein tinha armas de destruição massiva e que o Departamento de Estado as tinha mostrado e eles tinham-nas visto.

Traindo o espírito europeu de rejeição da guerra, receberam nos Açores George W. Bush com Aznar e Blair. Colocaram o país ao serviço da perfídia do monumental embuste que mudou o mundo para pior.

O Iraque foi destruído. Centenas de milhares de mortos. Recrudescimento do jihadismo em todo o Médio Oriente e no mundo muçulmano. O mundo ficou muito mais inseguro e mentiram dizendo que ia ficar mais seguro.

O Iraque, graças a estes dirigentes, caiu nas mãos do Irão. Fragmentou-se nas suas comunidades religiosas e o sectarismo tomou conta da vida iraquiana. Os cristãos perseguidos e os direitos humanos espezinhados de modo mais grave que no tempo de Saddam que Bush, o amigo de Zé Manel e de Paulo Portas, não descansou enquanto não o enforcaram e assim calá-lo per omnia seculae et seculorum.

Por ordem de George W. Bush, centenas de milhares de pessoas morreram. Os que o apoiaram são cúmplices. É pena que só a História os julgue.

Durão Barroso, sempre a pensar no passo seguinte e mais adiante, impetuoso quanto à ambição, mal viu as coisas mal paradas no país com fracos resultados eleitorais numas municipais, deu o salto para Bruxelas. Entre o seu patriotismo e o apego ao mais profundo sentimento de “grandeza europeia” à americana não se conteve. Os seus amigos não faltaram à chamada e foi parar a Bruxelas. Voilá

Por lá andou a fazer de conta que mandava na Europa. De um canto do mundo para outro. À grande e à alemã. Até ao dia em que cumprido o mandato, um tremendo apelo vindo da mais fina estirpe de banqueiros impolutos e recheados de figuras respeitadíssimas o levou a um novo trono – chairman da Godman Sachs.

Ele que servira o combate à esquerda antes e depois do 25 de Abril, que criara a partir da figura esfíngica de Eurico o seu baronato no PPD e chegara a primeiro-ministro e que passara por Bruxelas como presidente, ei-lo capaz de novo martírio e guindar-se a um dos mais altos cargos na Goldman Sachs. Glória ao grande camarada.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico