Qual o impacto da covid-19 nas suas vítimas directas?

A estigmatização e a desconfiança, fruto da falta de informação, aumenta a propagação da doença na medida em que as pessoas que venham a ficar doentes terão tendência a ocultar e a não procurar ajuda.

Foto
"É certo que ainda existem muitas incertezas sobre esta doença e é natural que as pessoas tenham medo" @petercalheiros

A pandemia de covid-19 obrigou-nos a mudar a nossa vida e a nossa forma de pensar e de estar no mundo, gerando sentimentos de medo e de incerteza perante aquilo que desconhecemos ou não controlamos. Mas que impacto social teve a covid-19 naquelas pessoas que foram vítimas directas e ficaram efectivamente doentes?

A investigação sobre o stress agudo e as situações de catástrofe permitem-nos obter algumas pistas importantes sobre os efeitos adversos prolongados no tempo e que causaram impacto psicológico acrescido nas pessoas que padeceram com a covid-19. São conhecidos alguns relatos de pessoas que tiveram a doença, desde o público em geral até os profissionais de saúde, com sintomas físicos intensos, fadiga, dificuldades de sono, a solidão, medo do contacto social e humor deprimido. Há ainda pessoas que relataram situações extremas de stress e de medo durante a doença que se mantém mesmo depois da alta, além de um forte sentimento de injustiça dado que nada identificam como motivo para terem sido contagiadas.

Há a considerar que, sobretudo para aquelas pessoas que sofreram mais ou que estiveram em situação crítica, o risco de depressão, de ansiedade, de perturbação aguda de stress ou de perturbação de stress pós-traumático aumenta, com sintomas como mal-estar psicológico intenso, dificuldade de concentração, hipervigilância, esgotamento físico e emocional.

Como se não bastasse a força dos sintomas físicos, para muitos que tiveram a doença, o impacto da covid-19 manifesta-se também sob a forma de estigma. Desde os tempos de maior força da pandemia que ouvimos os relatos de pessoas doentes cuja presença é rejeitada na sua zona de residência e de profissionais de saúde por todo o mundo que foram estigmatizados e rejeitados na sua vizinhança devido ao seu trabalho hospitalar.

Aquando da procura de significado para a enfermidade da qual sofreram, encontramos pessoas que referem que aquilo que as fez pensar durante e depois da doença relaciona-se com a consciência de que somos frágeis e que a qualquer momento tudo o que temos por certo pode deixar de o ser. Por outro lado, encontramos um leque de pessoas cuja marca do vírus reflectiu-se no olhar e nas atitudes das pessoas, sejam vizinhos, amigos, colegas de trabalho e até familiares que, quando souberam do contágio, transpareceram medo e aversão. Isto fica gravado na memória e deixa um gosto amargo.

É certo que ainda existem muitas incertezas sobre esta doença e é natural que as pessoas tenham medo quando percebem que alguém na porta ao lado está doente, podendo ser fonte de discriminação. Sendo este comportamento inaceitável, é preciso mobilizar as figuras de referência nas comunidades, através de iniciativas sociais para combater a falta de informação e promover comportamentos que transmitam segurança.

A estigmatização e a desconfiança, fruto da falta de informação, aumenta a propagação da doença na medida em que as pessoas que venham a ficar doentes terão tendência a ocultar e a não procurar ajuda. Além disso, pode afectar a recuperação emocional de quem se encontra fragilizado, fazendo com que as pessoas afectadas saiam desta situação ainda mais desfavorecidas.

Com acções simples podemos ajudar quem sofreu com o vírus a aumentar a sua resiliência, ou seja, a sua capacidade de superar, de um modo adaptativo, a adversidade, mantendo simultaneamente um funcionamento psicológico e físico adequados. Basta um investimento pessoal ou na comunidade de uma atitude de cuidado, de solidariedade e de empatia, e a lembrança de que ainda há muito por saber sobre este vírus e que o mesmo pode afectar a qualquer momento qualquer um de nós ou os nossos familiares.