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PAULO PIMENTA

Escolher um grupo e manter a distância: os jovens podem sair à noite em segurança?

Manter a distância de segurança e restringir o grupo de amigos que escolhemos ver pessoalmente, não partilhar copos ou garrafas, usar a máscara correctamente e preferir o ar livre (não estivéssemos no Verão) são as principais recomendações para evitar o regresso do #fiquememcasa. “Tem passado essa ideia de culpabilização dos jovens e não acho que seja de todo por aí”, diz Duarte Brito, médico interno de saúde pública em Lisboa.

Meses depois de os mais novos desesperarem ao tentarem manter os pais e avós em casa, são os mais velhos que apelam “à responsabilidade” dos adolescentes e jovens adultos em conferências de imprensa e intervenções na televisão. Desde o início do desconfinamento, a 4 de Maio, os casos até aos 29 anos quase duplicaram, segundo uma análise do PÚBLICO aos boletins epidemiológicos da Direcção-Geral de Saúde (DGS). Com eles, cresceu também uma “ideia de culpabilização dos mais jovens”, à boleia de saídas à noite e festas que obrigaram à intervenção da PSP em vários pontos do país. Mas é esta a única explicação para o aumento de casos?

“Acredito que, nesta fase, tenhamos mais casos de indivíduos jovens, não simplesmente porque os estejamos a testar, mas porque na realidade têm um nível de sociabilização actual que não tinham há um mês”, começa por dizer Raquel Duarte, do Instituto Saúde Pública da Universidade do Porto. “Nesta fase, as pessoas mais velhas estão mais resguardadas e começamos a ter uma idade média de pessoas infectadas mais jovens.”

Quase três meses após o início da pandemia em Portugal, Maria Clara Jorge decidiu marcar um jantar com um grupo de amigos com quem não convivia desde o Natal. Para uma mesa de sete com desejos de variedade, o local escolhido foi a baixa do Porto. “O estabelecimento fechou às 23h. Como já não nos víamos há muito tempo, quisemos continuar o convívio e decidimos ir à Cordoaria”, conta. As imagens de um ajuntamento de vários grupos, que ao longe se aglomerava num só com centenas de pessoas, fizeram-nos dar meia volta. “Muita gente do nosso grupo não estava a sentir-se confortável, a maioria pôs as máscaras e estava hesitante em estar naquele espaço. Então acabamos por sair. Ficamos na rua e éramos um ajuntamento de pessoas de qualquer maneira, mas estávamos sozinhos num raio de bastantes metros.”

Apesar de não ser o segmento etário que mais cresceu, os que têm entre 20 e 29 anos, como Maria Clara e os amigos, estão nas últimas semanas a serem mais alertados pelas autoridades e governantes, que apelam “à sua responsabilidade”. “De facto, tem passado essa ideia de culpabilização dos jovens e não acho que seja de todo por aí”, diz Duarte Brito, médico interno de saúde pública em Lisboa. “É importante passar outra ideia: está a aumentar em todos.” 

Grandes ajuntamentos podem “ser supertransmissores”

Os especialistas não deixam de mencionar a importância que estes eventos, alvo de denúncias também noutros países europeus, têm “como supertransmissores”. Mas reiteram que esta não pode ser a única explicação para o aumento de casos. “É um misto de vários factores. Até aos 30 anos incluímos já a população que trabalha”, lembra o médico interno. As viagens em transportes públicos lotados, os ambientes de trabalho que não se regem pelas normas da DGS e não permitem um distanciamento físico de dois metros são “factores perfeitamente plausíveis para esse aumento”, menciona. 

Por causa da precariedade laboral e das condições de sobrelotação em várias habitações, a coordenadora do Bloco de Esquerda diz que “não podemos olhar para os casos que estão a surgir como meros casos de responsabilidade individual”. Na oposição, o líder do CDS e ex-líder da Juventude Popular acusa o governo de passar uma mensagem confusa para os mais jovens ao permitir eventos com centenas de pessoas e, ao mesmo tempo, condenar outros

“Pode estar relacionado com tudo. Todas as situações que podem gerar um contacto com muita gente, e sobretudo muito próximo, vão potenciar a ocorrência de surtos. Isso é verdade num lar, numa escola, nos transportes, numa empresa, em eventos agregadores de massas”, diz a infecciologista, à medida que o desconfinamento recua em certas zonas de um país agora a três velocidades. No entanto, “não se pode ignorar que todas as situações geradoras de grandes concentrações de pessoas são situações em que pode haver supertransmissão”, alerta, referindo-se aos ajuntamentos e festas com mais convidados do que um círculo estrito. “Basta um evento. Para bem da nossa sobrevivência social temos de sair e trabalhar. Mas o perigo existe e temos de nos comportar. Ainda não conseguimos chegar a esta população que, apesar de todas estas orientações, continua a ter estes comportamentos de risco. Ainda não se conseguiu controlar este tipo de movimentos também geradores de surto e supertransmissão.”

Os convívios à noite têm sido mencionados por muitos governantes. “Eu não posso falar pela faixa etária toda, mas acho que nem sempre estes ataques são fundamentados. Porque não é por à noite serem mais jovens que estão na rua que significa que durante o dia e à semana são os jovens que mais regras quebram em termos de segurança e distanciamento”, expõe Maria Clara. “Parece quase que o Governo acha que, a partir das 23h, a taxa de contágio fica muito pior e por isso mesmo é que põe a tónica mais nos jovens do que nos outros grupos sociais”, ironiza. Na quinta-feira, 25 de Junho, a Câmara do Porto proibiu o consumo de álcool na via pública, depois de Lisboa ter proibido a venda de bebidas alcoólicas nas estações de serviços.

João Rocha mora em Grijó, Vila Nova de Gaia, mas a maior parte dos amigos está num outro concelho, em Espinho. “Quando foi levantado o estado de emergência, e depois de ter passado o fim-de-semana em que eram proibidas deslocações entre concelhos”, foi ter com eles, ainda a medo. “Depois, houve aqui um surto e as pessoas não vinham muito para a praia de Espinho. Evitava zonas onde sabia que as pessoas tinham estado, algumas eram jovens e iam ser testadas.” Foi o caso de alguns amigos dele, que acabaram por testar negativo. “Noto que as pessoas cada vez estão a facilitar mais, nos contactos. Já existe a facilidade de partilha de boleias, por exemplo, e aí estamos muito juntos. As pessoas vão-se habituando e se calhar, às vezes, podem esquecer-se um bocado. Não é que façam tudo igual, mas com o passar do tempo, e com os números mais ou menos controlados no Norte, sinto esse relaxamento.” 

Raquel Duarte fala nesta “falsa sensação de segurança” de que o vírus se mudou para Sul, depois de ter afectado mais o Norte. Nos últimos 20 dias, foram identificados 84 casos na região e 4149 na Área Metropolitana de Lisboa, como João diz ter lido nas redes sociais, onde procura informar-se sobre a evolução da pandemia. “Há esta falsa noção de que o perigo está em Lisboa. Lembre-se que na fase inicial da pandemia havia uma falsa noção de que o perigo estava no Norte. Está a crescer, lentamente, mas está a crescer”, avisa a infecciologista. 

A obsessão pela noite, defende Raquel Duarte, tem sentido. Além “da associação a bebidas, alcoólicas ou não”, como dizia Duarte Brito, encontros com poucos amigos rapidamente se podem transformar numa noite de reencontros em locais da cidade propícios a esses momentos. “É um comportamento muito natural, mas que nesta fase não podemos ter. O que é preciso diversificar são os locais para onde se vai. E se antes até íamos para um sítio onde sabíamos que provavelmente íamos encontrar muitos amigos, agora, se vamos encontrar-nos com dois amigos, é mesmo com aqueles dois. Não podemos sair a esperar encontrar mais dez.”

“Estamos a falar de jovens que convivem e não tendo alternativas para esse convívio vão tentar arranjar outra forma. Não há festas, não há festivais, começaram a organizar questões paralelas”, diz o médico interno de saúde pública. “Esta possível abordagem de manterem os bares minimamente controlados é de redução de danos. Não há-de ser consensual”, diz, referindo-se a uma entrevista à TSF, na qual o secretário de Estado da Juventude e do Desporto dizia que a reabertura dos bares poderia "controlar melhor estes movimentos”. “Os jovens não são inconscientes. Mas pesam os vários pratos das balanças”, diz Duarte Brito.

Manter a distância de segurança e um grupo de amigos que escolhemos ver pessoalmente, não partilhar copos ou garrafas, usar a máscara correctamente e preferir o ar livre (não estivéssemos no Verão) são as principais recomendações quando se passou do #fiquememcasa para “mantenham a distância”. 

“Estive reunida com associações de estudantes do Norte para ver se conseguimos arranjar uma estratégia em conjunto”, conta Raquel Duarte, que admite uma confusão nas mensagens transmitidas e uma dificuldade em fazer chegar a informação a esta franja da população. “Houve claramente a percepção de que, como é dada a indicação de que a vida social deve voltar, se ficou com a perspectiva, particularmente nos indivíduos mais jovens, de que está tudo normal. E, de facto, nós só conseguimos manter esta nossa vida ‘normal’ se tivermos cuidado. A nossa normalidade de hoje não pode ser a mesma normalidade de antes da pandemia.”

Os dois especialistas falam em comportamentos que “passam impunes”, mas que podem “deixar consequências graves”. “Esta não é uma doença de uma geração só. Como não há nenhuma geração que viva totalmente sozinha, particularmente no nosso país, faz com que qualquer geração que fique infectada rapidamente atinja outra. Estou preocupada com o aumento de casos de indivíduos mais jovens, [porque] depois eles próprios serão transmissores para outras idades e outros grupos mais vulneráveis. Começamos a ter casos graves em indivíduos jovens.” 

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