Editorial

Uma boa notícia para nos incomodar

A acreditar no Innovation Scoreboard, Portugal não devia registar um crescimento acima da média europeia: devia estar no pelotão da frente.

Há um discurso pessimista e vagamente cínico que tende a definir o impacto da ciência e da tecnologia no tecido económico como uma moda usada por políticos para exibir trabalho feito ou por profetas que fazem a apologia da inovação ou das startups ao jeito de quem vende banha da cobra. Por vezes, esse discurso faz sentido: continua a haver um fosso gigante entre as competências do sistema científico e tecnológico, geralmente público, e as debilidades das empresas privadas.

Mas se nos detivermos no caminho que o país percorreu nos últimos anos, é possível constatar que não é a área da inovação, da investigação e do desenvolvimento que explica o atraso económico que nos persegue há gerações. O último relatório europeu sobre a inovação é disso uma prova acabada.

Diz-nos a edição desse relatório que Portugal abandonou o grupo de países moderadamente inovadores para passar a integrar o conjunto das nações fortemente inovadoras. Portugal é o único país do Sul da Europa a dispor deste estatuto. Está em 12.º lugar na Europa dos 27, ao lado de países como a França ou a Alemanha, à frente de concorrentes como a Espanha e muito longe de países como a Polónia. Em dois anos, Portugal subiu cerca de 20% na sua pontuação, e se faz fraca figura na qualificação dos recursos humanos, lidera na inovação e está muito bem posicionado na área dos sistemas de investigação.

É caso para fazer uma festa? É e não é. É porque os indicadores do relatório nos provam a existência das ferramentas que estão na base de uma economia moderna e com futuro. Não é porque, dispondo destas ferramentas, o desempenho da economia portuguesa é muito pior do que o de muitos países menos inovadores ou com sistemas de investigação menos robustos.

É útil reflectir sobre esta discrepância. No discurso político e nas políticas públicas que, se tiveram o mérito de equipar universidades e centros de investigação competentes, falharam ao não arrastar conhecimento para as empresas. É por isso que há tão poucos doutorados no sector privado. É por isso que as exportações se fazem com produtos de baixa componente tecnológica. É por isso que a gestão privada continua débil, apesar da boa notícia que nos mostra as pequenas empresas a apostar na ciência.

A acreditar no Innovation Scoreboard, Portugal não devia registar um crescimento acima da média europeia: devia estar no pelotão da frente. Não está porquê? Porque a economia privada continua a ser um parente pobre das prioridades políticas. Uma reflexão obrigatória para o país que nos prometem após o fim da pandemia.

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