Opinião

Professores no “Preço Certo”: a ascensão da insignificância

O facto de ninguém ter gritado alto e bom som que tal participação envergonha a classe é mais um óbvio sintoma da “apagada e vil tristeza” a que o sistema educativo chegou.

“Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e a roubar o pobre povo!”
Luís de Camões, Os Lus.VII, 85.

Foi num fim de tarde. Dia de Santo António, de sardinhada e festança... Dia em que nasceu Fernando Pessoa... Não sei se essa coincidência temporal encerra qualquer indício de ominoso, mas foi trágico (e em alguns momentos dum cómico torpe) o que aconteceu no programa “O Preço Certo”, espécie de coroa de louros para docentes das mais diversas disciplinas e que, neste tempo de pandemia, “salvaram” a educação dando aulas em regime de tele-ensino.

O facto de ninguém ter gritado alto e bom som que tal participação envergonha a classe é mais um óbvio sintoma da “apagada e vil tristeza” a que o sistema educativo chegou. Sinal de degenerescência haver professores a celebrar a tele-escola num programa que é inimigo de qualquer ideia de cultura, foi com perplexidade que assistimos à desfaçatez do inspirado Fernando Mendes a vituperar Camões e a epopeia maior do Renascimento sem que nenhum professor reagisse. Com nove negativas no 9.º ano, disse o profissional da televisão que ler esse livro significava, dada a sua extensão, não completar a escolaridade em tempo útil. A plateia de profissionais da educação sorriu ou riu, prosseguindo-se a campanha alegre d’"O Preço Certo”.

Nada vi escrito sobre este caso sórdido. Devo calar a minha revolta? Em tempo adverso a tomadas de posição contra a ditadura do banal, devemos assobiar para o lado? Mas não é grave e reflexo do aviltamento geral o que vimos no passado dia 13? Como podemos exigir dignidade nos salários, nas condições de trabalho, se acontecem destas confrangedoras realidades? Onde estão os professores que deviam ser factores multiplicadores de cultura?

De facto, urge perguntar como é que se pode chegar a semelhante estado de alienação. Não será, eventualmente, toda a classe, mas é extraordinário que haja quem, com a responsabilidade simbólica e efectiva de transmitir saber científico e livresco, se sujeite a participar num dos programas que, a meu ver, mais tem contribuído para o abaixamento mental dos portugueses. De quem terá sido a ideia de homenagear os “profissionais da educação” com este programa onde se procura adivinhar o preço certo de electrodomésticos? Não houve uma voz que se insurgisse contra tal espectáculo? Tal como se fez para os “profissionais de saúde”, agraciados pelo primeiro-ministro, António Costa, com as fases finais da Liga dos Campeões, também os “profissionais da educação” tiveram direito ao reconhecimento nacional.

Nada disto seria grave e triste se não fosse o caso de ser a classe docente uma das mais desprezadas pelos sucessivos governos desde há uns bons 20 anos a esta parte. Mas mais gritante é o desnorte que faz com que professores da Tele-escola, de algum modo representando todos os seus colegas, não tenham compreendido o mau serviço que prestavam ao participar na sardinhada do Mendes porreiraço. Mas a realidade professoral será esta? Há uns dias, numa aula online da RTP, antecedendo a lição do Presidente Marcelo, uma professora de português, impante de responsabilidade e orgulho, confessava ao Presidente-professor que, para preparar as suas aulas, tinha “pesquisado muito no Google”. É esta a concepção de estudo e de investigação que muitos têm?

Como refere Cornelius Castoriadis, “Desde há anos que a profunda regressão mental das classes dirigentes e dos quadros políticos conduziu à liberalização a todo o custo de tudo quanto é economia e sistema de trocas, esvaziando de poder simbólico as mais diversas actividades de trabalho – e o próprio trabalho” (A Ascensão da Insignificância, Bizancio, 2012). A educação é das áreas que melhor espelham essa nefasta liberalização: aulas transformadas em entretenimento, o professor visto como um técnico, um “profissional da educação”, cumpridor ordeiro da ideologia oca. Foi isto que vi n’"O Preço Certo”. Revejam o programa: uma colega que até levava (pasme-se!) um livro feito pelos seus alunos foi acantonada pelos demais que, sorrindo, cheios de confiança, alegres e cúmplices, ofereciam bolos e os mais diversos galhardetes, ávidos por, no Santo António, cantarem com o Quim Barreiros.

Se Castoriadis não erra – nem Camões –, é caso para dizer que a participação dos professores naquele programa indigente é sinal inequívoco da máquina totalitária que, como um rolo compressor, esmaga quaisquer valores que deveríamos ter por perenes, padronizando as massas, transformadas em consumidores acríticos de conteúdos de grau zero. Movida pela dinâmica neoliberal de trocas, uma educação que escolha o caminho fácil do imediatismo online mais não será que a reprodução da sociedade civil hoje desvitalizada, sem memória e sem história.

Que se veja a participação dos docentes do tele-ensino e perguntemo-nos: se é para aí que a educação dos nossos filhos, das nossas crianças e jovens se encaminha, que quadros políticos, empresariais, educativos, universitários, teremos em 2030? Quando um professor, ao cabo de 30 anos de ensino, considera que ter dado aulas a Pedro Granger é prova cabal do seu magistério, a que preço está a educação? Os alunos, agora que se diz que são “a melhor geração de sempre”, poderão responder. Ou então, oiçamos o sapiente Tiago, ministro do tele-ensino e que devia ter estado, sorridente e pimpão, n’"O Preço Certo”.

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